Domingo, 07.01.07

Paradoxo da escolha

Uma amiga acabou de me enviar este excelente vídeo. Demora uns minutos mas recomendo vivamente. Demonstra como o aumento do leque de escolhas - definição clássica de desenvolvimento - pode não conduzir a uma maior felicidade dos indivíduos. O argumento de Barry Schwartz, sociólogo e psicólogo americano, acaba por ser, entre outros aspectos, um poderoso argumento contra o relativismo ético.
publicado por Paulo Marcelo às 16:36 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 05.01.07

Evolução Reaccionária

O 31 não deveria fazer destas coisas, pois obriga-nos a recordar textos que por sanidade tinhamos esquecido. Pior, abre o baú, e olhem o que saltou do álbum de recordações de Janeiro de 2004:

«Contra-revolução

A expressão é forte. Mas passados dois anos de governo da coligação de direita, que tem revelado um PSD à direita do seu próprio centro e um PP que fez sem pudor o seu coming out reaccionário, parece cada vez mais claro que está a fazer o seu caminho um verdadeira contra-revolução social, que deita por terra muitos dos adquiridos de Abril. Abril, depurado dos seus contornos mais datados, afirmou, para além da democracia partidária e das liberdades políticas e cívicas fundamentais, dois princípios incontornáveis da democracia social: a igualdade de oportunidades e a protecção social pública. O primeiro preconiza uma meritocracia, mas uma meritocracia a sério e não a meritocracia conservadora viciada que os partidos da direita se gabam de defender, e que se estrutura por cima do erro propositado de tratar de forma igual, aquilo que à partida é desigual, agravando, como é evidente e esperado, as desigualdades de partida entre as pessoas. O segundo assenta na estruturação de um sistema público de protecção social, na velhice, na doença, no desemprego, na pobreza. E neste aspecto a constituição é progressista e programática. O que existe deve ser aprofundado, na medida das possibilidades do Estado. Como explica o Professor Gomes Canotilho, a Constituição consagra um princípio de proibição de retrocesso revolucionário, ou de evolução reaccionária, que é como quem diz, o Estado pode não avançar muito no campo dos direitos sociais, mas não pode é voltar para trás.

Ora, tudo isto cai por terra com este governo e, meus caros, cai por terra não por razões conjunturais ligadas ao orçamento, mas porque se está a tentar fazer passar um ajustamento estrutural ideologicamente orientado, que muda efectivamente o Portugal em que vivemos. Julgo que os portugueses não elegeram o actual governo com este tirocínio. Ao nível da igualdade de oportunidades, o desinvestimento patente no ensino, sobretudo no ensino superior, bem como nas áreas da qualificação e da formação profissional, deixa clara qual é a ideia. E quanto ao aprofundamento do Estado Social temos um retrocesso em várias frentes. Já nem está em causa o ataque a avanços recentes na protecção social, como o rendimento mínimo. Mas a eliminação de direitos há muito consolidados que constituem aspectos essenciais do modelo de Estado em vigor até aqui. Que dizer do retrocesso no subsídio de doença para pessoas que descontaram para isso mesmo? Que dizer do sub-financiamento/plafonamento da segurança social? Que dizer da mudança abrupta das regras das reformas na função pública, gorando de um dia para o outro as expectativas legítimas de milhares de pessoas que, trabalhando há mais de trinta anos se julgavam à beira da reforma? Que dizer da privatização do serviço nacional de saúde, dando origem a hospitais que privilegiam doentes provenientes de seguradoras em detrimento dos doentes do sistema público? E, agora, que dizer dos cortes nas comparticipações do ADSE, que em alguns casos atinge os 66% de redução? Que dizer de um Estado que retém transferências obrigatórias dos seus trabalhadores para os sistemas de protecção social, deixando-os, nesse período, sem protecção alguma? Que dizer quando os salários da função pública estão congelados pelo terceiro ano consecutivo, ou seja, a descer em termos reais há três anos, pondo em causa o princípio da não diminuição da retribuição? Dizer não. - MK [Mark Kirkby]»


Nota Técnica: O post acima transcrito tem validade incerta e indexada à natureza do poder em vigor. No protocolo do estado vigente, as considerações submetem-se às conveniências.
publicado por Manuel Pinheiro às 15:11 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Ai os filhos...

