Quarta-feira, 28.03.07

Da série "Cachimbos de lá"

Vincent Van Gogh, Natureza-morta com chapéu de palha amarelo (1885)
publicado por Pedro Picoito às 12:24 | comentar | partilhar

Da série "Posta Restante"

Absolutamente a ler, a crónica de Rui Ramos no Público de hoje. De uma ponta à outra. Enquanto o blogue da Atlântico não a posta, como tem feito, deixo-vos um cheirinho.
"Devemos ensinar às criancinhas que Salazar foi mau ou que Cunhal tinha más ideias? Talvez. Mas seria preferível prepará-las para resistir à mentalidade da guerra civil, à mania de chamar fascista a quem pensa de forma diferente ou ao hábito de reivindicar a democracia e a modernidade. Sessenta mil telefonemas a favor de Salazar em confronto com Cunhal num concurso televisivo não chegam para fazer uma Frente Nacional. Mas há gente à esquerda que gostaria de transformar esses telefonemas numa Frente Nacional - porque precisa de um par à altura para criar o ambiente em que a sua própria intolerância pareça justificada."
publicado por Pedro Picoito às 12:23 | comentar | partilhar

Extremos Unidos

Esta história da presença de elementos do Bloco em listas universitárias neofascistas tem que ser esclarecida.
Eu diria mesmo mais: tem que ser cabalmente esclarecida.
Nenhum democrata pode ficar tranquilo quando vê que Salazar, depois de ganhar na RTP, está a conquistar a esquerda...
publicado por Pedro Picoito às 11:35 | comentar | partilhar

Os pequenos Estalines

Exercem a sua autoridade à sombra do poder, com o zelo dos subservientes. Ninguém lhes fixa o nome. Por exemplo: daqui por uns dias quem se recordará de Luis Alfonso de Alba, o mexicano que superintende a inenarrável Comisssão de Direitos Humanos da ONU?

Ouça-se a intervenção do director da UN Watch, Hillel Neuer; ouça-se a réplica do "comissário" Alba, a ameaça gélida, de inquisidor: toda a verdade será suprimida; toda a frontalidade será castigada.



publicado por Joana Alarcão às 10:34 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Terça-feira, 27.03.07

Provavelmente, o melhor livro sobre Raymond Aron jamais escrito

Dificilmente acharia um lugar mais apropriado do que o nosso Cachimbo para publicitar o recente lançamento nos EUA do melhor livro de comentário ao pensamento de Aron até hoje publicado: "Political Reason in the Age of Ideology. Essays in Honor of Raymond Aron".
Nesse livro encontrarão artigos de gente tão ilustre como Pierre Manent, Daniel Mahoney, Stanley Hoffman, Claude Lefort, Aurelian Craiutu ou Bryan-Paul Frost. Quem tiver paciência, também poderá passar os olhos por um ensaiozito da autoria deste vosso criado.
Concluída esta descarada auto-promoção, deixo-vos com uma citação do ensaio de Pierre Manent, "Raymond Aron - Political Educator":
Since he never believed that history was the realization of reason, he contributed to introducing a bit of reason into European politics; because he never believed that democratic man should be overcome and surpassed, but enlightened and encouraged, he contributed to introducing a bit of humanity into European democracy; because he never wished to reign in pride, he was never obliged to obey slavishly; he is a witness to the freedom of the spirit in history, an educator of the European city.
publicado por Miguel Morgado às 17:42 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Da série "Posta Restante"

