Do governo das mulheres; ou Das coisas que a ciência de hoje não alcança

(Alexandre, dirijo-me a ti em discurso directo, como se estivéssemos à conversa a beber um copo; a grande desvantagem de se tratar de um cenário imaginário, e não da realidade, é que não me poderás responder sempre que eu estiver a ser menos preciso ou a interpretar mal o sentido das tuas palavras. Mas esta é uma limitação dos posts irresolúvel.)

Começo pela tua crítica ao que seria o meu primeiro pressuposto discutível. Sim, discutível, no sentido de que ele merece, quanto a mim, discussão, não devendo ser à partida descartado. Eu refiro “o momento civilizacional mais rasteiro do Ocidente” e qualifico a expressão com recurso aos filósofos, escritores, e compositores. Passo a explicar. Não encontro hoje um filósofo que consiga descrever os limites da política como Platão, um escritor que consiga perscrutar a condição humana como Dante, e um compositor que consiga tocar o meu espírito como Bach. Mas nem sequer precisamos de nos estender tanto no tempo e no espaço. Ali entre o final do século XIX e o início do século XX, num curto espaço de 50 anos, a Alemanha deu a conhecer ao mundo as obras de Marx, Nietzsche, Freud, e Weber. Quatro grandes em 50 anos. Na Alemanha. Nas vésperas de Hitler ascender ao poder. O melhor e o pior ali tão perto. (E escuso de dizer que reconheço a grandeza das obras deles, sem que concorde com elas todas, ou esqueça as implicações graves de algumas. O meu ponto é outro.) Qual é o autor que no início do século XXI consegue rivalizar com qualquer um deste 4! autores de craveira universal? Não conheço nenhum. Os nomes que refiro servem para ilustrar o que pretendo significar quando falo de “grandeza”, expressão de tal forma esquecida nos tempos que correm, que dificilmente a posso usar sem me expor ao ridículo. E como ilustração para o pressuposto do que fomos e do que somos, penso que não está nada mal - e dá que pensar. Quanto à democracia, que tu explicitamente referes, mas de que eu nem sequer falei, ela vai aparecendo , aqui e ali, no meio de outras coisas, para quem a conseguir entrever.

Prossigo agora com a tua crítica ao que seria o meu segundo pressuposto errado. O post que serve de base ao meu trata de um tema relevante no que diz respeito à educação dos rapazes e das raparigas. Tendo em conta os números que vão sendo publicados e a experiência que vamos tendo nas universidades, parece-me evidente que alguma coisa não corre bem. Partindo do princípio que os rapazes não são menos inteligentes do que as raparigas, somos obrigados a concluir que o ensino actual está feito à medida das raparigas. Não sou especialista na matéria, mas arrisco uma explicação. Sendo as raparigas adolescentes, de um modo geral, mais disciplinadas e menos revoltadas, mais certinhas e menos estroinas do que os rapazes, e estando o ensino actualmente mais democrático e menos hierarquizado, não me espanta que as raparigas consigam ser melhores na escola do que os rapazes. Penso que esta explicação será mais adequada aos tempos que correm do que aquela que tu dás como exemplo. E também aqui poderá haver alguma relação entre o sucesso educativo actual das mulheres e os ventos que correm no mundo ocidental, abrindo uma porta de entrada para o meu pressuposto. Evidentemente, haverá outras variáveis a ter em conta, provavelmente mais fáceis de identificar e quantificar, mas nem por isso necessariamente mais determinantes. De qualquer modo, até estou aqui a conceder bastante espaço de manobra à tua crítica. Se observares com atenção o meu post, lerás no fim que ele vem “A propósito ou a despropósito deste post aqui”, alertando logo o leitor para o facto de o post de base ser mais um pretexto do que um conteúdo para a minha análise.

Ainda no que respeita à crítica do que seriam os meus pressupostos discutíveis, concretamente o terceiro, em que indicas a eventualidade de as mulheres procurarem a grandeza, mas ainda estarem, em diversas áreas da realidade, privadas de igualdade, conto-te uma história breve mas que exige algumas linhas. Há uns anos, na Califórnia, fiz um curso, em regime de seminário, orientado por uma professora, com um título que seria qualquer coisa como “Filosofia da política feminista”. Em cerca de dezena e meia de alunos, eu era o único homem, com duas ou três lésbicas ali pelo meio, talvez mais até, como é comum haver nestas cadeiras. Naturalmente, não escolhi aquele seminário por pensar que iria aprender grande coisa, antes por mera mas sincera curiosidade, para tentar perceber o que se ensina neste tipo de cursos e qual a atmosfera intelectual que os envolve. Até posso dizer que nem tudo foi assim tão mau, havendo um ou outro aspecto interessante. De qualquer modo, para o efeito que pretendo, lembro-me de um dia ter feito a pergunta canónica, “Por que é que a história da humanidade não tem ‘grandes mulheres’ filósofas, escritoras, artistas, compositoras, ou, até tendo residualmente uma ou outra, por que é que são sempre em número muito menor, e de menor grandeza, do que os homens correspondentes”. Para te dar um exemplo, Porque é que só há uma Hannah Arendt? E porque é que, onde quer que haja uma das poucas Hannahs Arendt do mundo, há logo ali ao lado, ou acima, um Heidegger que a mete imediatamente na sombra? Para uma pergunta canónica, uma resposta canónica. Uma delas respondeu: “São poucas as mulheres grandes, ou nem sequer existem, porque foram desde sempre oprimidas pelo patriarcalismo dominante”. Ao que eu repliquei, “Muito bem, mas dadas as circunstâncias políticas actuais, a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, quanto tempo ainda é que teremos de esperar para começarmos a assistir à emergência de ‘grandes mulheres’, tão grandes como os ‘grandes homens’?” Não me lembro da resposta, pelo que suspeito que ou não existiu nenhuma ou foi qualquer coisa como aquilo que tu escreveste no âmbito do terceiro pressuposto: que as mulheres ainda estão hoje privadas da verdadeira igualdade de oportunidades. Ora, se a resposta continua a ser esta, então palavrão! – a condescendência, por vezes necessária, também tem os seus limites. Não podemos estar permanentemente a arranjar subterfúgios para as coisas que não conseguimos ou não queremos explicar.

