Quinta-feira, 26.07.07

Da série "Posta Restante"

"Since he became leader in December 2005, Mr. Cameron has been set on a progamme of detaching himself from reality. He finds the traditional beliefs, and the traditional believers, of his party utterly detestable. (...)What should concern all conservatives is that the rhetoric being used now, and used ever since Mr. Cameron chose to declare his unwinnable war on his party, makes a repositioning of himself and the Tories almost impossible."
Simon Heffer, "Cameron used to lead a party, but now he just leads a faction", in The Daily Telegraph, 25/7/2007.
publicado por Pedro Picoito às 13:26 | comentar | partilhar

Estatuto do Jornalista: o que está em causa

Anda para aí uma suposta celeuma que envolve jornalistas e empresas de media por causa do novo "Estatuto do Jornalista" (já aprovado em AR, aguardando promulgação do Presidente). Não sendo este o melhor tema para quem está ou vai de férias, pode ser interessante deixar uma perspectiva sobre o que está em causa.
Antes de mais, o "Estatuto do Jornalista" é a Lei que regulamenta a actividade dos jornalistas. Esta versão é de 99 e, como é habitual entre nós, assim que entrou em vigor logo surgiram vozes a exigir a sua revisão. Pelo medo que a matéria causa aos políticos, ministros e deputados arrastam o processo o mais que podem há anos. Até 2005.
O actual Governo propôs alterações profundas no Estatuto, e depois de muita discussão entre os interesses envolvidos, chegámos a três pontos críticos que apresentarei ao longo do dia (em 3 posts).
1. Sigilo Profissional: um dos pilares do jornalismo são as suas fontes e o direito (e obrigação) dos jornalistas as protegerem e assegurarem o seu anonimato, se for necessário. A proposta que foi aprovada propõe clarificar as excepções em que se pode quebrar o sigilo profissional: existência de informações para investigação de crimes graves contra pessoas ou segurança do Estado, caso não se consiga obter as mesmas de outra forma.
Este ponto é talvez aquele que apresente maior unanimidade entre jornalistas e o Sindicato dos Jornalistas (que são hoje em dia coisas diferentes). Ambos têm bradado aos céus, referindo os riscos de condicionar para sempre a sua actividade (sobretudo o "jornalismo de investigação").
De facto, muita gente entusiasma-se com a visão de uma qualquer autoridade a apertar o gasganete a um jornalista portador de um dado considerado relevante (desembucha estafermo!). É a tentação do caminho mais curto. É preciso, porém, vislumbrar as consequências no longo prazo: basta isto acontecer em um ou dois casos mediáticos para que no futuro as pessoas tenham receio de falar com jornalistas, sobre os mais variados assuntos. E quantos "casos" relevantes, em Portugal e no mundo, não vieram à baila a partir do trabalho de investigação baseado em fontes anónimas?
Nota: credibilidade das fontes e elaboração de notícias a partir das mesmas tem a ver com qualidade do jornalismo, o que é outra conversa.
(continua)
publicado por Francisco Van Zeller às 09:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 25.07.07

O embaraço da escolha

E ainda sobre a notícia supra, gostava de saber qual de tais "gestos de desobediência civil" não terá a simpatia de Miguel Portas.
Invasão da Zara? É uma multinacional, no problem.
Cocktails molotov para cima do Cervantes? Outra multinacional ao serviço da globalização: porrada neles.
Confusão à porta das embaixadas de Espanha e Israel? São Estados imperialistas, portanto...
Partir a sede da PIDE? Ça va sans dire.
Ai, são todas causas tão belas...
publicado por Pedro Picoito às 23:30 | comentar | partilhar

O saloio epistemológico

Esse [encerramento de "unidades de saúde"] é um exemplo de como a percepção nem sempre corresponde à realidade. Você, José Gomes Ferreira, que lê livros e estuda, sabe que há uma diferença entre a aparência e a realidade.
José Sócrates, há pouco, entrevistado na Sic por Ricardo Costa e José Gomes Ferreira.
publicado por Carlos Botelho às 22:12 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A grande bebedeira

Desde as primeiras notícias sobre as cheias em Inglaterra que estava à espera disto. Só estranhei a lentidão dos ascetas em encherem a praça pública com os berros de que o Armagedão ecológico está próximo. A espera compensou: na edição de hoje do Público a jornalista Ana Gerschenfeld assina uma pérola do irracionalismo ambientalista. Começa assim:
A pergunta surge instintivamente. Serão as cheias catastróficas na Inglaterra consequência das alterações climáticas provocadas pelo nosso consumo despreocupado de combustíveis fósseis? Estarão os gases de estufa directamente implicados no fenómeno?