Boa notícia: O governo alemão decidiu atribuir incentivos muito consideráveis para promover a natalidade, a começar no dia 1 de Janeiro deste novo ano de 2007. A medida é muito interessante e esperemos que seja imitada por outros países, entre os quais o nosso. Mas é interessante sobretudo porque corresponde ao reconhecimento definitivo da existência de um problema muito grave: até há pouco quem falasse da catastrófica quebra de natalidade do mundo ocidental era condenado a uma série monótona de dichotes de mau gosto e à histeria dos malthusianos e “ehrlichianos”. Isso agora acabou.

A má notícia é que estas medidas vão falhar. Tirando alguma previsível, mas minúscula, recuperação nas taxas de natalidade, não é crível que os alemães passem realmente a ter mais filhos (ou simplesmente a ter filhos) por arrecadarem mais umas massas. Na Europa opulenta as pessoas não deixaram de ter filhos por não terem dinheiro, ou porque não podem oferecer boas condições aos descendentes: Deixaram de ter filhos porque, no fundo, não gostam de viver. Porque, na cultura ocidental contemporânea, a vida tomou a forma de uma longa e penosa doença, que, obviamente, não se deseja a mais ninguém. Como explicou o cantor Robbie Williams numa entrevista que li este Natal: não quero ter filhos porque não quero trazer ninguém a esta vida triste e escura (não é literal, mas era este o sentido). Não há dinheiro (coisa que o senhor Williams tem em abundância) que cure isto.
publicado por Joana Alarcão às 12:29 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Ainda há paciência para ouvir falar dos voos da CIA?

A diplomata, digo, eurodeputada Ana Gomes, agora virou jornalista. Diz que falou com pessoas que viram «coisas complicadas» nos Açores.
Além do gato fedorento, ainda alguém tem paciência para ouvir falar dos voos ilegais da CIA? Às vezes somos tão pequenos.
publicado por Paulo Marcelo às 10:27 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 03.01.07

Economista disfarçado - entrevista

"Economista Disfarçado” é o título de uma das "novas" obras de economia que mais vende no mundo. O autor é ele próprio um “economista disfarçado” que teve a ousadia, para uns; a perspicácia, para outros, de começar a escrever sobre economia de uma forma, diria que, simples. As suas colunas na edição de fim-de-semana do FT são hilariantes. E, isto porque responde, através de teorias de Adam Smith, a questões tais como: Devo ou não casar?”.
A entrevista que junto segue resultou de uma troca de e-mails com o autor, em Fevereiro de 2006. Um trabalho jornalístico sobre o livro e sobre o autor foi publicado no Expresso. Agora seguem as questões em bruto (sem edição e sem recurso ao “complemento telefónico”).
1) Porque é que escolheu as teorias de Adam Smith como ferramenta para responder aos problemas pessoais dos seus leitores(na coluna “ The Dear Economist” in Finantial Times)?
Tim Hardford: When we say 'the tools of Adam Smith' I really mean the latest economic theory. Economics is a funny way of analysing personal problems, partly because economics assumes that people are rational - so if you are rational,why are you writing for advice? This is part of what adds some humour to the answers. At the same time, economics sometimes gives surprising, different answers. Sometimes the surprising answer is the right one.

2) Quais as questões mais complicadas que lhe são colocadas?
Tim Hardford: The most difficult questions are 'should I invest on the stock market?' or 'how can I make sure I have a good pension?'. I find them boring and I don't answer them. Much better to talk about a love affair.

3) O Tim é conhecido por juntar problemas e apresentar soluções. Se tivesse que desenhar um mapa sensorial dos problemas da humanidade, baseado nas questões que recebe, qual seria o quadro?
Tim Hardford: The questions are often about relationships, but small questions - about how to respond to a small kindness or a small insult. One of my favourite recent questions was 'why do my socks always disappear? Why do they never match?'. People concern themselves about these small questions just as much as the big questions about marriage, children and death.

