Segunda-feira, 05.02.07

La Folie

Comecemos pela Ota, já que Lisboa, tendo um problema no seu aeroporto, tem de escolher entre diferentes alternativas. A minha convicção é que as alternativas foram colocadas de fora depressa demais. Basta recordar que a decisão política foi tomada em Julho e os estudos técnicos só foram apresentados meses depois. Por isso, quando me dizem que o aeroporto vai ser feito, só me lembro do que uma vez me disse um oficial da Força Aérea. Para ele, se os civis quisessem uma base militar, a primeira que daria era a Ota, pois a sua pista era perigosa. Quando aterrava na Ota ia sempre ele aos comandos, pois o local tem problemas de ventos.

Mas o maior problema é que a Ota não tem capacidade de expansão. Imagine o que era ter-se feito, e o que é que hoje diríamos, um aeroporto decidido no tempo de Sá Carneiro ou Mário Soares e agora, 20 anos depois, verificar-se que estava congestionado. Ora, 20 anos é o tempo previsto para a Ota ficar congestionada, pelo que leio na imprensa. E é um investimento muito grande. Pode não passar pelo Orçamento de Estado, mas que será sempre pago pelos portugueses e pelos utilizadores de aeroportos.
Declarações do ex-ministro das Finanças, Luís Campos e Cunha, ao Público / Rádio Renascença.

Aos lisboetas e aos que vivem em Lisboa: será que ainda não vos chegou a lição do apeadeiro do Oriente, uma gare caríssima, que tive a infelicidade de ter de usar regularmente durante um ano e onde numa manhã de chuva é praticamente impossível permanecer nas plataformas sem ficar encharcado? Não vos chega a vergonha de viverem numa das poucas capitais europeias de cujo aeroporto só se pode sair a pé ou de carro? Nem a porcaria de uma estação de metro? Vão permitir que o investimento público continue a ser usado como forma de mascarar temporariamente o desemprego (é o ciclo eleitoral, estúpido!) e pelo caminho Lisboa perca a mais-valia fundamental que é ter um excelente aeroporto praticamente no centro? Estão dispostos a trocá-lo por um aeroporto perigoso a 40 km de Lisboa, com uma vida útil prevista de 20 anos? A loucura não tem limites?

Qual o impacte previsível que as taxas a pagar na Ota pelas companhias operadoras terão sobre o custo dos bilhetes de avião? Por que razão não se constrói um segundo aeroporto próximo de Lisboa para as companhias low cost, ao mesmo tempo que se moderniza a infra-estrutura da Portela? Será a Ota servida pelo TGV? Mais um apeadeiro caríssimo (mal) projectado por um arquitecto de “reputação internacional”, para consolo dos saloios? Com que receitas vão ser financiados os aeroportos deficitários de Portugal (a excepção, ao que sei, é a Portela)? Quem presta contas e responde pelo desperdício de dinheiro na modernização da linha ferroviária do Norte?

A única coisa que importa saber é como e quando é que se consegue parar a loucura da Ota e do TGV. Porque é absolutamente fundamental evitar mais armadilhas caríssimas que a sabujice política tece.
publicado por Joana Alarcão às 12:47 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Domingo, 04.02.07

Silêncios

Estamos habituados a pensar que em democracia é sempre possível “dizer a verdade”. Afinal, este constituiu o invariável argumento em defesa da liberdade de expressão e pensamento. A mentira reina apenas nas tiranias, regimes inevitavelmente esquizofrénicos e construtores de verdades fictícias. A democracia, enquanto regime oposto às tiranias, não deseja, nem pode promover mentiras; não deseja, nem pode repreender quem quer “dizer a verdade”. As sociedades democráticas são sociedades abertas também nisto: a palavra dos cidadãos é protegida para abrir aos outros a opinião e os pontos de vista sinceros. De resto, qualquer abordagem comparativa entre regimes democráticos e não-democráticos comprova esta relação entre liberdade de expressão e democracia política. Não existe um Estado democrático de Direito enquanto persistirem formas oficiais e repressoras de censura.