Diz o último Ípsilon, o suplemento cultural do Público, que a BBC quer fazer um filme sobre Margaret Thatcher, mais exactamente sobre a vida da Dama de Ferro nos quinze dias anteriores ao início da guerra das Malvinas. Por coincidência, a Spectator trazia há tempos o relato delicioso de uma das suas visitas ao Conservative Philosophy Group, célebre cruzamento entre think tank e "Oxbridge college essay-reading society" onde se acolheram alguns dos maiores intelectuais tories de meados da década de 70 ao início dos anos 90, e que data da mesma altura. Aqui fica, com a devida vénia.
"Mrs Thatcher came only twice, once as prime minister. That was the occasion for a notable non-meeting of minds. Edward Norman had attempted to mount a Christian argument for nuclear weapons. The discussion moved on to "Western values". Mrs Thatcher said that Norman had shown that the Bomb was necessary for the defence of our values. [Enoch] Powell: "No, we do not fight for values. I would fight for this country even if it had a communist government." Thatcher (it was just before the Argentinian invasion of the Falklands): "Nonsense, Enoch. If I send British troops abroad, it will be to defend our values." "No, Prime Minister, values exist in a transcendental realm, beyond space and time. They can neither be fought for, nor destroyed." Mrs Thatcher looked utterly baffled. She had just been presented with the difference between Toryism and American Republicanism."
John Casey, "Welcome back to the forum where Thatcher and Powell argued", in The Spectator, 17/3/07
publicado por Pedro Picoito às 16:48 | comentar | partilhar

Nova Cidadania


Saiu ontem mais um número da Nova Cidadania, com imagem renovada e a qualidade de sempre.
Do muito que há para ler, destaco as recensões dos camaradas Miguel Morgado e Hugo Chelo, respectivamente a um livro de Hannah Arendt e a uma biografia de Aristóteles.
Não fazemos a coisa por menos.
publicado por Pedro Picoito às 16:36 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Segunda-feira, 26.03.07

Ganhou o Salazar. E agora?


Para surpresa da RTP e horror dos bem pensantes, Salazar venceu ontem o concurso telegénico dos "Grandes Portugueses". Já aqui escrevi sobre a importância que isso (não) tem. Depois de ver a nocturna gala em que o "serviço público" de televisão anunciou os resultados, chorrilho de disparates a que só resisti por amor à pátria e súbita descoberta de que Odete Santos me faz lembrar os Monty Python, deixo três notinhas apenas.
1. A vitória de Salazar choca, sem dúvida, tal como o segundo lugar de Cunhal. E pelas mesmas razões: são os maiores inimigos da liberdade que Portugal conheceu no século XX. Que tenham ambos vencido uma eleição democrática soa a tragicomédia. Mas nada mais. Não se trata de uma "restauração de nada", como de imediato reconheceu Jaime Nogueira Pinto, nem de uma "apologia do fascismo", como logo a seguir clamou a espumante Odete. O país não é salazarista. Os Bourbons não voltam. A reacção não passará. Até amanhã, camaradas.
2. Uma das explicações para este resultado incómodo foi logo dada em directo e é repetida pelo Francisco no post aqui abaixo: o voto de protesto. Dos 80 mil votos em Salazar, muitos correspondem aos inevitáveis descontentes do actual regime.
O facto de serem inevitáveis não é lá muito tranquilizante. Hoje, todos aceitamos a democracia - mesmo a maior parte dos que votaram no ditador de Santa Comba, estou certo (já não estou tão certo quanto aos que votaram em Cunhal). Faz parte da natureza da democracia não gerar grande entusiasmo, a não ser, já Tocqueville notou, se estiver em perigo. De resto, não exalta ninguém. É o reino da mediocridade. É um dado adquirido. É o que temos. E o que temos parece quase sempre pior do que um passado mítico (Salazar) ou um futuro utópico (Cunhal). A realidade parece quase sempre menos poética do que o ideal. Por isso Churchill definiu a democracia como "o pior dos regimes, excepto todos os outros". Os ingleses, que o elegeram o maior dos patrícios no concurso lá da terra, sabem-no bem. Não porque tenham votado nele na BBC, mas porque lutaram a seu lado contra Hitler.
Por cá não tivemos essa sorte, graças a Deus. A democracia não nos custou "sangue, suor e lágrimas", mas apenas um ano de PREC e a luta de Soares e Sá Carneiro para normalizar as coisas. É muito, mas não parece. E, assim, a memória não guarda mais do que a revolução dos cravos, o primeiro dia do resto das nossas vidas, a poesia que está na rua, etc. - e o aumento do custo de vida, o desemprego, a Casa Pia, o arrastão, o "apito dourado", o Major, o Santana, o Manel Pinho e as maternidades que fecham.
Esquecemo-nos do que significa viver sem liberdade.
Salazar e Cunhal, como todos os mortos, só têm virtudes. Paz à sua alma. Se é que tinham alma, claro.
3. Este resultado deveria ser uma lição para a esquerda que usa o antifascismo como arma de arremesso. No 31 da Armada, o Henrique Burnay critica todos os que contam a história do Estado Novo a preto e branco, com os maus de um lado e os bons do outro. Tem carradas de razão. Bastava ver a RTP 1 ontem à noite. Comentando o desfecho do concurso, Clara Fereira Alves lamentava que, mais uma vez, tenham sido "os mal intencionados" (sic) a votar, enquanto os "bem intencionados" (sic) se abstêm. Ana Gomes preocupava-se com "a nossa imagem lá fora". Leonor Pinhão invocava a "bondade" de Afonso Henriques (a sério) contra as malfeitorias (adivinhem...) do Salazar. Odete Santos, antes de converter o palco num Conselho Nacional do CDS, gritava que o verdadeiro líder está em "osmose com o povo", e dava o exemplo de Cunhal - no mesmíssimo programa em que o "povo" decidia estar em osmose com Salazar.
O único aspecto positivo desta brincadeira talvez seja o fim da superioridade moral dos que, do Bloco ao PS, acusam sempre os adversários de "fascismo". Pode ser que lá cheguemos. Graças ao mauzão do Salazar, agora tenho um sonho: o sonho de que o concurso ainda venha a servir para alguma coisa.
publicado por Pedro Picoito às 18:38 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Os “porcos satisfeitos” e o fantasma

