Quarta-feira, 04.04.07

O tempora! O mores!


Andam praí a dizer que, ontem, num certo almoço na Ordem dos Engenheiros, a reacção se juntou para conspirar contra o esquerdalho, lançar a contra-reforma, restaurar os bons velhos tempos, e não sei o quê, mas eu só vi uma dezena de bons e divertidos garfos a falar de políticos, jornalistas, bloguistas, bloquistas e outras pessoas que o pudor me impede de nomear (o Salazar, por exemplo).
E em plena Semana Santa...
O tempora!
O mores!
publicado por Pedro Picoito às 17:07 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Não sei se é verdade, mas foi o que o Ministro disse


O Ministro Campos Cunha revelou no programa Prós e Contras que, quando a Irlanda recentemente apresentou a intenção de baixar os impostos, recebeu uma "reprimenda". Com uma naturalidade que só brinda os convictos, o Ministro declarou que a Irlanda dos magníficos superavites orçamentais foi repreendida, não pela Comissão Europeia, não por uma qualquer organização de estudos económicos, mas pelo ECOFIN, pelo Conselho dos Ministros da Economia e das Finanças, do qual ele fez parte.

Sempre se poderá alegar que haveria razões técnicas para a "reprimenda". Talvez o sobreaquecimento da economia irlandesa, que se agravaria com medidas mais expansionistas, aumentando a pressão inflacionista. Talvez. O Ministro não nos disse se a Irlanda, por exemplo, pretendia acompanhar a redução dos impostos com outras reduções na despesa. O Ministro não nos disse se a União Europeia, pelo menos a zona-Euro, tem agora um objectivo não-escrito de apenas regular os orçamentos pelo lado da receita, atribuindo às despesas do Estado um estatuto de imutabilidade. E, assim, não nos resta senão acompanhar Miguel Cadilhe que, ao ouvir o relato, suspirou: "Ao que já chegámos".

É preciso não esquecer que a política fiscal não é apenas uma questão económica ou financeira. É, e sempre foi, uma questão política de primeira ordem. Limites aos défices orçamentais fazem todo o sentido numa união monetária. Mas impor aos Estados-Membros uma estrutura específica das receitas fiscais que, como o caso da Irlanda indica, se sobrepõe ao cumprimento dos limites consagrados dos défices do Estado, parece ser uma intromissão na vida política interna dos Estados que roça o abuso de poder.
publicado por Miguel Morgado às 13:55 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Terça-feira, 03.04.07

Da nova série "os cachos de cá"


Tanto se falou em cevada nuns comentários aí em baixo, que aqui fica a justa homenagem de um conhecido quadro de Malhoa a alguns elementos indecentes desta casa respeitável.
publicado por Joana Alarcão às 16:06 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Rumsfeld: um desastre americano?

Ninguém diria que um homem pequeno (1,70), velho (75 anos) e doente (artrite...) pudesse encarnar o último dos demónios do imperialismo. Chama-se Donald Rumsfeld e, para alguns, é o exemplo acabado da política militarista e hipócrita dos americanos.
O recente livro de Andrew Cockburn relata a longa carreira política e diplomática de Donald Rumsfeld. O tom é muito crítico, basta ver o título do segundo capítulo A Ruthless Little Bastard (uma descrição atríbuida ao presidente Nixon, em 1971) ou a descrição das tortuosas relações com Dick Cheney.
Mas porque nem todas as biografias têm de ser laudatórias (costume nacional sem reflexo além atlântico) e a guerra do Iraque tarda em chegar ao fim, porque não comprar e ler o livro?
publicado por Paulo Marcelo às 14:59 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Da série "Cachimbos de lá"

Pierre-Auguste Renoir, Claude Monet (1872)
publicado por Pedro Picoito às 12:14 | comentar | partilhar

