Instituições pouco fotogénicas (I)


Cavaco Silva afirmou hoje que o bloqueio na eleição de um Provedor da Justiça atinge a credibilidade das instituições. Comentando as declarações do Presidente na TSF, António Costa Pinto defende que Cavaco Silva é aquele que sai beneficiado desde caso, pois o desagrado e a contestação dos portugueses face ao Parlamento são crescentes. Sobre isto, dois pontos (e um terceiro mais logo).

(1) o PSD fez aquilo que lhe compete. Tendo o PS uma maioria absoluta, o PSD procura contrabalançar o poder do PS e impor-se, sobretudo não permitindo que o PS decida sem o seu consentimento. O PSD, evidentemente, não está contra a proposta do PS por se tratar de Jorge Miranda, mas precisamente porque a proposta é do PS. Assim, uma decisão aceitável para o PSD seria uma em que o nome que propõe é aceite, ou uma em que um outro nome fosse escolhido por consenso entre PS e PSD (negociação prévia, e não posterior). Os partidos estão, no fundo, a jogar o seu jogo, e a jogá-lo bem. O problema não está na forma como o jogam, está simplesmente no facto de serem jogadores predominantes.

(2) o Presidente da República acha que as instituições democráticas portuguesas ficaram mal na fotografia, e que este bloqueio na eleição de um Provedor da Justiça afecta a credibilidade das nossas instituições. Acha muito bem. Contudo, peca por dizê-lo demasiado tarde e identificá-lo à eleição do Provedor da Justiça. A credibilidade das nossas instituições tem vindo a ser manchada por diversas ocasiões, repetidamente, e nada começou com a eleição do Provedor da Justiça. Entre Lopes da Mota e as pressões no caso Freeport, o próprio caso Freeport e a incapacidade da Justiça em investigar casos com altas personalidades, e um Conselheiro de Estado envolvido num caso de corrupção grave, as instituições portuguesas têm ficado mal em muitas fotografias. Permitam-me o trocadilho, mas diria até que só o ano de 2009 já constitui um volumoso álbum negro.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 20:42 | comentar | partilhar