Foi uma ideia pateta, encenada na televisão e que atraiu grande atenção, como é próprio das ideias patetas. O ruído causado pelo desfecho e a comoção geral dos guardiães da revolução são como a ideia: patetices. Porém a pantomima serviu para revelar dois traços essenciais do carácter político das esquerdas: o paternalismo e a concepção da democracia como mero mecanismo formal de ratificação.

Nenhuma das duas é, ou devia ser, novidade. Por exemplo, boa parte da esquerda liberal considera John Stuart Mill um símbolo e uma inspiração, sobretudo nos países anglófonos. Mas o “liberalismo” de Stuart Mill, para além de profundamente equívoco e inconsistente era também marcado por uma forte dose de paternalismo. Tal como outros progressistas do séc. XIX, Stuart Mill considerava que “as massas” não estavam preparadas para uma vida completamente autónoma: precisavam de “ajuda”, de “orientação superior”. No seu famoso panfleto utilitarista de 1861, não podia ser mais claro (itálicos adicionados):
It is better to be a human being dissatisfied than a pig satisfied; better to be Socrates dissatisfied than a fool satisfied. And if the fool or the pigs are of a different opinion, it is because they only know their own side of the question. The other party to the comparison knows both sides.
O espírito superior orienta paternalmente, salvando os embrutecidos — os “porcos satisfeitos” — do triste destino que por inépcia e ignorância escolheriam para si.

É quase supérfluo referir a “permanente” necessidade de conselho e orientação democrática. Por cada alma áspera que é polida na fábrica educativa da esquerda novos brutos vêem ao mundo. Acresce que mesmo os “educados” são relapsos: entregues a si próprios tornam-se vítimas fáceis do “obscurantismo”. E fazem asneiras, como votar em governantes pretéritos de espírito tacanho. Não surpreende, pois, que as consciências superiores da esquerda se disponham heroicamente a salvar o povo de si próprio, por exemplo, reduzindo as possibilidades de escolha a um conjunto de opções “seguras”. Não é censura: é um cinto de segurança intelectual e uma mão protectora que nos poupa às maçadas da responsabilidade.

