Das duas, uma

Os que por aí vão insistindo (como, ontem, um cavalheiro exaltado numa conferência de imprensa no sossego de Lisboa) em falar dum "outro Holocausto" infligido pelas forças armadas israelitas aos habitantes de Gaza e aos "Palestinianos" em geral, ou são ignorantes ou são praticantes de uma má fé dificilmente qualificável.

O que está acontecendo em Gaza é, realmente, uma miséria. Que me parece, em grande medida, "inevitável" - ainda que hesite em dizê-lo assim (as aspas não salvam tudo), com esta facilidade "verbal" (julgo saber que estas palavrinhas -dum tipo com a casa de pé e que, em princípio, tem-se a si e aos seus como seguros, isto é, vivos, nas próximas horas e amanhã- estão a anos-luz do que lá se passará e, se tentarmos ser honestos, há que reconhecer que o verbo não sangra e não dói como os corpos atingidos: o nosso e o dos outros). Não deixa de ser verdade que há algo de atroz em tudo aquilo: de facto, uma criança palestiniana não tem culpa pelo Hamas. Mas isso, precisamente isso, não deveria fazer pensar apenas os que tomam partido por Israel. Também os outros, tantas vezes aliados objectivos (senão cúmplices) do terrorismo palestiniano, deviam, por entre o clamor indignado de sofá, pensar um pouco nisso. Pensar qual o sentido do Hamas (e outros) transformarem as crianças palestinianas em alvos do Tzahal.

Ainda assim (e reconheço que este advérbio é enorme), falar aqui em "Holocausto" é, repito, ignorância ou má fé. Ignorância, se, quem diz isso, não tem conhecimento do que foi o "Holocausto" (talvez mais apropriadamente, Shoah...). As vítimas indefesas e inofensivas. As vítimas objectivamente vítimas, por terem nascido. A motivação, o planeamento, os meios, os métodos, o objectivo. O objectivo definitivo.
Contudo, o problema de muito boa gente é, na verdade, a má fé. Sabem muito bem o que foi o "Holocausto" e sabem muito bem que não é aplicável aqui. E têm plena consciência da ironia obscena que é acusar Israel disso. Mas fazem-no. Porque sacrificaram a sua honestidade às suas opções "ideológicas". Já decidiram antecipadamente que Israel, faça o que fizer, está errado ou que, pura e simplesmente, não deve existir como país. Tudo o resto são meios "retóricos" e manipuláveis, já sem qualquer densidade "moral", sujeitos ao serviço daquele "fim".
publicado por Carlos Botelho às 16:14 | partilhar