Opressão sempre houve. Aliás, muitos homens sofreram no passado uma opressão política infinitamente maior do que a que sofrem as mulheres de hoje em dia no Ocidente. E essa mesma opressão política do passado não impediu muitos homens de serem grandes, de se conseguirem libertar das grilhetas que os acorrentavam e limitavam, e realizar grandes obras. Precisamente porque eram potencialmente grandes, actualizaram essa grandeza, superando as dificuldades. E é por esta razão que a questão genérica que exponho no meu post não é inócua. Ou seja, eu penso que o desafio que hoje se coloca às mulheres ainda está aí à nossa frente, principalmente à frente delas, para ser realizado e bem realizado. E é por esta outra razão que eu referi, sem ironia, diga-se!, que se pode tratar de uma “coincidência trágica” que, precisamente no momento histórico em que as mulheres podem finalmente revelar plenamente a sua “grandeza”, a cultura do Ocidente se encontre tão pobre que a grandeza lhes esteja vedada. Trágica para as mulheres, pela coincidência que indico, mas trágico também para os homens, porque também a eles é vedada agora a possibilidade de serem grandes. Trágico para a humanidade, porquanto a superação da opressão política do género feminino parece coincidir com a opressão cultural da inteligência humana. Sublinho, para já, o verbo “coincidir”. E, se for este o caso, estamos hoje melhor ou pior do que no passado? É a opressão política de ontem mais ou menos grave do que a opressão cultural e intelectual de hoje?

Quando eu afirmo como quem pergunta, ou pergunto como quem afirma, “Se as mulheres conseguiram finalmente conquistar o lugar cimeiro da humanidade precisamente porque já não existe grandeza no mundo!”, não quero significar que as mulheres conseguiram conquistar o lugar cimeiro porque o mundo já não tem grandeza, como se as mulheres tivessem conquistado o seu lugar no mundo da mesma maneira que os alemães entraram pela França adentro. Estou antes a sugerir que as condições de possibilidade para a ascensão das mulheres – entre muitas outras conquistas que valorizamos hoje – poderão ser as mesmas que concorrem para a carência de grandeza que caracteriza o nosso tempo. Entretanto, voltando concretamente ao teu texto, a forma é importante, mas não legitima tudo. As condições de possibilidade para a ascensão das mulheres e carência de grandeza poderão, ou não, estar no mesmo plano da afirmação do rock & roll no panorama musical (será até é uma boa ilustração), da menoridade dos estadistas que nos governam (outra boa ilustração), e da afirmação do sushi na cozinha actual (uma ilustração menos feliz, quanto a mim), mas há uma diferença política essencial: ninguém estaria disposto a trocar a grandeza do passado para poder ter estas coisas que indicas, ao passo que muitos achariam que faz todo o sentido trocar a grandeza do passado pela possibilidade de afirmação de todas as mulheres no mundo. E, caro Alexandre, que só não virás a ser conhecido como Alexandre o Grande porque tiveste o azar (ou a sorte) de ter nascido neste tempo, e estares agora a trilhar os caminhos das ciências sociais modernas, e não da filosofia política que a precede e conheceste em tempos, não é menos importante questionar os nossos males do que celebrar os nossos bens, principalmente se as causas de uns e outros forem as mesmas ou situarem-se num mesmo plano. Se o que escrevo é verdadeiro ou falso, não sei, não tenho a certeza. O que sei é que me parece ser importante pensar nestas coisas.

E se estivermos à espera da ciência (aquela que se vai fazendo de há cem anos ou assim para cá, primeiro tendo como objecto a natureza, agora as sociedades) para ela estabelecer relações de causalidade entre todas estas coisas de que falei, bem que podemos esperar sentados até morremos nós, os nossos filhos, os nossos netos, os nossos bisnetos… A ciência (aquela que se vai fazendo agora) é boa para a construção de aviões e o diagnóstico e cura de doenças, o que é fantástico, ou para sabermos quais os efeitos que a escolha da escola tem nos alunos afro-americanos de Washington, DC, o que é muito bom também, ou, ainda, para averiguar a tal questão das raparigas terem actualmente mais sucesso no ensino, o que neste caso daria muito jeito, mas a ciência (aquela que se vai fazendo agora e que tu pareces estar a celebrar no teu post) nada tem a dizer sobre a cultura do Ocidente ou a grandeza humana.

Que tudo aquilo que já não entra dentro das possibilidades da ciência (aquela que se vai fazendo agora), tenha de passar para o domínio do inexistente e deixar de ser objecto da nossa preocupação, é apenas mais um exemplo do momento civilizacional rasteiro do Ocidente em que hoje vamos vivendo.
publicado por Nuno Lobo às 10:36 | comentar | partilhar