Quarta-feira, 27.06.07

Sarkozy e a Globalização

Aprende-se sempre com o Bruno Maçães. Nem sempre concordo com o que ele diz, mas isso é muito pouco relevante. No artigo que o Bruno escreveu ontem, Sarkozy figura como protagonista. As suas declarações e negociações parecem anunciar uma menor resignação perante o relativo consenso dos últimos anos em matéria de política monetária, comércio internacional e concorrência ao nível europeu. Julgo, no entanto, que ainda teremos de esperar para ver o que Sarkozy vai efectivamente fazer.
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Mas ainda assim discordo com a visão do Bruno que contempla um Sarkozy suspeitoso do mercado ou, pelo menos, discordo das razões invocadas que alegadamente autorizam a conclusão de que Sarkozy olha para o mercado de sobrolho franzido. Diz ele que "Sarkozy acha que o mercado livre e a concorrência perfeita, ou o princípio da vantagem comparativa, são ideias ingénuas, assentes numa opinião demasiado favorável dos seres humanos e da possibilidade de benefício mútuo". Não sei se será esse o fundamento. Não sei se a questão reside em perspectivas antropológicas ou na "possibilidade de benefício mútuo". Parece-me antes que Sarkozy se recusa a aceitar que a regularidade nomológica dessas ideias seja infalível, e que é preciso pensar política e economicamente as excepções. E, sobretudo, parece-me que Sarkozy pretende reerguer o político enquanto domínio primeiro. Em termos que talvez sejam mais esclarecedores: Sarkozy pretende converter a "globalização" em matéria mais disposta à escolha, e menos à necessidade. Por vezes, em momentos mais incertos tendo a acolher a bondade do propósito.
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Talvez eu esteja a ser demasiado benevolente com Sarkozy. Sinceramente, posso estar enganado. Mas em breve saberemos.
publicado por Miguel Morgado às 01:45 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

As direitas à porrada (ou Há direitas, há porrada)

Meu caro Francisco
Comecemos por lembrar que somos ambos de direita e do PSD, mas com diferenças.
Há alguns meses, eu comemorava o 25 de Abril e tu escandalizavas-te. Agora, tu apoias um candidato do PS e escandalizo-me eu.
O que é que isto significa?
Três coisas.
1. Primeiro, que eu mudo mais dificilmente ou dou mais importância à história. Digamos que sou mais conservador... Voto laranjinha desde que me lembro. Votei sempre, aliás, mesmo quando o PSD era o circo do Santana Lopes. Nunca votaria no PS porque, apesar do seu papel na defesa da liberdade em 75, é ao PSD que se devem todas as lutas pelo aprofundamento da democracia portuguesa desde então, do fim do Conselho da Revolução com Sá Carneiro, em 82, à eleição de Cavaco Silva, o primeiro Presidente não oriundo da esquerda, em 2006.
Tenho poucos heróis, de resto conhecidos. Não é grande virtude, é só falta de paciência para messianismos. Um Costa qualquer não chega para converter-me.
2. Segunda coisa: o voto em Costa não é solução, nem para a cidade, nem para a direita. Dizes que se trata de um político de peso e que vai pôr as contas em ordem. Estimo muito, mas nunca percebi esse entusiasmo da direita indígena por homens providenciais.
Ou talvez perceba. Há aqui a memória quase inconsciente do professor de Finanças de Santa Comba. Quando a nossa direita deixar de sonhar com salvadores da pátria de botas altas e lápis de merceeiro, talvez o famoso liberalismo seja possível por cá.
Nota que não estou a recusar, por princípio, líderes fortes e orçamentos disciplinados. Simplesmente, o perfil salazarista que te atrai em Costa não me atrai nada.
Pelo contrário.
O senhor ex-número 2 está ligado, queira ou não, a algumas das maiores tentativas de condicionamento da opinião em Portugal nos últimos tempos: a campanha presidencial de Soares e os seus ataques a Cavaco, o surrealista dossier da licenciatura de Sócrates, o caso Charrua, o referendo do aborto e sobretudo o pós-referendo.
Espanta-me que nada disto te faça duvidar das qualidades de tão glorioso candidato, entre as quais avulta, já se sabe, a de ter caído do céu.
3. Em terceiro lugar, esta rendição da direita ao poder de turno não chega a ser uma fuga - é um suicídio. As consequências estão bem à vista. Sem candidatos fortes, porque de antemão vencidos e convencidos, o PSD vai a votos com Negrão. Negro fado. Até um aprendiz de feiticeiro prevê os resultados da farsa, que está a correr pior do que a pior previsão.
Entretanto, os barões do partido esperam no remanso público ou privado por melhores tempos. Algo me segreda ao ouvido que vão ter de esperar muito.
Costuma dizer-se que o PSD se dá mal na oposição. Antes fosse. O PSD dá-se à inexistência na oposição.
O PS agradece.
O país não.
(Uma última notinha. Pedes-me que indique o melhor candidato. Esqueces que a política é a arte de escolher o mal menor.)
Um abraço e vota em consciência.
publicado por Pedro Picoito às 01:06 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Da série "Cachimbos de Lá"