Delimitar as escolhas pode não ser suficiente: o povo é propenso a enganar-se e a democracia torna-se “perigosa”. Um exemplo historicamente importante foi a eleição presidencial francesa de 1848, que resultou na escolha de Louis Bonaparte para presidente da república. O momento foi politicamente decisivo e levou à criação do II Império. As reacções da elite intelectual revolucionária oscilaram entre a incredulidade e o desespero: como tinha sido possível que o resultado democrático fosse o oposto das aspirações socialistas e revolucionárias? Era evidentemente inadmissível que a democracia não validasse essa percepção teleológica do “sentido da história”. Alguns liberais e socialistas russos exilados em Paris concluíram que a revolução no país de origem teria de ser seguida por um regime ditatorial, que obviasse o perigo de “reversão” da revolução. Para bem do próprio povo, evidentemente.

Por tudo isto não me espantam os sucessivos apelos ao condicionamento das escolhas dos portugueses no dito concurso pateta. Em desespero e perante o resultado previsível da votação, também não espanta o ar esbaforido dos intelectuais do regime, com o toiro da vontade popular tresmalhado e o capote da censura como único recurso. A única coisa que verdadeiramente espanta é que o fantasma de Salazar seja mais eficaz a expor o autoritarismo de esquerda do que os actuais políticos de direita.
publicado por Joana Alarcão às 16:38 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Afinal era só um concurso


Depois de todas as tentativas para não estragar a festa à RTP, a malta (ainda algumas dezenas de milhar) decidiu votar em peso no Salazar. E como não podia deixar de ser:

- Os grandes esforçados:

1. A Maria Elisa que, durante todo o programa, interrompeu constantemente Jaime Nogueira Pinto: "pois mas sem opositores...", "mas era uma ditadura..."; e no fim não resistiu e rematou "só se pode fazer este concurso em liberdade, há cinquenta anos não era possível". Ou seja, ainda ralhou com quem livremente votou em quem bem quis;

2. Os militantes do PCP, coitados, que a esta hora devem estar falidos porque cada voto daqueles ainda custava 60 cêntimos (+IVA). Dá-me ideia que o comércio esta semana no Alentejo vai ser mais difícil;

3. Os defensores dos outros "Grandes Portugueses" que bem tentaram, na referida "coligação negativa", dar cabo do Salazar;

4. O pessoal da plateia, idem;

5. E, claro, a incansável Odete Santos, que obviamente não estava preparada para aquele resultado.

- Grande vencedores:

1. Todos aqueles que acreditam que a correcção política pode ser vencida (sobretudo em Portugal);

2. Jaime Nogueira Pinto;

3. Rosado Fernandes, que foi o primeiro e o melhor a explicar que a vitória de Salazar se tratava de um voto de protesto (como eu já aqui tinha dito).

- Melhor momento da noite: Clara Ferreira Alves quando, depois de conhecer os resultados, afirma: "Os bem-intencionados abstêm-se de participar, os mal-intencionados mobilizam-se". Obrigado pela delicadeza e pelo fair-play Clara.

Nota final: eu queria que ganhasse o D. Afonso Henriques porque sem ele não havia Portugal. Queria mesmo acreditem. Mas perante o espectáculo que montaram lá tive que usar os meus três telefones e votar no Botas.

publicado por Francisco Van Zeller às 01:46 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Domingo, 25.03.07

Os Limites do Pluralismo

Pouco antes da celebração dos 50 anos do Tratado de Roma, e numa altura em que vários se queixam da ausência de genuínos debates públicos europeus, estalou uma expressiva controvérsia europeia, envolvendo celebridades como Timothy Garton Ash, Ian Buruma ou Pascal Bruckner. Tudo começou a propósito de comentários feitos por Ash à personalidade de Ayaan Hirsi Ali, a Somali que, depois de fugir a um casamento arranjado, chegou a deputada no Parlamento holandês, e agora vive exilada nos EUA sob o patrocínio do American Enterprise Institute. Pelo caminho, Ayaan Hirsi Ali converteu-se ao ateísmo militante e, devido às suas críticas ferozes do Islão e da passividade europeia, tornou-se numa espécie de pin-up girl do conservadorismo americano e do republicanismo francês (não, não me enganei). Apesar do fascínio considerável de Ayaan Hirsi Ali, o debate deslizou rapidamente para o confronto europeu contemporâneo entre “multiculturalismo” e “republicanismo” no contexto da resposta aos desafios civilizacionais do nosso continente, em particular o desafio de algumas manifestações do Islamismo.

