Mau era se tivesse ganho o Camões

Ou o Vasco da Gama. Ou o Prof. Egas Moniz, ou Pedro Nunes. Abria-se de maneira incontrolável a torrente habitual de disparates acerca do valor da televisão na nossa sociedade. Se esse tivesse sido o desfecho teríamos agora tudo quanto é “intelectual” palavreando, em mesas redondas na TSF e artigos no Jornal de Letras, acerca do “bom serviço” prestado pela TV: “que serve para aproximar as pessoas da história do país” (não serve); que “ensina e educa” (nem uma nem outra); “que traz a cultura até aos cidadãos” (não traz); “que promove a consciencialização acerca do nosso património histórico” (não promove); “que questiona a história” (isso é que era bom...). Assim, pela via dura, os bem pensantes talvez comecem a notar que o que a TV faz sempre é transformar numa comédia tonta tudo aquilo em que toca.

O voto foi de protesto? Desculpem lá (sobretudo os meus camaradas cachimbadores) mas não creio. Isso é pedir muito a um telespectador. Talvez só uns poucos o tenham feito. O que aconteceu foi que as pessoas reagiram como habitualmente: responderam de igual para igual à imbecilidade que lhes era proposta e desceram ao nível boçal que a TV promove. “Epá ‘bora aí votar no Salazar”. Para quê? “Epá, pelo gozo, pá; para chatear, para avacalhar, meu.” Assim. Exactamente como num episódio dos “Morangos”...

A TV, como sempre, dá a realidade em formato de cartoon. Desta vez, para abandalhar e pelo gosto de chatear, os espectadores decidiram votar no lobo mau. Numa outra qualquer ocasião, por razões igualmente parvas (sentimentalismo, pseudo-intelectualidade, etc.) vão votar num dos três porquinhos ou numa fada madrinha qualquer.

Mau era se tivesse ganho o Fernando Pessoa e estivéssemos agora a falar como se o resultado de um concurso parvo na TV traduzisse alguma coisa séria. Isso é que era mesmo mau. Enquanto for para dar bola, filmes, novelas e até concursos cabotinos, tudo bem. O problema é quando a televisão quer “educar”, “ensinar”, “problematizar”, “levar à reflexão” ou fazer qualquer outra dessas coisas “elevadas” ou “nobres” -- ou cheias de “cidadania”. A televisão é má (e talvez até perigosa) quando se toma ares de séria.
publicado por Joana Alarcão às 12:25 | partilhar