Balthus, A montanha, 1937
publicado por Pedro Picoito às 00:56 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Terça-feira, 26.06.07

Não sou conservador (1)

Misturo aqui um método de conhecimento e uma compreensão do homem. Não me refiro propriamente ao problema da verdade enquanto tal, mas ao modo como a ela podemos aceder. Nada disto é original. De forma resumida, diz-se assim.
Numa perspectiva (que designo de conservadora) o acesso à verdade dá-se independentemente da sua posse por alguém. Ela existe separada da história, pode ser formulada em proposições que são verbalmente imutáveis. Ao procurar compreender o homem, esta perspectiva opera segundo abstracções, elimina todos os aspectos que diferenciam os homens uns dos outros e obtém um resíduo final que denomina de natureza humana, um resíduo universal, fixo e imutável. Ao procurar compreender o homem concreto, parte desse resíduo e vê-se implicada na aplicação (casuística) de um conjunto de universais à singularidade concreta.
Noutra perspectiva, o acesso imediato à verdade objectiva não é uma prioridade. O compromisso desta perspectiva está empenhado na compreensão das afirmações humanas sobre a verdade, “com o entendimento contido nessas afirmações, com as condições do entendimento e da afirmação, e portanto com a historicidade da verdade e com o progresso na compreensão e penetração daquilo que é verdadeiro.” Aqui, o homem é entendido como um ser que experimenta, imagina, deseja, teme, espanta-se, compreende, concebe, delibera, decide, age. Ele é um centro produtor de actos intencionais impregnados de sentido. Ele existe como “subjectividade, como centro de consciência e liberdade, cuja história, única e não comparável com nenhuma outra, expressa a sua irredutibilidade a toda e qualquer tentativa de constrangê-lo dentro de esquemas de pensamento ou sistemas de poder…” O seu contexto, a sua apreensão da verdade, as relações com o mundo, com os outros e o Outro, tudo isto é mudança, porque o homem é subjectividade criativa.
Como facilmente se pode apreender, a primeira perspectiva dificilmente gera qualquer imperativo de verdadeira mudança nas formas e estruturas sociais, económicas e políticas. Todavia, aquém da substância existem os acidentes. Estes podem sofrer alterações. Mas estas são apenas uma readaptação do mesmo universal a situações diversas, uma aplicação da abstracção imutável ao caso concreto. O mesmo universal aplicado de forma elástica no particular concreto. Ou seja, não há mudança, ou esta é apenas acidental.
Mas se a subjectividade, a intencionalidade e o sentido forem (como acredito que são) constitutivos inegáveis da pessoa humana, então a exigência de mudança nas formas e estruturas é um dado inegável. É um facto e um imperativo. Por isso, não sou conservador.
publicado por Joana Alarcão às 11:46 | comentar | ver comentários (20) | partilhar

Schalit, Gilad


Um ano depois.