Não vale a pena recapitular os argumentos esgrimidos entre as duas posições. Quando as coisas azedaram, o “multiculturalismo” não passava de cobardia moral e preguiça intelectual, ao passo que o "republicanismo" obedecia sem vergonha ao jacobinismo que persiste em nos assombrar. Assinalo, de passagem, que, no Inverno de 2007, tanto o “multiculturalismo” – como se pode verificar nos países que mais fervorosamente o acolheram, Inglaterra, Holanda, Suécia – como o “republicanismo” – que tem dificuldades em França, para não dizer que ninguém fora das fronteiras francesas mostrou vontade de o importar –, lambem as suas feridas, perplexos com as suas próprias fraquezas.

Porém, a importância do problema não pode ser ignorada. E a sua urgência obriga-nos a prestar atenção. É preciso notar que a solução “multiculturalista” não coincide com a prática americana. Basta dizer que o cultivo do patriotismo americano é suficientemente vigoroso e sincero para desgostar um verdadeiro “multiculturalista”, e que o culto da Constituição, bem como os rituais e costumes universalmente aceites no discurso público dos EUA, ainda não se vergaram à dissipação de uma identidade política geral.

O lugar-comum de se dizer que vivemos em democracias políticas e em sociedades pluralistas não deve, porém, esconder o facto de ser necessário um permanente esforço de conciliação entre ambas as dimensões da nossa existência colectiva. As democracias são regimes de deliberação pública, da determinação em comum do bem colectivo, o que pressupõe, em maior ou menor grau, o uso de uma linguagem comum, ou pelo menos de uma linguagem que seja inteligível para todos os cidadãos. Ora, a extensão do pluralismo até às suas últimas consequências – como em algumas versões exorbitantes do “multiculturalismo” – coloca em risco a inteligibilidade necessária da linguagem pública, e com ela a própria democracia política.

A democracia fomenta e lida com facilidade com uma sociedade pluralista. Uma foi feita para a outra. Mas uma sociedade permanentemente dividida em guetos sociais e culturais nega radicalmente a esfera pública de cidadania onde decorre a discussão sobre os problemas colectivos. Não vale a pena assustar as criancinhas com os fantasmas do conformismo opressor ou da histeria dos consensos agressivos. As identidades pré-políticas podem perfeitamente florescer em harmonia com uma identidade política que as abranja a todas. Contudo, o que a despolitização em curso na Europa tem de perigoso é a subversão da identidade política e a sua submissão completa a identidades de outro tipo. Não se admirem se o Estado de Direito for arrastado para a confusão: uma juíza Alemã já indicou o caminho. É por isso que a velha Democracia tem de explicar à nova Europa que até o pluralismo tem limites.
publicado por Miguel Morgado às 02:07 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Bons ventos

O Nortadas mudou de imagem.
O azul é sempre uma boa opção. Ainda para mais vindo da Invicta.
Como se diz por lá, «boa continuação».
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 00:37 | comentar | partilhar
Sábado, 24.03.07

O aborto e a condição feminina II

Várias pessoas reclamam que o meu recente artigo no "Sol" é confuso, errado, economicista, cru, chocante — ou várias combinações possíveis destes adjectivos. Quando mais que uma pessoa tem esta reacção, é sinal de que terão alguma razão.

Para que fique claro:

1. Considero o aborto o maior flagelo social das últimas décadas. Desde que fundei, em 1985, o grupo Stanford Students For Life, tenho-me batido na medida das minhas limitadas capacidades para aliviar este problema.

2. Por maiores sejam os benefícios que a mulher americana tenha conquistado com a libertação sexual, não existe justificação para os milhões de seres humanos inocentes que perderam o que mais querido tinham na sua vida — a sua vida!

3. A ideia central do artigo é que, mesmo que sigamos uma perspectiva puramente materialista, não é evidente que a condição feminina tenha melhorado nas últimas décadas.

