O impacte económico da educação deficiente


The economic impact of the achievement gap in America’s schools é o título do mais recente estudo da McKinsey & Company. O ponto de partida é já conhecido: o PISA 2006 mostra que os alunos americanos estão no 25º lugar a matemática e em 24º em ciência, muito abaixo da média dos resultados dos restantes países da OCDE e mais abaixo ainda, naturalmente, dos países com melhores resultados, como a Finlândia, Coreia, Holanda, Nova Zelândia, Canadá e Suíça; os alunos americanos brancos obtêm melhores resultados do que os pretos; os ricos melhores resultados do que os pobres; e alunos com uma herança social semelhante obtêm resultados muito diferentes de sistema escolar para sistema escolar e de escola para escola.

Para além dos custos sociais habitualmente enunciados quando se discute estas questões educativas, o relatório procura salientar o custo económico da subutilização do potencial dos alunos americanos: se os EUA tivessem conseguido diminuir a distância que os separa dos países com melhores resultados educativos, como a Finlândia e a Coreia, o PIB de 2008 poderia ter sido entre $1.3 e $2.3 biliões mais elevado (um acréscimo de 9 a 16 por cento). Dito por outras palavras: o custo económico dos maus resultados educativos nos EUA equivale a uma recessão nacional permanente, com um custo económico anual maior do que a recessão que actualmente afecta a economia americana.

Segundo o relatório, o custo económico dos maus resultados educativos nos EUA não afecta apenas as classes baixas, mas estende-se às classes médias; aliás, ao contrário das famílias mais desfavorecidas, que estão conscientes de que as escolas dos filhos ensinam mal os seus filhos, o estudo revela que as famílias das classes médias não têm consciência de que os seus filhos estão a ser deficientemente preparados para os desafios que a economia global do conhecimento naturalmente lhe irá impor num futuro muito próximo.

Por outro lado, uma visão optimista dos resultados, sustentada, sobretudo, no facto de alunos com uma herança social semelhante obterem resultados muito diferentes de sistema escolar para sistema escolar e de escola para escola, sugere que os resultados podem ser substancialmente melhorados se os alunos forem sujeitos às melhores práticas educativas: não obstante os factores sociais extra-escolares terem uma influência nos resultados dos alunos, o estudo revela que as boas práticas educativas, naturalmente associadas às boas políticas educativas, são igualmente determinantes para a melhoria dos resultados escolares dos alunos e consequente melhoria das suas perspectivas de vida.

O relatório também chama a atenção para a necessidade de se desenvolver cada vez mais e melhores mecanismos uniformes de avaliação, prestação de contas e comparação dos resultados dos alunos e dos professores, pois só assim será possível distinguir as boas práticas educativas das más e adoptar conscientemente as primeiras em detrimento das segundas.

É impossível ler o relatório da McKinsey & Company e não se pensar no caso português. Os resultados do PISA 2006 mostram que os alunos portugueses estão ligeiramente abaixo dos americanos, concretamente no 26º lugar a matemática e 24º em ciência, logo, também muito abaixo da média dos resultados dos restantes países da OCDE e a uma distância substancial dos países com melhores resultados. É certo que Portugal é um país muito diferente dos EUA e que as ambições de um e de outro não são exactamente as mesmas. Talvez os EUA tenham razões para se sentirem particularmente alarmados com a distância que os separa dos países com melhores resultados educativos; por outro lado, precisamente porque Portugal não tem as potencialidades dos EUA, os maus resultados educativos dos alunos portugueses devem ser alvo de uma preocupação acrescida da nossa parte.

Seria interessante percebermos, também nós, quais os custos económicos que pagamos pelo facto de estarmos consideravelmente distantes dos países com melhores resultados educativos. Não menos interessante seria avaliarmos com propriedade quais os custos económicos que pagamos por termos um Ministério da Educação que adopta uma política educativa centrada na propaganda em desfavor da verdadeira aprendizagem. Não é por acaso que a primeira nota do relatório da McKinsey & Company diz o seguinte: “In this analysis, we focus mainly on ‘achievement,’ which reflects the mastery of particular cognitive skills or concepts as measured through standardized tests, rather than ‘attainment,’ which measures educational milestones such as graduation rates.” Em suma: o PISA revela o estado da educação portuguesa e os números do Ministério da Educação revelam o que a Ministra quiser.

Finalmente, está mais do que na hora de Portugal começar a desenvolver mecanismos uniformes de avaliação, prestação de contas e comparação dos resultados das escolas, professores e alunos; está mais do que na hora do Ministério da Educação começar a publicar os resultados das escolas, dos professores e dos alunos. A inexistência de indicadores educativos torna praticamente impossível que se desenvolva em Portugal um estudo semelhante ao que a McKinsey & Company desenvolveu para o caso americano. Sem indicadores não há estudos; sem estudos não há boas políticas públicas de educação; sem boas políticas públicas de educação não há boas práticas educativas; sem boas práticas educativas não há boas escolas, bons professores e bons alunos; sem bons alunos não há bons profissionais; e sem bons profissionais não há desenvolvimento e crescimento económico.
publicado por Nuno Lobo às 19:40 | comentar | partilhar