publicado por Carlos Botelho às 02:26 | comentar | partilhar

Lisboa no Cachimbo I

O Pedro do Cachimbo e o Henrique do 31 discordam de forma militante do facto de António Costa ser o melhor candidato para Lisboa.
O Pedro está preocupado com o programa de Costa (que diria dos outros programas...). Há muito que os programas eleitorais - e respectivas campanhas - têm pouca ou nenhuma ligação à realidade. O exemplo destas eleições em Lisboa é paradigmático: nada rende menos votos do que discorrer sobre a maçadoria do saneamento das contas (que significa menos investimento e mais receitas a serem pagas por alguém), a reorganização da máquina administrativa, a política de habitação (inexistente, enquanto não for alterada a lei das rendas) ou dos transportes (dizer aos lisboetas para usarem menos o carro é perder eleições). Por isso os candidatos - sim, incluindo o Costa - tentam entreter os media com coisas ao lado tipo os casamentos gay, ciclovias, os estafados "pulmões verdes" e "espaços ribeirinhos" etc. É um mau sistema, mas é a verdade. Daí eu não me focar no programa de Costa (que nem conheço bem), mas sim na sua pessoa, no seu "peso" político, e - pois é - na sua inevitável ligação ao Governo que é essencial nestas eleições para resolver os problemas que tenho referido. Pedro já experimentaste imaginar uma coligação em que um dos candidatos não seja o Costa? As combinações são do caraças: Negrão-Carmona; Negrão-Roseta; Carmona-Roseta; Negrão-Zé Faz Falta; Carmona-Zé Faz Falta etc. É um exercício esclarecedor.
Eu estou de acordo contigo: há muitas matérias que poderiam abordadas. Mas também escusas de exagerar: O Parque Mayer é um esconso decadente inventado pelo Santana Lopes. E as colectividades devem ficar no seu lugar e ganhar a sua autonomia em vez de chularem subsídios e fazerem política (deverás saber que a federação das colectividades está totalmente nas mãos do PC).
Ah, é verdade, e esqueceste-te de dizer qual é afinal o melhor candidato.

P.S. Henrique, lá chegarei ao teu post.
publicado por Francisco Van Zeller às 00:42 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Coisas Menores: o Referendo, a Constituição e a Europa

"A minha posição pessoal é contrária, por princípio, ao instituto do referendo. Não lhe reconheço nenhum ganho político e só é sintoma da crise do sistema parlamentar. A verdade é que os parlamentos são indispensáveis ao funcionamento da democracia e os referendos não. É o Parlamento que define a democracia, não é o referendo. O referendo só é um instrumento legítimo e adequado para as questões menores."

"A realização de uma consulta popular tem de ser posta em linha com outros valores. Neste caso, o valor da importância da viabilização de um novo tratado europeu. Dou um exemplo concreto: num cenário em que todos os países se comprometessem a sacrificar o referendo à urgência da entrada em vigor de um novo tratado, então deveria ser evidente que Portugal deveria entrar nesse compromisso. Além do mais, um referendo é incompatível com a discussão de questões complexas. Os debates nos referendos rapidamente se tornam demagógicos. É também para essas questões complexas que existem os parlamentos."
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Devemos, portanto, recorrer ao referendo para questões menores como, digamos, o aborto, a regionalização ou o novo aeroporto de Lisboa, mas não quando pode estar em causa (ainda não se sabe) a constituição da República. Dizia o outro que o poder tende a corromper, e o poder absoluto tende a corromper absolutamente. Ser eurodeputado tende a criar uma certa aversão à democracia quando esta significa que só o povo pode ratificar constituições.
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Não basta dizer que em democracia o povo pode ratificar constituições através dos seus representantes. Ratificações constitucionais através de representantes são democraticamente viáveis quando estes foram eleitos expressamente para o efeito. Seria interessante uma solução deste tipo para Portugal. Quem tanto se escandaliza com os gritos demagógicos propiciados pelos referendos, poderia propor uma convenção de representantes do povo português com a única e exclusiva missão de se pronunciar sobre o tratado constitucional. A menos que "outros valores" se ponham "em linha".
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Não deixa de ser divertido ver os nossos eurodeputados abrir o peito contra os inimigos do governo representativo e parlamentar, sempre que lhes falam em referendos. É um tique contagioso e tem o condão de sanar divergências meramente partidárias. Tem piada porque o governo representativo é essencialmente o governo da publicidade e da discussão. E não há nada que os senhores de Bruxelas e de Estrasburgo gostem menos do que de publicidade e discussão. Mas a paciência tem limites, e o meu sentido de humor não é elástico. Ao nosso querido eurodeputado Sérgio Sousa Pinto só peço que me poupe à sua defesa sentida e desinteressada do "sistema parlamentar". Prefiro a demagogia dos referendos.
publicado por Miguel Morgado às 00:05 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 25.06.07