Independentemente

Independentemente (não, não é uma piada) do folhetim do diploma engenheiral de Sócrates, o caso, ou caos, da Universidade Independente está a tornar-se um pouco surrealista. Hoje, o Público conta que foi Carlos Narciso, assessor de Augusto Santos Silva, o Ministro dos Assuntos Parlamentares e das críticas ao "jornalismo de sarjeta", quem enviou o comunicado anunciando a escolha do novo reitor da instituição - notícia, de resto, mais tarde desmentida. Narciso, que é curiosíssimamente finalista da dita universidade, alega que se limitou a reenviar "a título pessoal" um email de um amigo, por acaso professor. Mais: "se fosse dentista e aluno da universidade, ninguém faria alusão à minha profissão, mas, como sou assessor do Governo, já tentam tirar ilações".
Ilações?
Ó (dr?) (eng.?) (sr.?) Narciso, por quem é...
Quem seria lá capaz de fazer uma coisa desssas?
Afinal, trata-se só de uma universidade que passa diplomas inexistentes a Primeiros-Ministros, nada mais.
publicado por Pedro Picoito às 11:50 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Da série "Posta Restante"

Muito boa, a crónica do Rui Tavares no Público.
Não concordo com quase nada, mas faz pensar, uma raridade cada vez mais rara nos jornais portugueses.
publicado por Pedro Picoito às 11:43 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 02.04.07

Não é Cameronização é Portização mesmo

Não Pedro, não é a Cameronização do CDS, é a enésima Portização.

Uma brevíssima cronologia dos últimos 15 anos:
1. Somos o PP: eurocépticos e não gostamos do CDS. Não apoiamos o Cavaco para Presidente (em 96);
2. Afinal apoiamos o Cavaco para Presidente, mas mesmo no fim da campanha (e atraiçoamos o líder do Partido);
3. Enganámo-nos e gostamos da Europa e achamos que os históricos do CDS são fundamentais e por isso o partido chama-se CDS-PP, era o que mais faltava somos fundadores da democracia e estivemos no Palácio de Cristal;
4. Somos de direita mas atenção aos velhos, às peixeiras e aos combatentes do Ultramar;
5. Somos estadistas responsáveis no Governo, mas nem pensar em contar com os históricos, este é o Partido Popular;
6. Somos uns liberais histéricos;
7. Afinal não somos nada, tirando sermos contra as directas, mas fazemos o que for preciso para voltar a ser (2005-2007);
8. Somos modernos, modernos, modernos e, claro, a favor das directas (2007-2009).

Estes zig-zags são insustentáveis. Não é o meu partido, mas reconheço-lhe importância suficiente para ser o fiel depositário de valores que o PSD, por ser um catch-all, não defende (sobretudo na oposição).

Por isso acho que desta é de vez e tudo ficará resolvido em 2009. O pior serão os escombros.
publicado por Francisco Van Zeller às 23:44 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

E porque este Blog promove a Cidadania...

Aqui vai a resposta da Lactogal, empresa à qual enviei um e-mail a protestar por uma campanha publicitária do Leite Vigor, onde se afirmava orgulhosamente que este leite "Dura mais que alguns casamentos". O e-mail seguiu a 19 de Dezembro de 2006.


Hoje, 104 dias depois, a Lactogal dignou-se a responder-me. É claro que escrever e enviar um e-mail dá um trabalhão, e com todas aquelas vacas à espera da ordenha do Leite Vigor devo ter causado um prejuízo dos diabos. O email não vem assinado e por isso não sei a quem me dirijo quando quiser responder. Aceito sugestões.