4. A tragédia do aborto é parte de um fenómeno mais vasto: a degradação da família. De um ponto de vista humano, quem perde mais com isso são os filhos (e já abunda a evidência nesse sentido). De um ponto de vista económico, quem perde mais são as mães solteiras pobres, cada vez em maior número.
publicado por Joana Alarcão às 02:48 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Estabilidade e Bom Senso

O CDS/PP vive um momento de crise institucional que vai muito para além duma disputa de liderança. Tal crise não foi resolvida, antes agudizada, pelo recente Parecer do Conselho de Jurisdição.

Trata-se de um documento lamentável.
Numa altura crítica, em que toda a delicadeza e consistência eram exigidas ao Conselho de Jurisdição, este optou por entrar em cena.

Com uma construção contraditória, uma argumentação chumbada e um posicionamento despudoramente parcial, o Conselho de Jurisdição acaba de se associar à tradição deste Partido, que insiste em tirar da sua galeria os retratos da sua História - neste caso o Direito e as decisões anteriores do mesmo Conselho de Jurisdição quando era ocupado por destacados apoiantes de Paulo Portas.

Temos um grupo parlamentar sem líder, um conselho nacional que não se sabe se tem presidente e um conselho de jurisdição sem vice-presidente.

Entretanto, temos um ex-presidente aparentemente cheio de vigor. Chegou quando quis, impôs as suas regras e convenceu-se que regressa para vencer. Lembra a boa forma do Dr Mário Soares antes da corrida presidencial.

Não sei se o Partido, em directas, vai receber Paulo Portas como o PS recebeu Mário Soares. Mas estou convencido que, se assim for, o País vai avaliar um como avaliou o outro, isto é, com um redondo chumbo eleitoral.

É que nem sempre o Partido está melhor colocado para avaliar os seus, sobretudo aqueles a quem mais deve.

publicado por Filipe Anacoreta Correia às 02:24 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sexta-feira, 23.03.07

Caviar e caldeirada

No meu post sobre o "caso Pinamonti", um leitor que se identifica como Luís deixou dois comentários que merecem ser lidos - e respondidos. É o que tentarei fazer, evitando cair nas personalizações e pontualizações tão típicas do meio. Vamos por partes (ou por "actos", se os melómanos preferirem) .
Primeira parte: o S. Carlos. Talvez a tetralogia de Wagner tenha "sugado metade do orçamento anual do S. Carlos" , o que talvez se deva "ao omnipotente Vick e à sua pleiâde de assistentes". Mas o que interessa realmente é se os resultados corresponderam a tamanho investimento. Toda a gente diz que sim. O Luís diz que não porque o malandro do encenador pôs o palco no meio da plateia e parte do público ficou a ouvir pior os cantores. Eu chamaria liberdade criativa a esse atentado aos direitos do público. Graham Vick arriscou, inovou e até agora ninguém se queixou. Ninguém? Não: o irredutível Luís tem uma opinião diferente. Vai desculpar-me a franqueza, mas uma opinião é isso mesmo. Tal como é uma opinião que "a era Pinamonti acarretou uma perda considerável de qualidade dos elencos". Prefiro não fazer comparações com o passado para não ferir susceptibilidades domésticas.
Há um ponto, porém, em que concordamos: com Pinamonti não houve grande "estímulo à criação aos compositores portugueses". O que é bom. Sou contrário à encomenda de obras musicais contemporâneas por parte de instituições públicas, a não ser em circunstâncias excepcionais. O "caso Emanuel Nunes", que nasceu da negociação de uma ópera, aí está para provar os riscos do mecenato estatal.
Segunda parte: a Festa da Música.
Mais uma vez, pouco me preocupa se era "um subproduto da Folle Journée de Nantes" ou "a galinha dos ovos de ouro" de René Martin. Podemos discutir, com certeza, o facto anómalo de custar metade do orçamento anual do CCB para produções próprias, o que diz bem da suborçamentação do CCB. Mas a pergunta decisiva, repito, não é quanto custa, mas se atingiu os objectivos programados, sobretudo o de dar a um público vasto, a baixos preços, música de alta qualidade.
Eu digo que sim. O Luís volta a dizer que não: nem o público era vasto, nem os preços baixos, nem a música de qualidade. Só que aqui os números vêm em meu auxílio.
A Festa cresceu sempre em espectadores e a última edição, a de 2006, reuniu 60 mil pessoas para ouvir música barroca durante um fim-de-semana. Quantos espectadores tem o S. Carlos no ano inteiro?
Os bilhetes custavam seis euros, excepto na plateia do Grande Auditório (onde custavam dez). Quanto é que custa um bilhete para um jogo de futebol como o próximo Porto-Benfica?
Pelas sucessivas Festas da Música passaram intérpretes do calibre dos Divino Sospiro, do Ricercare, da Akademie Für Alte Musik ou de Nikolai Lugansky, apenas para citar alguns.
A Gulbenkian tem melhor e paga-se dez euros por concertos de hora e meia, contra os cinco por meia hora no CCB? Dou isso de barato, se o Luís me permite a expressão, embora me custe avaliar música ao quilo.
Acontece que comparar a temporada da Gulbenkian e a Festa do CCB é mais ou menos como comparar caviar e caldeirada. O caviar é caro, vem de fora, sabe melhor e só alguns lá chegam. A caldeirada mete tudo e sai para todos. Mesmo assim, há caviar falso. E há caldeirada excelente. Há quem só goste de caviar. Há quem só goste de caldeirada. E há quem goste de caviar e caldeirada.
Mega Ferreira acabou com a caldeirada. E o Luís ainda se espanta de não ver as massas acorrer à Avenida Berna - faminta de caviar...
Pois claro.
Estão todos a rilhar um bom bife, ou um pindérico hamburguer, na grafonola lá de casa.
publicado por Pedro Picoito às 20:37 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Paradoxo?