5) Já algum Português lhe escreveu?
Tim Hardford: I get questions from all over the world but I do not think I've received one from Portugal yet.

6) A matemática e a economia são ambos "conceitos" racionais. As emoções não. Será que estas três “variáveis” têm algo em comum? Acredita que o mundo está dividido em dois mundos... ( um racional e outro emocional)?
Tim Hardford: I think that it makes no sense to imagine a world with emotions but no rationality or with rationality but no emotions. Our rationality helps us make decisions but without emotions who cares what the decisions are? The two go together.

7) Qual foi a sua “will” para começar a escrever sobre economia? E, porque é que decidiu começar a “resolver os problemas dos outros” através da teoria económica?
Tim Hardford: I think economics is fun and 'Dear Economist' is a good way to show it. If you can't solve problems, what use are you? And I like the fact that the column is short. People write too many words - especially economists.

Sobre o LIVRO:
1) Usando as suas próprias questões: Who really makes money from fair trade coffee?Why is it impossible to buy a decent second hand car? How do the Mafia make money from laundries when street gangs pushing drugs don't? Who reallybenefits from immigration?
Tim Hardford: The answer to the first question is changing! When I wrote my book, coffeebars were making a lot of money out of fair trade coffee. They would charge a premium of about 15 cents for a cappuccino or espresso made with fair trade coffee. Farmers would receive maybe 1 cent per cappuccino - a big improvement for their lives, but maybe not what customers expected. Since I made this fact public, there are no major coffee companies in Britain which now charge extra for fair trade coffee - either they always use it, or they will use it on request without charging extra. So when I wrote the book the answer was 'the coffee bars'. Now, I am glad to say, the answer is 'the coffee farmers'. For the other answers you'll have to read the book!

2) Quais são os principais factores que estão a contribuir para a visibilidade que o seu livro, que é sobre economia, tem tido?
Tim Hardford: I think the idea of the economist as a detective is a good one. Economics should be about the puzzles of everyday life - why coffee costs what it costs, why we get stuck in traffic jams. So the 'Undercover Economist' is a man who understands these mysteries and can explain them. This seems to appeal to people.

3) Acredita que existe uma relação directa entre “crise financeira” e “procura por livros de economia”?
Tim Hardford: Yes - when things are going badly people look for explanations. But 'The Undercover Economist' is not a book about financial crisis. It's a book about everyday life.

4) O que é que sabe sobre Portugal?
Tim Hardford: Portugal has wonderful coffee, wonderful cheese and wonderful wine. I have had two love affairs there, sung in a choir in Coimbra and wrote chapter three of my book in a house not far from Lisbon. So I feel very affectionately about Portugal!

5) Acredita que seria estratégico para Portugal manter relações fortes com o Brasil e com os Países de língua oficial Portuguesa?
Tim Hardford: Yes, but those relations should not be an excuse for cutting off relations elsewhere. Trade relations can be frightening but they are good news in theend.

6) Três palavras para definir o seu livro…?
Tim Hardford: Fun. (Only one word is needed.)

7) Qual o maior/ melhor facto; qual a nova ideia entre todas as descritas no seu livro?
Tim Hardford: The fact that economics starts with your life everyday, the minute you walk out of your front door in the morning (and perhaps before).

8) Quando é que o seu livro será lançado em Portugal? Quem é que o vai publicar?
Tim Hardford: Presenca. But since we have just agreed a deal I think it will be months before the book appears.
publicado por Joana Alarcão às 19:34 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Fins e Começos… do ano, de siècle, da história

Foi há 200 anos que, depois de ver “a alma do mundo” passar por debaixo da sua janela em Iena, Hegel prenunciou o “fim da história”. Desde então, rezam as versões mais cruas da tese, nada mais se disse de genuinamente novo, nada mais se pensou que não fosse uma mera recapitulação. O homem finalmente se reconciliava consigo mesmo ou com a liberdade que ele é.