Aqui vai então a resposta da Lactogal:

"Exmo. Sr. Francisco A. Van Zeller,


A marca Vigor que surgiu em 1951 é, tradicionalmente, um ícone da cultura portuguesa, sinónimo de qualidade e prestígio.
Há cerca de 4 anos, a Vigor, passou a integrar o universo Lactogal que tem vindo a apoiar a marca investindo no sentido de rejuvenescer e reforçar a sua imagem e aumentar a notoriedade da marca enquanto especialista em leite fresco. Também em termos industriais, a Lactogal investiu lançando uma nova embalagem de leite pasteurizado em cartão, com capacidade de um litro e abertura fácil e com tampa de rosca.
Por forma a continuar a satisfazer os consumidores da marca, foi introduzido recentemente o MCN - Método de Conservação Natural. É um método inovador e natural que, sem recurso a qualquer conservante ou aditivo, permite o aumento do tempo de vida do leite mantendo a sua pureza e características originais intactas. Graças ao MCN, o Vigor de sempre proporciona aos seus consumidores maior conveniência, já que garante mais de uma semana de sabor fresco.
O objectivo da mensagem publicitária da campanha que citou foi unicamente transmitir que o leite Vigor através do MCN – Método de Conservação Natural, tem uma duração mais alargada e mantém todo o sabor e frescura com que habituou os seus consumidores.

A intenção desta campanha nunca foi ferir susceptibilidades, nem pôr em causa a instituição do casamento. Lamentámos que a campanha seja passível da interpretação efectuada e agradecemos o seu contacto. Tomaremos em conta as suas observações em futuras campanhas ublicitárias.

Com os melhores cumprimentos,

Dir. MKT"

publicado por Francisco Van Zeller às 19:21 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Homo

Tipos comportamentais estudados ontem em alguns indivíduos na zona do Estádio da Luz, Lisboa.

É notório que há ali indícios de operações mentais (ainda que seja temerário ver nisso qualquer coisa como um “pensamento”): são capazes (alguns dos indivíduos observados) de manejar utensílios, que usam como “armas” e, pelos vistos, conhecem até o fogo (resta saber se possuem já a destreza suficiente para a sua manipulação controlada – isso poderá ser averiguado em observações futuras).
Que os seus polegares são oponíveis não nos surpreende, visto que a mesma característica já se encontra noutros primatas – o que é interessante é serem dotados de grande flexibilidade digital que lhes permite gestos (rituais?) curiosos em que o dedo médio é esticado na vertical, com o indicador e o dedo correspondente ao nosso anelar flectidos. O significado (ou significados) deste interessante comportamento é matéria de debate. Parece ser uma manifestação de “alegria” (semelhante ao abanar de cauda do cão), porque suscita “risos” nos companheiros; poderá ser um comportamento de desafio para os indivíduos do grupo rival (os “inimigos”)? Alguns autores vêem também nesta exuberante mímica uma espécie de ritual de sedução das fêmeas, o que já nos parece pouco provável, porque isso requereria relações simbólicas entre várias partes do corpo, operações mentais muito complexas que, tudo indica, não estão ao alcance dos indivíduos observados. Temos que ter sempre o cuidado de não resvalarmos para a atribuição de características especificamente humanas a indivíduos de outras espécies ou sub-espécies, por mais simpatia que o seu estudo nos cause.
Registou-se ainda um fenómeno curioso: os indivíduos em causa parecem ter qualquer coisa como um condicionamento “psicológico” cromático, i. e., os indivíduos de um grupo pareciam ficar particularmente excitados ao verem a predominância da cor azul nos membros do grupo rival e estes manifestavam a mesma alteração ao verem o vermelho nos outros. Afasta-se desde logo a possibilidade de isto significar algum tipo de excitação sexual, porque nos dois lados encontram-se em geral jovens machos. Este comportamento fascinante parece indiciar antes uma espécie de marcação cromática de territórios. Portanto, mais uma vez, há que reconhecer aqui um certo grau de complexidade “mental”: só ela permite que a localização espacial dos territórios “tribais” seja móvel, i. e., o meu território não é “aqui” ou “ali”, o meu território é onde está o Azul, ou o Vermelho, ou o Verde, etc. (Talvez um dia se venha ainda a descobrir algo como uma percepção estética a par desta distinção entre cores...)
Como prova do extraordinário sentido gregário destes indivíduos (ainda que não se tenha observado nenhum caso de allogrooming), temos que foram avistados alguns que se tinham separado acidentalmente dos seus companheiros e davam mostras de desorientação e pareciam “deprimidos”.
Infelizmente, por mais fascinantes que sejam, não se encontraram nestes indivíduos competências linguísticas. Contudo, a inexistência de linguagem, não nos deve fazer cair em nenhuma arrogância antropológica. Há ali mímica, gritos e urros (por parte dos machos juvenis) e guinchos (fêmeas) que denotam sem margem para dúvidas um “sistema”, ainda que rudimentar, de códigos de sinais.
Conseguem manter-se mais de 50% do tempo na posição erecta (e não apenas para posturas intimidatórias ou de fuga), embora haja relatos de indivíduos que, mais tarde, se deslocavam preferencialmente com o auxílio dos quatro membros.
Pertencem, portanto, ao género homo. O que gera dúvidas ponderosas é a sua classificação intra-genérica: como colocá-los relativamente ao Homo neanderthalensis?
publicado por Carlos Botelho às 18:15 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Mudam-se os tempos

