O dia seguinte


Leio os jornais do fim-de-semana. Vejo nuvens negras sobre a economia portuguesa. Previsões de crescimento anémico. Sondagens que mostram os portugueses cada vez mais pessimistas. Leio uma entrevista ao ex-ministro Jorge Coelho, presidente da Mota-Engil, a maior empresa de construção nacional. Fico a saber que o Governo quer colocar, através da CGD, outro ex-ministro socialista, Mário Lino, à frente da Cimpor. Leio que a Provedoria está a investigar as adjudicações directas feitas pela empresa Parque Escolar.
Tudo isto a par das notícias sobre a eleição de Pedro Passos Coelho.
Não é animador o panorama com que se depara o novo presidente do PSD. O problema não é tanto Sócrates, cada vez mais descredibilizado, mas como ele deixa o País. Uma economia decadente. Um Estado colonizado pelos interesses partidários. Instituições descredibilizadas, incluindo os partidos. Desemprego elevado e uma crise social eminente. É esta a pesada realidade que Passos Coelho terá de enfrentar. É isto que é preciso mudar, usando o verbo “obamiano” por ele escolhido. O caminho não será fácil.
Passos Coelho preparou-se durante dois anos para este dia. A campanha correu-lhe bem. Mostrou persistência e vontade em liderar o PSD, o que é uma qualidade. Falta agora o mais difícil: afirmar-se como candidato a primeiro-ministro. Juntar uma equipa sólida, passando por cima da lógica do aparelho, e construir um projecto alternativo credível para governar.
Para isso tem de mostrar que o PSD é diferente do PS. E que ele próprio é diferente de José Sócrates. Não basta esperar pelo desgaste do governo. Terá de explicar como vai fazer crescer a economia (algo que os socialistas não conseguiram), como vai reduzir o peso do Estado (e não apenas privatizar à pressa por causa do garrote orçamental), e como vai libertar o Estado dos interesses partidários e económicos que dele se têm apropriado. Só isso permitirá passar dos 43.949 militantes que o elegeram, para os dois milhões e meio de portugueses necessários para governar com maioria absoluta.
Passos Coelho deu sinais positivos, no discurso de vitória, ao convidar os seus adversários para os órgãos nacionais do partido. Paulo Rangel mostrou dignidade ao aceitar o resultado e ao manifestar-se disponível para colaborar. Apesar da sua candidatura ter surgido tarde, Rangel fez uma boa campanha. Mostrou inteligência e conseguiu lançar novos temas e propostas para a discussão política: mobilidade social, descolonização do Estado e a aposta numa sociedade descentralizada, com mais autonomia e responsabilidade dos cidadãos. Rangel confirmou-se como um talento político da nova geração. As suas ideias são um capital político para o futuro.

publicado por Paulo Marcelo às 10:39 | partilhar