Tocqueville em Alfragide

Se Tocqueville hoje visitasse Portugal, escrevia um livro sobre a IKEA. Poucos coisas terão feito mais pela mistura de classes e pela democratização do gosto cá na aldeia do que o triunfo da marca sueca.
Sempre que lá vou, arrastado pela fúria mobilizadora de uma certa donzela, observo as pessoas enquanto digo a todas as compras que sim. O que significa geralmente o fim das minhas economias e o princípio da minha sociologia.
Por aqueles corredores, às cotoveladas, é a sociedade portuguesa que abre caminho: gerações de suburbanos em passeio semanal, betas na véspera de dar o nó com a mãezinha, solitários de gosto alternativo, donas-de-casa em peregrinação desopilante, casais provincianos com aspirações cosmopolitas, imigrantes brasileiros e eslavos e paquistaneses, namorados cheios de projectos com ar de namorados cheios de projectos, jovens profissionais de sucesso a mudar de casa (ou de carreira, ou de amor, ou de vida), famílias da classe média com orçamentos abaixo da média (o nosso caso, claro).
Esqueçam a cidadania, a Europa e a globalização. O futuro da democracia portuguesa está no contraplacado de bétula.
publicado por Pedro Picoito às 22:56 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Da série "A concorrência faz melhor"

Inevitavelmente de acordo com tudo o que o Paulo Gorjão diz hoje sobre a "Constituição" europeia, o necessário referendo e as inacreditáveis declarações de Sérgio Sousa Pinto.
publicado por Pedro Picoito às 22:50 | comentar | partilhar

Da série "Posta Restante"

"É o próprio Berardo que afirma que conseguiu o que sempre quis. Conseguiu fazer um museu permanente no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, transformando aquilo que era um espaço aberto numa exposição permanente durante quase dez anos. Conseguiu que, na pior das hipóteses, o Estado se obrigasse a comprar-lhe a colecção em 2016 por 316 milhões de euros. E conseguiu ficar a mandar mais do que o Estado na na fundação que vai gerir o museu e que é, aparentemente, paritária.
(...)
De um lado, um investidor que confessa nunca se apaixonar pelos investimentos e que não entrou neste negócio com um espírito altruísta ou de benemérito.
(...)
Do outro, um Estado que é geralmente medíocre a acautelar os seus interesses que, na generalidade dos casos, são interesses públicos.
(...)
Não é difícil identificar quem é o elo mais fraco."

Paulo Ferreira, "O elo mais fraco do Museu Berardo", editorial do Público, 25/6/07
publicado por Pedro Picoito às 12:28 | comentar | partilhar
Domingo, 24.06.07

Interesses

Não sei se já viram, mas apareceram uns cartazes a dizer que o "Zé" só tem um interesse: Lisboa.
Eu vou mais longe: o "Zé" não tem mesmo nenhum interesse.
publicado por Pedro Picoito às 23:56 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Orgulho quê?

Ou eu ando muito distraído, ou a coisa não apareceu nos jornais, mas só agora me dei conta de que a edição 2007 do Arraial Pride foi ontem no Terreiro do Paço.
Entre as diversas estratégias do activismo gay para obter o reconhecimento social, esta sempre me pareceu a mais contraditória. Porque não tenta combater nenhuma discriminação, real ou suposta, mas sublinhar a diferença. Para quem tanto exige a igualdade de "direitos", há algo aqui que me escapa.
O orgulho gay evoca o espírito de gueto do qual os homossexuais dizem querer libertar-se (ou proteger-se). É exactamente simétrico do marialvismo que se gaba da mais primária homofobia para exibir uma heterossexualidade folclórica. Nenhum heterossexual, excepto um adolescente inseguro ou um émulo do Capitão Roby, proclama com "orgulho" a pertença ao clube. É um dado da intimidade.
Imaginem que eu me virava para a senhora cuja companhia tem sido indispensável à minha modesta heterossexualidade e lhe dizia "Ó Maria, vamos pró Terreiro do Paço dar umas beijocas a fim de mostrar ao mundo, ou pelo menos à pátria, o nosso orgulho straight". Todos, a começar por ela, achariam que isto do blogue me está a dar volta ao miolo.
É como aquela parvoíce do "orgulho branco". Só gente com uma identidade problemática pode orgulhar-se de uma natureza que em nada depende de si. Mas se, ainda por cima, a Câmara de Lisboa apoiasse um arraial do panache caucasiano (nada de trocadilhos, por favor), o mais certo era a brigada do politicamente correcto tocar de imediato as trombetas contra o regresso do "faxismo".
A não ser, claro, que os gays entendam que a homossexualidade afinal não é questão de natureza, mas de opção. Uma opção melhor do que a dos outros. Daí o "orgulho".
Se for isso, não contem comigo para um arraial da vergonha hetero.
Adenda: Entretanto, o Daniel Oliveira teve a rápida gentileza de esclarecer que o orgulho gay "não é para que" eu "goste". Pelo contrário, é "para que incomode" e seja "intolerável".
Já tinha desconfiado. A tolerância nunca foi exactamente um motivo de orgulho para o Daniel.
publicado por Pedro Picoito às 22:56 | comentar | ver comentários (57) | partilhar

It's medical care, stupids!


