Entrevista de Sócrates: notas soltas

(1) A entrevista correu muito bem a Sócrates. Deixou-se entrevistar, permitindo interrupções, evitou impor-se sobre a posição de Ana Lourenço, não reagiu mal às questões levantadas. Foi até relativamente humilde. E isso tornou esta entrevista essencialmente num exercício de estilo, o que nos diz que os responsáveis pela sua imagem neste ano eleitoral realçaram fortemente a importância de uma atitude menos agressiva por parte do Primeiro-Ministro. Ele cumpriu: respondeu a tudo com virtudes (coragem, humildade, integridade, caridade) e foi compreensivo para com a insatisfação de alguns sectores profissionais. Se mantiver este registo, poderá convencer algum eleitorado (sobretudo à esquerda) que o déspota que nele vivia já era. Só acredita quem quiser.

(2) As questões polémicas (Freeport e Lopes da Mota) não foram sequer abordadas. Porque não? As pressões sobre a investigação do Freeport são um assunto que interessa aos portugueses, e que está directamente relacionado com um dos mais pontos fracos do país: a Justiça. Julgo que terá sido uma falha importante por parte de Ana Lourenço, isto partindo do pressuposto (duvidoso, digamos) que esse assunto não foi riscado por um lápis azul.

(3) O reconhecimento de erros de percurso durante o seu governo foi habilidoso. Note-se que apontar a Cultura como uma das áreas onde pouco investiu e hoje se arrepende é tocar num ponto praticamente inofensivo, servindo este reconhecimento exclusivamente o propósito de mostrar o bom carácter do Primeiro-Ministro. A grande maioria dos portugueses está absolutamente indiferente à Cultura, e num período de crise ainda mais.

(4) Quanto àquilo que distingue o PS do PSD, e os seus respectivos líderes, Sócrates evitou polémicas mas referiu subtilmente dois pontos que enfraquecem Manuela Ferreira Leite perante o eleitorado, ambos de orientação conservadora: o casamento para procriação e o emprego de trabalhadores estrangeiros nas obras públicas. Com isto, Sócrates pôs na mesa dois chavões da esquerda (casamento homossexual e minorias estrangeiras), identificando o PSD com uma posição excessivamente conservadora, que não é representativa do partido, mas que em Portugal se tem por uso apontar à direita. Fica a mensagem para o PSD: deve investir mais numa direita mais liberal.

(5) Inesquecível o arrebitar de olhos de José Sócrates quando, nas declarações finais, Ana Lourenço refere que o Primeiro-Ministro foi militante da JSD. Deve ter doído.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 22:35 | comentar | partilhar