É portuguesa, gira e joga muito bem ténis.
Parece um paradoxo, mas chama-se Michelle Brito.
publicado por Paulo Marcelo às 14:18 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Da série "Cachimbos de Lá"

Pablo Picasso, Rapaz com cachimbo (1905)
publicado por Pedro Picoito às 00:47 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 22.03.07

Americans are NOT stupid - Vídeo

Com o devido respeito ... este vídeo enquadra-se na categoria: To Be Seen


ps: o que será que aconteceria se este vídeo fosse realizado na Europa?
publicado por Joana Alarcão às 22:07 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

A redoma de vidro

Dying is an art, like everything else. I do it exceptionally well. I do it so it feels like hell. I do it so it feels real. I guess you could say I've a call.
Sylvia Plath.

Ao descrever o ambiente político sombrio perceptível na generalidade dos países da UE, a The Economist chama-lhe crise de meia idade, referindo-se ao meio século que passou sobre o Tratado de Roma. Outros contrapõem o sucesso económico alcançado em 50 anos de integração europeia, mas como recorda Rui Ramos, o projecto de integração europeia era mais do que uma união económica: era um projecto de unificação política, que a recusa francesa do plano Pleven obrigou a rever e reinventar. As comunidades europeias criadas em 1957, principalmente a CEE constituída pelo Tratado de Roma, foram o mecanismo encontrado para conseguir de forma gradual aquilo que não tinha sido possível como acto político. A natureza teleológica do projecto permaneceu a mesma; o instrumento é que mudou.

Os líderes europeus encaravam a integração económica como o mecanismo que produziria a unificação política, de forma linear e como situação de facto: a “integração” era o motor escondido do historicismo europeísta.

Quando supuseram que as condições necessárias e suficientes estavam reunidas, com parte da “agenda Delors” concretizada e a moeda única em circulação, avançaram para a “inevitabilidade histórica” da constituição europeia. E foi então que o mundo tal como o imaginavam desapareceu.

Desde esse momento político não falta quem reclame uma “direcção”, uma “linha de rumo” para a UE. Mas não é por falta de imaginação política que o ambiente europeu se tornou sombrio. O problema fundamental também não é a “idade” do projecto. O que importa perceber é que se exige uma impossibilidade: pretende-se que o problema se constitua como solução.