A "cameronização" de Paulo Portas prossegue em ritmo acelerado. Depois de abandonar o fato às riscas, de reclamar a atenção do CDS para as questões fracturantes e de começar a falar em nome do "centro-direita", ontem veio dizer que não se deve deixar "a cultura, a ciência e o ambiente" à esquerda.
Onde isto já vai...
O que é que se segue?
A denúncia dos lucros da banca, embora à custa do financiamento do partido?
A defesa do casamento gay, mesmo com o risco de perder o eleitorado ribatejano?
A exigência de medidas para diminuir o aquecimento global, tão mal vista entre os taxistas?
Ai, ai, se o Rumsfeld sabe...
publicado por Pedro Picoito às 15:30 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Bento XVI sobre João Paulo II (não é uma resposta ao Picoito, mas podia ser)

...creio que na sua primeira mensagem "Urbi et Orbi."

"Junto dos seus restos mortais, pousados na terra nua, recolheram-se os Chefes de todas as Nações, pessoas de todas as classes sociais, e especialmente jovens, num inesquecível abraço de afecto e de admiração. Para ele olhou todo o mundo com confiança. Pareceu a muitos que aquela intensa participação, amplificada até aos confins do planeta pelos meios de comunicação social, era como que um pedido unânime de ajuda ao Papa por parte da humanidade que, perturbada por incertezas e medos, hoje se interroga sobre o seu futuro.»

"A igreja de hoje tem que reavivar em si mesma a missão de propor novamente ao mundo a voz daquele que disse: "Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida (João 8, 12). Ao começar o seu ministério, o novo Papa sabe que a sua tarefa é fazer resplandecer perante os homens e as mulheres de hoje a luz de Cristo: não a sua própria luz, mas a luz de Cristo."

Só o profundo afecto de Ratzinguer por João Paulo II é que nos impede de ler estas últimas palavras da pior forma. Ainda assim, poderia ter um ponto. Não acerca de um defeito pessoal de João Paulo II, mas sobre as qualidades mediáticas de quem tem uma função vicarial e que por isso mesmo podem não ser qualidades em absoluto. Enfim, estranho seria se tudo tivesse sido bom. Até porque para o cristão: "Um só é bom".
publicado por Joana Alarcão às 14:23 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