Nunca o homem ocidental se sentiu tão situado no “fim da história” como no final do século XIX. O que o aguardava seria tão brutal e trágico que esta observação inocente não consegue esconder um certo toque de ironia cruel. Porém, a crença inabalável no progresso económico e técnico, democrático e moral, que no seu avanço resolvia infalivelmente todos os dilemas e todas as contradições, nunca conhecera uma casa tão acolhedora como a Europa do único e autêntico fin de siècle. Mas, do ponto de vista da consciência colectiva da Europa “civilizada”, são notáveis as semelhanças entre, por um lado, os últimos anos do século XIX e os primeiros do século XX, e, por outro lado, os anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim. E também parece ser uma lei razoavelmente constante que cada período de relativa satisfação e optimismo gera uma reacção de desdém e de luta contra a “decadência”. Os nossos dias não poderiam ser diferentes. A ideologia da pacificidade e da conciliação de todos os opostos produz a saudade do conflito e a afirmação dos irredutíveis; as “certezas históricas” atraem as dúvidas primárias.

Para muitos dentre aqueles que denunciaram a tese do fim da história como a vil aclamação do definhamento e decadência do homem, o aparecimento do radicalismo islâmico não deixa de ser uma boa oportunidade. O Crescente não só retomou o seu papel histórico de grande “Outro” que sempre foi o seu; quebrou também o silêncio dos consensos com um grito de guerra que o mundo pós-histórico não poderia reconhecer nas páginas do seu dicionário “humanitarista”. A esperança de alguns é que o trovejar das armas que disparam na direcção Leste-Oeste acorde o mundo pós-histórico dos seus sonos dogmáticos ou da sua triste e mole letargia. Assim, o surgimento agressivo do radicalismo islâmico pode ser um outro “perigo que salva”.

Há muito tempo que entre nós não se ouvia falar tanto de “decadência”. Estamos, então, em “decadência”? Os “sinais” e os “sintomas” são diagnosticados a cada instante. Mas o mundo continua a ser guiado pelo brilho do Ocidente. E não podemos eliminar a hipótese híbrida de Aron segundo a qual somos simultaneamente brilhantes e decadentes. Segundo as crónicas mais fiéis, no final dos trabalhos da Convenção Constitucional em Filadélfia, Benjamin Franklin apontou para um quadro pendurado na parede do salão e comentou como na pintura é muito difícil distinguir um sol que se põe de um outro que nasce. Não é só na pintura. No entanto, a resposta mais simples indica-nos que por cada sol que se põe há outro que nasce.
publicado por Miguel Morgado às 12:16 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

A moderação exemplar da Fatah

Pode ver-se, neste video, até que ponto é a Fatah uma organização moderada. Chega a ser tocante o modo como aquele exaltado cavalheiro (um Führerzito da Faixa) enumera, com um orgulho verdadeiramente fraterno, os exemplos imitados, note-se, por todo o mundo. Imitados e, dada a sua excelência, a imitar, presume-se. Não é todos os dias que vemos tal manifestação de amor universal pela humanidade.
Um video para todas as bem intencionadas criaturinhas que insistem em ver o Hamas como o extremista e a Fatah como um partido de gente "civilizada" que só deseja viver em paz ao lado de Israel. Um interlocutor legítimo, portanto. Acontece que as coisas do lado "palestiniano" são bem mais complicadas do que essas fantasias.
publicado por Carlos Botelho às 02:39 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Terça-feira, 02.01.07

Hayek rules (onde menos se espera)

A crónica de Vital Moreira no Público de hoje é um surpreendente libelo contra os "privilégios" dos funcionários do Estado.
Comprova-se a velha lei da história: quando o PS está no Governo, até os maiores defensores dos direitos adquiridos são atacados de neoliberalismo.
publicado por Pedro Picoito às 16:46 | comentar | partilhar

Liderança

O ano de 2006 começou com o embargo russo na venda de gás natural à Ucrânia. Foi a primeira demonstração significativa da determinação de Putin na utilização das reservas de energia como instrumento político de projecção do poder imperial. Embora ainda seja cedo para se compreender a totalidade das repercussões geopolíticas, em avaliação retrospectiva foi certamente uma das transformações mais importantes da política internacional em 2006. Esta notícia não tem o previsível impacto do “bloqueio do gás”, mas pode constituir um prenúncio de transformações importantes na política internacional em 2007:
Britons flying to America could have their credit card and email accounts inspected by the United States authorities following a deal struck by Brussels and Washington.

