Os descaminhos da direita


No i, Rui Ramos escreve um artigo em que recorda o que o levou "para a direita". Conclui dizendo que

"O ano passado, li um texto em que Bernard Henri-Lévy justificava as suas parcialidades políticas. Descobri, sem espanto, que as razões pelas quais ele diz que é de esquerda são precisamente as mesmas pelas quais eu digo que não sou de esquerda, ou, se preferirem, pelas quais eu estou à direita (não digo "ser de direita", porque esse é um ponto de vista da esquerda). Resumo: ele fez-se de esquerda para ser livre; eu fui para a direita pela mesma razão. Os caminhos da liberdade são muitos e misteriosos. Mas talvez só à direita se possa perceber isso."


Na verdade, desde há muito que desconfio das narrativas pessoais como demonstração da superioridade das identidades políticas. Pois sempre me pareceu que estes caminhos individuais de libertação de contextos, traumas ou dogmas, que sufocavam numa vida do "antes", rumo a um "depois" luminoso nunca podiam ser mais do que um caminho em que a identificação político-ideológica significa uma espécie de redenção pessoal. À direita, sobretudo na perspectiva conservadora dos vários conservadorismos, esta associação íntima e existencial entre, por um lado, uma disposição política e uma orientação intelectual, e, por outro lado, a construção de uma nova identidade pessoal, limpa das manchas de uma outra vida, anterior, mais ou menos consciente, é sempre perversa. Precisamente porque o conservadorismo não é uma ideologia. O conservadorismo pode ser uma introdução à liberdade, mas nunca é um caminho de libertação. Isso seria uma contradição nos próprios termos. A libertação pessoal exige outras coisas que o conservadorismo não pode dar, ou que o conservadorismo já supõe. Em certo sentido, o caminho da libertação pessoal é o contrário de "estar à direita".
publicado por Miguel Morgado às 11:57 | comentar | partilhar