No segundo aniversário da morte de João Paulo II

Passam hoje dois anos sobre a morte João Paulo II.
Para mim, João Paulo II será sempre "o Papa"porque foi sempre "o Papa" desde que me lembro. Quando foi eleito, em 1978, eu tinha sete anos e alguns berlindes. Quando morreu, eu tinha 33 anos, quatro filhos, dois empregos, um Mestrado e duzentas páginas da tese de Doutoramento.
Não fui só eu que mudei. O mundo também mudou.
Em 1978, a União Soviética e o Muro de Berlim ainda existiam. O Pacto de Varsóvia tinha mísseis nucleres apontados às principais cidades do Ocidente. Não havia o Solidariedade na Polónia. Ninguém sabia quem era Lech Waleza. A teologia da libertação inspirava o clero na América Latina, onde alguns padres tinham a curiosa mania de entrar em governos marxistas (o sandinista, na Nicarágua) ou apoiar a guerrilha (Camilo Torres, na Colômbia). No México, a simples existência da Igreja era proibida - letra morta, é certo, mas letra - , tal como na China. Na Europa e na América do Norte, a confusão sobre o Vaticano II era mais que muita. Os bispos fechavam-se nas sacristias à espera do apocalipse. Semana sim, semana não, lá tínhamos que aturar novo dislate do Hans Küng ou de outro teólogo mediático. Os jesuítas, em tempos a ordem mais notável da Cristandade, "espalhavam os seus erros pelo mundo". África era um continente entregue à sua (má) sorte. As relações com os judeus eram complicadas. Nunca um Papa entrara numa mesquita. Os católicos não discutiam Galileu, a Inquisição ou as Cruzadas para não misturarem ciência e fé. Ratzinger ainda não tinha chegado ao Vaticano. Não se fazia um catecismo universal desde Pio X. Não se conhecia o "terceiro segredo de Fátima". E Francisco e Jacinta Marto ainda não tinham sido canonizados.
Sim, tudo isto mudou. E mudou, em grande e misteriosa medida, graças ao pontificado histórico de Karol Wojtyla.
Já vos disse que João Paulo II, para mim, será sempre "o Papa"?
publicado por Pedro Picoito às 12:03 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Isto não é o CDS

O nosso assalto ao poder vai demorar mais um bocadinho...
publicado por Pedro Picoito às 12:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Domingo, 01.04.07

Economia paralela

Num interessante artigo no Jornal de Negócios, escreve Pedro Guerreiro que:
Expandir a economia "declarada" (...) é uma forma de estatisticamente ampliar o crescimento da economia.
Sem dúvida. Mas não podemos esquecer o efeito que o combate à economia paralela tem na produtividade empresarial. Mesmo sem alterar a produtividade de cada empresa, a melhoria do processo de selecção tem um efeito enorme na competitividade da economia: empresas “más” que vivem à sombra da economia paralela substituídas por empresas “boas” que cumprem todas as obrigações inerentes à legalidade. E este é um efeito real, não meramente “estatístico”.
publicado por Joana Alarcão às 17:49 | comentar | partilhar

O Último Rei da Escócia


N'O Último Rei da Escócia conta-se a história do Uganda durante a tirania do maníaco e sanguinário Idi Amin. Infelizmente, esta história não é exclusiva do Uganda; repetiu-se um pouco por toda a África desde os tempos da independência. Basta recordar a República Centro-Africana, o Sudão, a Etiópia, a Líbia, a Serra Leoa, a Libéria, o Zimbabué, entre outras trágicas experiências da alucinação do poder provocada em homens fracos, paranóicos e sequiosos de sangue.

O filme acompanha alguns dos principais acontecimentos do domínio de Amin pelos olhos de uma personagem fictícia, um recém-licenciado médico escocês, o Dr. Nicholas Garrigan. Aparentemente, a personagem de Garrigan inspira-se em parte na experiência real do Ministro da Saúde de Amin, Henry Kyemba, que, tal como Garrigan no filme, salva a sua própria vida fugindo do país antes de ser capturado para execução pelos homens de Amin. Foi também Kyemba que viu na morgue o corpo esquartejado de Kay, uma das mulheres de Amin, e no filme esse episódio é consagrado com uma cena protagonizada por Garrigan.