By using a credit card to book a flight, passengers face having other transactions on the card inspected by the American authorities. Providing an email address to an airline could also lead to scrutiny of other messages sent or received on that account.
Em Outubro, a UE concordou em ceder informações sobre passageiros das companhias aéreas europeias às agências de segurança americanas, sob ameaça do governo dos EUA de exclusão das companhias europeias do espaço aéreo americano. O Daily Telegraph revela agora que o dito “acordo” não parece ter limites definidos: as contas de cartões de crédito e de e-mail podem ser escrutinadas para além dos registos e mensagens estritamente relacionadas com as transacções de compra de bilhetes. As autoridades americanas reconhecem também que toda esta informação poderá ainda ser utilizada para a investigação de “outros crimes graves”.

Noutras ocasiões argumentei contra a escalada de reforço do poder político e burocrático a coberto da ameaça terrorista, que faz com que os cidadãos sejam tratados pelos governos como potenciais criminosos, enquanto os terroristas procuram e geralmente encontram formas de contornar as restrições já aplicadas –o que motiva novas restrições. É uma espiral patética: haverá alguém com índices mínimos de alfabetismo que acredite na “eficácia” do acesso a endereços de e-mail? Qualquer aprendiz de terrorista é certamente capaz de criar endereços fictícios, de localização difícil e utilidade nula. As compras de bilhetes de avião com cartões de crédito são controladas? Usam outros meios de pagamento, ou formas de compra “indirecta”. Estes meios não têm qualquer efeito dissuasor sobre o terrorismo e a identificação ex-post de eventuais responsáveis por actos terroristas é possível através de mecanismos previstos para serem accionados apenas em situações de excepção. Por outro lado, com este “acordo” as vidas de milhões de pessoas serão devassadas, em extensão indeterminada e por períodos de tempo alargados. Se as medidas não resultarem, a única certeza é que o despotismo burocrático dificilmente regredirá.

A informação divulgada pelo jornal inglês é apresentada como um “acordo entre Bruxelas e Washington”, mas tenho pouca paciência para eufemismos e antropomorfismos. Não se trata de nenhum acordo: é uma chantagem mafiosa por parte do governo americano e uma cedência cobarde por parte dos cooptados políticos e demais clique burocrática europeia. O governo americano colocou a coisa nos seguintes termos: ou cedem a informação que pretendemos ou as companhias aéreas europeias deixam de poder operar em solo americano. Note-se a interessante ausência de reciprocidade:
Washington promised to "encourage" US airlines to make similar information available to EU governments — rather than compel them to do so.
Obviamente não interessa provocar uma “corrida para o fundo”, com os EUA e a UE a destruírem iterativamente o que resta da privacidade dos respectivos cidadãos. Também não pretendo explicar aos americanos em quem devem votar, ou de que modo devem governar a sua república, ao contrário do Sr. Mário Soares e de alguns tresloucados leitores do The Guardian. A ausência de reciprocidade por parte das companhias americanas não deve ser interpretada como um juízo diferencial do risco terrorista enfrentado pelos europeus: é simplesmente o resultado da fraqueza negocial da UE conjugada com o desrespeito da administração americana pelos europeus. A presidência americana entretém-se frequentemente com propostas legislativas que colocam liberdades constitucionalmente protegidas em sério risco: é elucidativo que nesta matéria não tenham ido além de um “esforço de persuasão” sobre as companhias aéreas americanas. Não por acanhamento ou vergonha, mas porque os europeus apenas têm um interesse instrumental. Se a “cooperação atlântica” é este relacionamento politicamente assimétrico, que se manifesta em chantagens sob ameaças de proteccionismo, então guardem-na onde o sol não brilha.