Tentar impor um rumo político à UE é o problema. Perceber porquê exige compreender um erro analítico fundamental: quase todos –defensores e opositores– do chamado “aprofundamento” tratam a supra-nacionalidade como estando em oposição lógica à soberania do estado-nação. Não só não está como o segredo dos sucessos obtidos pela UE residiu precisamente no carácter complementar destes dois níveis de acção política.

A UE funcionou bem sempre que se dedicou a actividades políticas que reforçaram a soberania dos estados que a compõem; enfrentou os maiores problemas sempre que fez o contrário. Não é por acaso e o alargamento a leste tornou o problema ainda maior, ao criar uma enorme tensão geopolítica entre os interesses dos países continentais (sobretudo a Alemanha) e dos países atlânticos (sobretudo o Reino Unido, mas também Portugal e em certa medida a Espanha). Estas tensões tornaram-se mais evidentes do que nunca no contexto político do alargamento principalmente porque a Alemanha tem um forte incentivo estratégico a manter boas relações com a Rússia.

Nas últimas semanas um dos temas políticos mais discutidos na Alemanha foi o sistema de defesa anti-balístico que os americanos ponderam instalar em alguns países da Europa de leste. Vários comentadores referiram o episódio, considerando-o mais um exemplo do “anti-americanismo” evidente na Alemanha. Esta interpretação é pouco razoável: Putin pretende eliminar a influência americana sobre países que não desiste de controlar politicamente (recorde-se que Putin considerou a implosão da URSS como a maior catástrofe geopolítica do séc. XX) e protestou vigorosamente contra o dito sistema defensivo considerando-o um "acto de agressão”. A Alemanha ficou dividida, entre os compromissos institucionais ocidentais e a inclinação a não contrariar os desejos políticos do Kremlin. O problema é ainda mais complexo: o sistema é virtualmente irrelevante para os mísseis russos, mas pode constituir um dissuasor importante para os mísseis de longo alcance iranianos.

Aqui reside a questão estratégica fundamental: o país que ocupa a presidência europeia é o maior parceiro comercial do Irão e pretende acima de tudo prosseguir uma estratégia de cooperação com a Rússia. Isto significa que na questão crucial da energia –de longe o exemplo mais importante das tais políticas desejáveis, onde a supra-nacionalidade pode auxiliar os estados soberanos da UE– a Alemanha não tem qualquer incentivo a adoptar a estratégia política e diplomática que serve os interesses da maioria dos estados europeus, mas que a colocaria em oposição à Rússia.

No artigo publicado hoje no Diário Económico refiro a importância estratégica do Iraque para os europeus, como alternativa de fornecimento de gás natural à Rússia e ao Irão. Algumas empresas europeias, como a OMV ou a Shell, estão já a tentar conseguir contratos, mas precisam de apoio político-diplomático europeu. Não será sob a liderança alemã que ele chegará.

Os problemas da UE não decorrem da ausência de uma ”narrativa” europeia, como sugeriu recentemente Timothy Garton Ash, defendendo a necessidade da sua criação, uma ideia absurda e desconfortavelmente parecida (em variante supra-nacional) com o que Hobsbawn designou como a “invenção da tradição” —a “falsa consciência” patriótica que acompanhou a criação dos estados-nação europeus desde o final do séc. XIX.

A lógica da diplomacia não mudou: é, como sempre foi, a lógica dos interesses. Porque os interesses dos estados da UE são divergentes e os políticos europeus não desistem de projectos que forçam uma unidade falsa e insustentável é que a UE enfrenta problemas. Pessoalmente acredito que pagaremos todos pela falta de arte política. Mas morrer também é uma arte. No espaço de um século os europeus aprenderam-na excepcionalmente bem. E fazem-no melhor que ninguém. O "longo suicídio europeu" poderá ser, afinal, o nosso (único) destino comum.
publicado por Joana Alarcão às 17:52 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Sulistas, elitistas e liberais de todo o mundo, uni-vos...

... e bebei um copo, porque Luís Filipe Menezes é de novo candidato à liderança do PSD.
publicado por Pedro Picoito às 17:44 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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