Para efeitos da narrativa, Garrigan desempenha, no entanto, uma outra função. Enquanto médico e bom rapaz, Garrigan personifica a atitude europeia perante a África pós-colonial. Com uma estranha mistura de impulsos "humanitários" e má consciência, a Europa tem produzido os efeitos mais preversos nas sociedades africanas. As suas práticas "neo-colonialistas" não foram tão nefastas quanto o discurso de que dotaram os líderes africanos e que lhes permitiu manipular, saquear e oprimir os seus povos durante décadas. A retórica do "racismo", do "imperialismo", do "neo-colonialismo", do "terceiro-mundismo", tem servido de imenso abrigo onde se cultivam os maiores sofrimentos, com as oligarquias locais a cobrar exorbitantes bilhetes de entrada. E quem paga são sempre os mesmos: não os europeus, certamente, mas o africano comum. Para quem achar que isto só se aplica aos casos mais extremos, que confira a história da propagação assustadora da SIDA na África do Sul e veja o que levou Mbeki a inicialmente negar o auxílio médico do Ocidente.

Garrigan, sem a mínima intenção de colaborar com um regime maligno, contribui em todos os instantes para o seu triunfo. Enquanto médico (a profissão "humanitária" por excelência), Garrigan não faz "juízos políticos" nem morais dos governantes africanos; ele está lá apenas para "ajudar quem mais precisa"; enquanto bom rapaz da Escócia, enquanto escocês que desconfia dos antigos senhores ingleses, Garrigan mantém a pose de rebeldia contra o domínio inglês e de desafio às condenações políticas provindas do Ocidente. Enquanto jovem branco, Garrigan carrega consigo o desejo de abrir uma nova página da História, sem impérios e no respeito integral pela independência e pelas escolhas dos africanos. Ele olha para os ingleses e pode dizer que são eles os desmancha-prazeres da nova vida africana. É por isso que não suportam alguém como Amin que pretende devolver a dignidade e a esperança ao seu povo.


Diga-se em seu favor que Garrigan tem pelo menos uma vantagem sobre a atitude europeia que personifica. É que Garrigan, depois de abrir os olhos para a realidade, já não vacila na sua condenação do líder e do regime. A Europa ao longo dos anos, porém, em particular na sua versão nórdica, persiste em calar a contestação espontânea à crueldade, à rapina, à iniquidade e à duplicidade com auxílio financeiro sem compromissos. O receio da acusação de "neo-colonialismo" e o fardo opressor do passado justificam que os padrões de conduta política e moral sejam diferentes quer estejamos a norte ou a sul do Mediterrâneo. Se quisesse ser cínico, diria que, sob a capa da fraternidade entre os povos, esconde-se um paternalismo subreptício que, com alguma má vontade, poderia ser qualificado de..."neo-colonialismo". Ora o que qualquer cidadão pode constatar, os governantes (e muitos intelectuais) europeus fizeram o possível por ofuscar: a distinção aristotélica entre os regimes que servem o interesse do todo e os que apenas prosseguem o interesse dos governantes é ainda um critério válido para separar o que é politicamente aceitável do que é inaceitável. Aristóteles era grego, mas o seu critério abrange o norte como o sul do Mediterrâneo.

Reconheço que o contexto da Guerra Fria complicava a acção do Ocidente. Não minimizo o condicionamento imposto pela retórica e apoio soviético e, mais tarde, chinês. Mas, desde 1991, muitos erros foram cometidos que já não podem contar com essas atenuantes. Com algumas honrosas excepções, parece que não aprendemos nada. E enquanto nos entretemos a lidar com os nossos traumas, há uns quantos milhões que experimentam o Inferno na Terra.
publicado por Miguel Morgado às 13:08 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Da série "Resposta ao Pedro Picoito"

Pela mesma razão que o Almirante Miklós Horthy, Regente da Hungria entre as duas guerras, foi retratado montado num cavalo pelo grande pintor húngaro Fülöp László, quadro que inspirou o título da obra de Thomas Sakmyster Hungary's Admiral on Horseback: Miklo's Horthy, 1918-1944. (Infelizmente, não encontrei a imagem do quadro de Lászlo)
O século XX virou a Europa Central do avesso.
publicado por Miguel Morgado às 02:34 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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