Trata-se de uma resposta (porventura ingénua, mas verdadeira) a esta coisa do dr. Derek Summerfield e comparsas.
publicado por Carlos Botelho às 21:31 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Concordo, sim senhor.

E depois de ler o Cachimbo, o Director Geral da Ferrari declarou à Reuters que: “a menos que o divertimento se tenha tornado um pecado, eu não acredito (que seja errado).” Em relação ao polémico 5º Mandamento, Amedeo Felisa escuda-se dizendo que “a maioria das pessoas compra Ferraris por amor à condução.”


Ora, é só para dizer que concordo plenamente com o meu caro amigo. E já agora. Parabéns pelo 60º aniversário.
publicado por Joana Alarcão às 18:19 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

O Futuro de uma Ilusão

Ler Darkness at Noon de Arthur Koestler ajuda a ilustrar as semelhanças entre o discurso marxista-estalinista e alguns – só alguns – discursos que se ouvem recorrentemente a propósito da globalização. Com as devidas distâncias, como se compreende, mas a estrutura análoga é facilmente reconhecível.

No primeiro diálogo entre Ivanov (o antigo companheiro da Revolução e agora agente fiel da vontade do nº 1) e Rubashov (o protagonista e figura maior da transformação revolucionária do mundo, agora caído em desgraça) surge um problema fundamental no espírito do último, dominado ainda e sempre pelo materialismo histórico na sua versão mais apressada. Rubashov hesita na condenação dos seus carrascos. Há um raciocínio material que ele não consegue sacudir e que o impede de dizer que aqueles homens estão errados e são imorais. Todos os actos humanos estão sob a eterna jurisdição da História. É a História que diz a verdade e que pronuncia os julgamentos. Certezas e juízos subjectivos não passam de outras tantas ilusões perante o carácter irresistível e definitivo da lei do crédito histórico.
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Mas as acções do presente só serão julgadas no futuro; por isso, as decisões, por definição presentes, são tomadas na consciência de que estarão objectivamente certas ou erradas, sem grande lugar para intermediações. Contudo, não existe nenhum meio de nos assegurarmos que estamos a fazer escolhas certas, invalidada a consciência e destruídas as certezas subjectivas – destruídas pela sua própria pequenez quando comparadas com o grande drama que se vai desenrolando. Bem, na verdade existe um meio: a antecipação da História, o que implica deter a interpretação correcta da História. A dificuldade é que só a História poderá confirmar se a interpretação ortodoxa, que legitima todos os crimes e todos os horrores, é realmente a interpretação correcta. O que a História sanciona é “bom” e digno de elogio; o que a História repudia ou vai deixando cair é “mau” e objecto óbvio de eliminação. O drama de Rubashov, na fase inicial do seu calvário, é que ele "já não acredita na sua própria infalibilidade” enquanto intérprete da História. É por essa razão que vagueia cego e mudo por entre as paredes da prisão. Ele olha, mas não enxerga; ele fala, mas nada diz. Perdeu o seu farol e o seu megafone.

Ora alguns dos comentários sobre a globalização que pretendem também ser guias práticos de acção para os povos do presente certificam as suas exortações com a certeza objectiva que é conferida pela História, ou pela trajectória histórica que os gurus-profetas dizem adivinhar da globalização. É tudo novo, mudam os paradigmas, proclama-se a sucessão do inédito. As decisões erradas são implacavelmente punidas pela globalização, pelo menos nos seus estádios futuros. E as revoluções que se pedem no presente só serão compreendidas no futuro. Mas esse futuro já não coincide com o futuro deste ou daquele povo, desta ou daquela comunidade; trabalha-se hoje para garantir a absolvição histórica futura, a cargo de um juiz que não distingue povos nem comunidades, nem na realidade indivíduos. Trata-se de um julgamento de réus sem rosto. As nossas decisões colectivas são tomadas em nome de uma interpretação da História que nos diz a verdade. E ninguém quer tomar decisões contra a verdade pronunciada com tanta autoridade. Mas quem afiança a verdade da interpretação?