Contudo, existem formas subtis de auto-censura que são propiciadas pelo próprio espírito democrático. Em particular, quando uma voz discordante ameaça desafinar o coro uníssono da conformidade, as sociedades democráticas promovem um certo silêncio naquelas matérias que constituem os pilares fundamentais em que assenta a sua justificação intelectual e moral: a “igualdade”, os “direitos”, e, mais recentemente, a “diversidade cultural”.
Esse parece ter sido o caso de Robert Putnam, um dos mais reputados sociólogos do momento, que se notabilizou por demonstrar que o gradual desaparecimento de ligas comunitárias de bolingue era sintoma da delapidação do “capital social”, ou da confiança entre indivíduos necessária para a estabilização e florescimento de laços sociais. Desde há alguns anos que Putnam tem estudado a relação entre a diversidade cultural num dado espaço social e as relações de confiança que se geram entre os indivíduos. Aparentemente, os resultados da sua investigação trazem más notícias para a ideologia multiculturalista. Não sei se os resultados pessimistas de Putnam são fidedignos. Mas o mais significativo neste episódio foi o silêncio voluntário a que Putnam durante anos, e apesar do seu prestígio e da força da sua autoridade, sujeitou os resultados da sua pesquisa, bem como o modo envergonhado com que finalmente os anunciou. Putnam sabia que penetrava nesse território perigoso cujas fronteiras avisam, por meio de sinais mais ou menos evidentes, que a aliança histórica entre democracia e ciência se torna precária.

A democracia aceita e inclina-se perante a autoridade da ciência. Este pacto foi crucial para o triunfo histórico da democracia. Resta saber o que acontecerá quando a democracia já não puder acatar os ditames da ciência sem se trair a si mesma.
publicado por Miguel Morgado às 13:38 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sexta-feira, 02.02.07

Arma de Destruição Maciça 2: hipocrisia e desonestidade não valem

O meu objectivo neste meu post era sobretudo demonstrar o desequilíbrio de recursos que existe entre o "Sim" e o "Não" (com esmagadora vantagem para o "Sim").

No entanto, aquela parte final do texto originou uns 20 comentários (um apaguei porque achei desagradável), que me obrigam a manter a conversa (estou mesmo a ver que vai ser assim até 11 de Fevereiro):

1. O RAP dos "Gato Fedorento" podia perfeitamente imitar o Marcelo, ter a mesma graça, e não ter que "orientar" o sketch para uma mensagem claríssima em torno do "Sim". Não foi uma imitação qualquer, e sobretudo não foi num momento qualquer.

2. Acontece que estamos em plena campanha eleitoral. Acontece também que RAP é uma das caras mais mediáticas do "Sim". Por isso, apesar de se poder expressar livremente, não devia - no sentido ético e não por estar a incumprir qualquer lei - tê-lo feito daquela forma. A não ser que faça o mesmo no Domingo com alguém do "Sim". Cá estaremos para ver.

3. Porém, o que mais me enerva profundamente, isso sim, é a desonestidade intelectual e a hipocrisia com que publicaram os vossos comentários: é que se fosse ao contrário, todos os que me criticaram diriam exactamente o mesmo que eu.
publicado por Francisco Van Zeller às 17:42 | comentar | ver comentários (9) | partilhar

O dodo

Carlos, cada um tem a Lídia Jorge que merece...
publicado por Pedro Picoito às 16:57 | comentar | partilhar

Times they are a-changin’

Ninguém pode prever qual será o resultado final do referendo de dia 11, mas se os recentes sinais de intenso nervosismo do lado do Sim são significativos, parece que o Não se aproxima de mais uma vitória histórica.

O que já é certo é que a campanha foi uma grande vitória para o Não. O problema do aborto, no fundo, nunca terá uma resolução eficaz que não passe por uma educação sobre o assunto. Para que uma mulher e mãe encare a possibilidade de terminar a vida do filho que traz em si, não basta que esteja submetida a pressões extremas (como frequentemente está). É também preciso que a cultura dominante a tenha envolvido numa nuvem irreal de obfuscação e “newspeak” que tornem o acto contemplável – IVG e outros acrónimos assépticos, distinções bizantinas entre “feto” e “pessoa”, tecnicismos vários, etc.