A notícia refere os cidadãos britânicos, mas como o acordo é ao nível da UE, presumivelmente aplicar-se-á aos demais cidadãos europeus, o que sugere várias questões. Quem cedeu à chantagem americana e arrancou mais um bocado da privacidade que nos resta? O Conselho? A Comissão e o Parlamento, através do mecanismo de co-decisão? Quem nos EUA poderá aceder a esta informação e em que circunstâncias? Tratando-se de estruturas burocráticas de outro país, quais as garantias de conhecimento dessas acções e de protecção jurídica para os cidadãos europeus? Quais são os outros “crimes graves” em cujos inquéritos as autoridades americanas tencionam usar a informação privada dos cidadãos europeus? Através de que mecanismos judiciais? Duvido que a generalidade dos políticos europeus tenham respostas satisfatórias para a maior parte destas questões.

É neste contexto de desorientação e fraqueza política que a presidência alemã pretende relançar a discussão da famigerada constituição d’Estaing. Os defensores da ideia afirmam que é apenas uma “mera racionalização” da confusão de tratados actualmente em vigor. Evidentemente é muito mais do que isso: é a tentativa pelos que encaram a integração europeia como um processo teleológico de substituir a agenda Delors e a correlativa “inevitabilidade” da erosão económica das fronteiras por um mecanismo tipicamente hegeliano de construção de um estado supra-nacional, consagrador de “direitos” –especialmente dos “direitos sociais” no cerne da visão política socialista.

Por razões cuja análise necessita de um texto específico, a referida “constituição” e a engenharia política da Europa acabarão por reforçar substancialmente o poder discricionário do Tribunal Europeu de Justiça e do Parlamento Europeu –uma caricatura de mau gosto da “legitimidade” democrática a pedir extinção, não a ampliação da perigosidade. O dito tratado prevê também a criação de um ministro dos negócios estrangeiros da UE. Aqui sou inteiramente favorável à ideia, mas como este triste episódio revela, convém primeiro descobrir uma forma de transformar um monte de gelatina numa coluna vertebral.
publicado por Joana Alarcão às 16:44 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Tirando aquele pormenor de se matarem uns aos outros

Nuno Rogeiro no Correio da Manhã (31/12/06): "como regime da maioria, a democracia terá funcionado no Iraque".
Começo a ficar sinceramente preocupado com o nosso homem em Teerão.
publicado por Pedro Picoito às 16:05 | comentar | partilhar

E, contudo, ele move-se

Aqueles que se irritaram demasiado depressa com Cavaco-o-amiguinho-de-Sócrates tiveram (parte) da merecida resposta na mensagem de Ano Novo do Presidente. Mais cedo do que eu esperava, Cavaco veio "exigir" - foi a expressão, e repetida - "resultados" e "progressos claros" ao Governo. (Ah, que bem que isto soa: Cavaco exige resultados ao Governo. Muito melhor do que Soares exige resultados... Muitíssimo melhor do que Alegre exige ao Governo... Alguém imagina Alegre ou Soares a exigir alguma coisa?)
E não se limitou a exigir em geral, mas deu nomes às exigências: economia, educação e justiça.
Porquê estas três áreas? Porque elas revelam muito claramente a maior preocupação de Cavaco-Presidente, a que melhor o define como um político de centro-direita (reformista, sim, mas de direita): a estabilidade governativa. Não foi o que ele tantas vezes anunciou em campanha que iria defender em Belém?
A economia é um cuidado quase automático de Cavaco, não só porque se vê como o tutor da década de ouro do desenvolvimento português, mas também porque sabe que a crise económica trará inevitavelmente a desordem às ruas - e todos sabemos o horror que isso lhe causa. Quanto à educação e à justiça, é aqui que se têm verificado alguns dos maiores choques entre o Governo e os grupos sociais. Apontando estes sectores a dedo, Cavaco está a dizer, não que a conflitualidade social é má em si própria (olha quem!), mas que Sócrates não pode prolongar indefinidamente o braço de ferro com duas corporações tão emblemáticas. Pelo menos, sem que se vejam os tais "resultados"...
Alvíssaras, senhores: o velho Cavaco está de volta. E os conservadores, liberais e liberais-conservadores que continuam a suspirar por dons sebastiões em Belém, na Lapa e no Caldas, que se preparem para o reeleger.
Vão ver que, à segunda, o sapo custa menos.
publicado por Pedro Picoito às 16:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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