Felizmente, fora das fronteiras do mundo estalinista, mesmo quando já não acreditarmos na nossa própria infalibilidade, não estaremos perdidos. Há mais mundo para além da História.
publicado por Miguel Morgado às 14:12 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Tratado de Lisboa

O fumo branco em Bruxelas trouxe boas notícias para os que acreditam no aprofundamento da União europeia sem passos federalistas precipitados.
Para os portugueses - Sócrates é definitivamente um homem com sorte - trouxe para Lisboa a aprovação e assinatura de um dos tratados mais importantes da história da Europa, talvez ao nível do Tratado de Roma de 1957.
Segundo a tradição diplomática europeia, as cidades onde são aprovados os acordos dão o nome aos tratados. Tudo indica que assim será em Lisboa, entre 18 e 19 de Outubro, seguindo-se a assinatura formal em Dezembro na capital portuguesa.
A carga simbólica é forte mas substância não fica atrás. Não será uma constituição - nem poderia ser porque os líderes europeus não terão poder constituinte - mas o novo Tratado da União Europeia receberá a maioria das disposições do anterior projecto de constituição europeia, inclusive na parte institucional (Presidente do Conselho Europeu eleito para mandatos de dois anos e meio e Alto Representante da UE para a política externa e de segurança).
A redacção jurídica do texto não será uma tarefa fácil. Em vez de substituir todos os anteriores Tratados - como se propunha a constituição europeia - o novo acordo irá alterar os textos daquelas fontes de direito, aumentando a complexidade jurídica do acervo comunitário.
Confesso que fiquei preocupado com eliminação, a pedido de Sarkozy, da referência ao objectivo comum da "concorrência livre e não falseada". Espero que tal não signifique mais protecionismo nacional, o que seria um retrocesso numa das políticas comuns melhor sucedidas: a livre concorrência no Mercado Comum. Mas voltaremos a este tema mais tarde.
publicado por Paulo Marcelo às 11:46 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sábado, 23.06.07

Sexy Party

O CDS (PP ou não PP?), - o partido que se quer sexy, lembram-se? – terá enviado alguma delegação à Feira Porno... perdão, à Feira Erótica de Lisboa deste fim-de-semana? Ou terá por lá alguma banquinha?...

Não seria de admirar, com todo o demo-fracturo-erotismo que aquele tão excitável partido tem mostrado ultimamente...
E com aquelas setas no logotipo... Hum...

publicado por Carlos Botelho às 16:39 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Sexta-feira, 22.06.07

Da série "Nunca mais é Sábado"

Subitamente numa rua de Lisboa:

publicado por Paulo Marcelo às 20:36 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

O político ginjas


Ontem, ao ouvir Manuel Monteiro na televisão, num momento de sossego da histriónica campanha do PND para Lisboa, ocorreu-me uma enorme, se bem que nada metódica, dúvida: como é que este demagogo de feira chegou a ter 10% de votos dos portugueses?

publicado por Pedro Picoito às 14:05 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 21.06.07

Tu quoque, Francisco?

Não, Francisco, António Costa não é o melhor candidato para Lisboa. Não vou apedrejar-te, o que seria um pouco primitivo, nem vou rasgar as vestes, o que seria muito inestético. Costa apenas brilha porque os outros candidatos não existem, a começar por Negrão e Telmo Correia. É tudo. Concordo que Lisboa precisa de alguém que faça política e Costa faz política. Mas é a política errada.
Vejamos. Que eu tenha reparado, o programa costista resumiu-se até agora meia dúzia de vacuidades: a mui singular proposta de minorar o défice municipal com dinheiro do Governo; o Simplis, imitação do Simplex, esse programa cujos efeitos redentores sobre a burocracia pública têm a notável característica de não se fazerem notar; a redução do número de avençados da Câmara, promessa que, todos sabemos, não irá cumprir; a conversão de Lisboa na "capital do diálogo intercultural", uma boa intenção que não significa rigorosamente nada; a celebração de casamentos gay nos Paços do Concelho, uma prioridade decisiva para a vida dos lisboetas, como se sabe; e mais algumas ideias avulsas.
Chega para ti? Para mim não.
E o resto?
E a Baixa? E o Parque Mayer? E o trânsito? E a habitação? E as colectividades? E o papel do município na educação? E a articulação com a área metropolitana?
Népias.
O homem não diz nada, não aprofunda nada, não se compromete com nada. E um homem que não se compromete com nada não leva o meu voto.
Além de que é socialista, já reparaste?
publicado por Pedro Picoito às 22:56 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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