Combater o mal do aborto é, antes de mais nada, recordar o que é o aborto. Para o Não, que habitualmente não tem qualquer possibilidade de acesso aos media, estas campanhas são sempre benvindas porque são ocasiões únicas para explicar. E, neste sentido, esta campanha foi muito bem conduzida. De 1998 até hoje percorreu-se um grande caminho; não me refiro apenas às dezenas de associações de protecção à maternidade e apoio às grávidas que entretanto se fundaram, mas à própria natureza do discurso, que reflecte silenciosas, mas profundas, alterações culturais e de mentalidade que estão em marcha: a de 98 foi uma etérea campanha de despenalização da IVG, mas esta foi, mais concretamente, a campanha do aborto. É um importante progresso. Permite alimentar a esperança de que, se numa ocasião futura nos voltarmos a enfrentar, os do “Sim” e os do “Não”, talvez estejamos apenas a discordar acerca da melhor forma de proteger a vida humana — a do filho e a da mãe. Times they are a-changin’...
publicado por Joana Alarcão às 13:28 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Direitos do homem (2)

Caríssimos,

Algumas das vossas objecções foram argutamente apresentadas. Sinto-me, assim, na obrigação de justificar um pouco mais a minha posição. Aqui vai.

Ao contrário da posição sexista antagónica que defende o sim neste referendo, a minha não se sente limitada por considerações politicamente correctas (talvez por não ir a referendo). Tal como ela, defendo um direito em absoluto, a saber, o direito do homem a decidir o que fazer com a sua informação genética. Como tal, e enquanto não estiver formado um sujeito de direitos, o homem tem o direito a decidir, sem qualquer tipo de constrangimentos, o que fazer com a sua informação genética, esteja ela num laboratório ou no ventre de uma mulher.
Mas em 10 semanas é difícil aferir se aquilo que se está a desenvolver no ventre de uma mulher contém os meus genes? Terão pois de ser permitidas as semanas que forem necessárias. Existe um direito absoluto e legítimo a salvaguardar, tanto me dá se forem 10, 20 ou 30.
Mas a partir de uma certa altura o feto já tem sensibilidade, espinal-medula, etc. E daí? Façam-no sem causar sofrimento desnecessário. Questões sobre a dignidade humana ou sobre o vitalismo intra-uterino dizem-me pouco. Eu tenho um direito a decidir sobre o que fazer com a minha informação genética.
Mas para levar a cabo essa proposta não estaríamos a entrar na esfera de liberdade da mulher, obrigando-a a fazer coisas que não quer? Que diabo! E se o aborto depender só do pedido da mulher, ela também não está a entrar na minha esfera de decisão sobre o meu património genético?
E isso tudo não violaria também o direito à privacidade? Isso também acontece nos aeroportos, queixamo-nos, mas todos assentimos.

Se houvesse uma paródia do Gato Fedorendo sobre esta forma de dizer Sim, seria nestes moldes: Pergunta: «Mas a mulher não tem o direito a decidir se deve abortar ou não?» Resposta: «Sim.» «E depois das 10 semanas?» «Não.» «Mas isso não é um bocado incoerente?» «Chiu!» «Mas o que fazer com o aborto clandestino após as 10 semanas?» «Nada, só é clandestino se for até às 10 semanas» «E essas mulheres que abortarão depois das 10 semanas irão para a prisão?» «Não.» «Mas é proibido?» «É».
«Até às 10 semanas a mulher tem direito a cuidados de saúde num estabelecimento público?» «Sim» «E às 11 semanas?» «Não».
Por isso, Sim. Mas com coerência e igualdade para todos, ou seja, também a pedido do homem.

Ass: T
publicado por Joana Alarcão às 12:19 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quinta-feira, 01.02.07

Boomerang

César das Neves ou O Boomerang.

publicado por Carlos Botelho às 23:19 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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