Sexta-feira, 01.06.07

Os números da população muçulmana na América

Aguardado com grande curiosidade e algum receio, o estudo de opinião pública levado a cabo pelo Pew Research Center e que procura conhecer a estrutura social e a opinião das americanos muçulmanos foi recentemente publicado. A grande maioria dos media americanos acolheram efusivamente (talvez seja o alívio) os resultados do estudo. Mas os títulos eufóricos não são inteiramente justificados. No fundo, os cabeçalhos da comunicação social americana reflectem o desejo intenso de conciliação e de manutenção da estabilidade interna. Ninguém quer ser acusado de espalhar pânico e alimentar o ódio religioso ou étnico. Contudo, quando se olha para os números com atenção percebemos que os títulos dos jornais exortam mais do que informam.
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A qualidade do estudo é indiscutível. E são especialmente úteis as comparações dos números americanos com os da Europa Ocidental. Exemplo: os muçulmanos americanos são menos pobres dos que os seus correligionários na Europa (o Reino Unido e a Espanha têm os muçulmanos nos lugares mais baixos da estrutura de rendimentos - sim, mais baixos do que em França). Quando lhes é perguntado se sentem muçulmanos em primeiro lugar, e nacionais em segundo (pergunta para medir a lealdade ao país da sua nacionalidade), só nos EUA e em França é que menos de metade responde que coloca a sua identidade religiosa à frente da nacional (no Reino Unido o resultado cifra-se em 81%).
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Mas os resultados mais duros estão a chegar: à pergunta se os "atentados bombistas suicidas podem justificar-se", 83% responderam "Raramente/Nunca". Óptimo. Todavia, ainda sobram 8% que responderam "Muitas vezes/Por vezes" e 9% que se recusaram a responder. Quanto à al-Qaeda, 58% tinham a seu respeito uma opinião desfavorável, mas 10% preferiram a opção "algo desfavorável" e 5% "favorável". E uns extraordinários 27% recusaram responder.
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Ouvimos sempre os sábios dos nossos tempos dizer que os americanos conseguiram absorver os seus imigrantes com um sucesso que faz os europeus empalidecer de inveja. Já várias vezes chamei a atenção para a simplificação excessiva dessas comparações, e que os resultados não são assim tão diferentes. É preciso tomar como factor decisivo a baixíssima proporção da população muçulmana no conjunto da população americana (não mais do que 0,6%), quando comparada com a proporção análoga em países como Reino Unido, França, Holanda.
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Na Europa o problema reside sobretudo nos filhos dos imigrantes, na juventude nascida em solo europeu, mas que mantém uma relação conflituosa com a cultura ocidental. Nos EUA também. Entre os jovens muçulmanos americanos com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos, 60% consideram-se mais muçulmanos do que americanos; e 15% não tem problemas em justificar os atentados suicidas (para além de 5% que prefere não responder). Os números europeus são ainda mais preocupantes: em França, Espanha e Reino Unido (a Alemanha é excepcional), 16% dos muçulmanos consideram um ataque suicida muitas/algumas vezes justificável. Mas quando nos concentramos na faixa etária jovem os resultados americanos aproximam-se bastante dos europeus.
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As chamadas "segundas gerações" vivem num limbo cultural que desperta nos seus membros a raiva e o ressentimento contra a civilização que, mal ou bem, acolheu os seus pais. Os números sugerem que a tempestade em formação no horizonte ainda não se dissipou.
publicado por Miguel Morgado às 12:02 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Esperança ardente


É hoje inaugurada a época balnear de 2007, que é como quem diz: "homens ao mar e fogos à mata".

Pelo sim, pelo não, o nosso ex-Ministro da Administração Interna decidiu revelar a sua secreta paixão por espaços carregados de cimento, betão e asfalto. Independentemente da legitimidade da escolha que fez, ela não deixa de revelar oportunidade e prudência, não vá o diabo tecer-lhe as noites com incendiadas insónias...

Às portas de um Verão que se anuncia excepcionalmente quente, aguardamos pelo resultado da política de combate aos incêndios e pela eficácia dos meios que lhe foram afectos.
Com esperança, como sempre.


publicado por Joana Alarcão às 11:29 | comentar | partilhar

Por que é que o direito de saída é importante?

Ontem, o Supremo Tribunal da Malásia rejeitou o pedido de Linda Joy no sentido de ver o termo «Islão» retirado da coluna que identifica a religião no seu bilhete de identidade. Nascida no seio de uma família muçulmana, Anilina Jailani foi baptizada em 1998 e conseguiu uma resposta positiva ao pedido de alteração de nome. Desde 2000, solicita a várias instâncias jurídicas a alteração da identificação como muçulmana. Tal pedido foi sempre rejeitado. No veredicto final, o Supremo Tribunal declarou que tal alteração só poderá ocorrer com a permissão dos tribunais islâmicos. Por ser cristã, Joy afirma que não se deve submeter ao juízo de um tribunal islâmico. Se continuar a professar e a praticar a religião cristã, mantendo a identificação de muçulmana, Joy pode ser acusada de apostasia e incorrer numa pena de prisão de três a seis anos num campo de reabilitação islâmico.
O artigo 11º da Constituição Federal prevê que os cidadãos detêm o direito de escolha de religião. O problema é que na Malásia existem dois sistemas jurídicos: um regulado pela Constituição Federal; outro de tipo jurídico-religioso que se aplica aos muçulmanos. Isto procura traduzir um sistema que se entende como secular e que oferece um reconhecimento especial a uma religião particular.
Por isso nunca é demais realçar a fórmula feliz do Concílio Vaticano II, na Declaração Dignitatis Humanae, sobre estes casos: “Se, em razão das circunstâncias particulares dos diferentes povos, se atribui a determinado grupo religioso um reconhecimento civil especial na ordem jurídica, é necessário que, ao mesmo tempo, se reconheça e assegure a todos os cidadãos e comunidades religiosas o direito à liberdade em matéria religiosa. [logo] não e lícito ao poder público impor aos cidadãos, por força, medo ou qualquer outro meio, que professem ou rejeitem determinada religião, ou impedir alguém de entrar numa comunidade religiosa ou dela sair.” (DH. §6)
publicado por Joana Alarcão às 10:53 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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