Os especialistas são unânimes: é impossível imputar directamente às actividades humanas um evento extremo, mas isolado, como este. Pode tratar-se de um "soluço" desse sistema complexo que é o clima, já de si sensível a inúmeras variáveis naturais. Mas, a julgar pelas conclusões de um estudo que vai ser publicado amanhã na revista Nature, uma coisa é certa: somos os grandes culpados pela tendência generalizada para o aumento dos eventos extremos deste tipo.
Atente-se nas palavras. A pergunta, confessa, é “instintiva”. Pelo contrário, a resposta dos especialistas em climatologia é baseada em conhecimento técnico. Infelizmente é também unânime: é impossível estabelecer qualquer relação entre as cheias inglesas e as "alterações climáticas". Uma declaração unânime de impossibilidade não desarma nem desmotiva uma crente do ecologismo global (nota #1: unânime significa que ninguém com conhecimento científico específico nesta matéria defende outra teoria; nota #2: impossível significa que a probabilidade das cheias britânicas serem o resultado das ditas alterações climáticas é zero).

O “mas” é a chave do texto e denuncia a teimosia de um bêbado. Não adianta contrariá-lo educadamente: insistirá sempre. Sem um mínimo de racionalidade é incapaz de compreender e aceitar as convenções fundamentais –por exemplo a convenção que estabelece o significado de palavras como “unânime”, ou “impossível”. Uma impossibilidade unanimemente declarada não tem o menor efeito sobre a crença ecologista: elucidativamente, para a jornalista a única coisa que é “certa” é que somos “grandes culpados” e os resultados de simulações são declarados como "provas" da nossa grande culpa.

A histeria ambiental em que vivemos é uma bebedeira de irracionalismo, assente numa visão radicalmente hostil ao homem e à civilização, que toma a sociedade humana como uma construção intrinsecamente perversa e, acima de tudo, decadente. A visão de um mundo corrompido pelo homem e o desejo implícito de retrocesso até um estado prístino de pureza é uma perigosa utopia e tem raízes filosóficas que me dispenso de mencionar (não adianta procurar entre os “inimigos da liberdade”: as origens desta crença utópica são bem mais antigas).

Esta visão ideológica é partilhada por um número significativo de pessoas envolvidas no “ensino” público, fazendo dos alunos alvos e instrumentos de propaganda. As crianças saem das escolas portuguesas demonstrando uma incompetência extrema no raciocínio abstracto, na resolução de problemas e no domínio e uso da língua. Em contrapartida, debitam precocemente e com grande vigor um chorrilho de asneiras sobre o desenvolvimento “sustentável” e as “desigualdades da globalização”, embora revelem uma estranha tendência para as confundirem com pobreza. Serão as escolas públicas uma espécie de madrasahs do fundamentalismo ecológico? A pergunta surgiu-me instintivamente.

publicado por Joana Alarcão às 08:26 | comentar | ver comentários (25) | partilhar
Terça-feira, 24.07.07

Laranjas sem sumo

O que mais impressiona na candidatura de Luís F. Menezes à liderança do PSD é a falta de ideia políticas. Assisti ontem à sua declaração, tentando encontrar uma divergência de fundo com o actual líder, uma critica substancial à estratégia política do partido. Em vão. Menezes diz apenas que é “candidato para dar uma nova esperança aos militantes” e que “quer ganhar o partido para ganhar, depois, o país dos desempregados e dos funcionários públicos perseguidos". Não diz nada. Ou talvez diga tudo. O blog pessoal de Menezes é pobre, demasiado pobre. Apenas por lá encontrei um texto Social, não socialismo que indicia uma estratégia de oposição à esquerda do governo PS.

Mas o problema não está só em Menezes, é generalizado. O último Conselho Nacional do PSD em vez de analisar politicamente a hecatombe eleitoral em Lisboa, entreteve-se a discutir questões secundárias, como alterações aos estatutos ou os prazos para pagar quotas. Sempre as questões formais quando faltam as ideias. Táctica, muita táctica, pouca substância. Mais parecia uma RGA ou uma reunião de "jotas" a discutir lugares.
Para conquistar o poder é preciso primeiro ganhar o argumento, o que demora tempo. Mas estas laranjas dão pouco sumo. E falta pouco para 2009.
publicado por Paulo Marcelo às 19:11 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Menina e Troça

Entro numa loja e peço: "Tem sapatilhas para ténis?".
Olho para a menina e vejo que não percebeu. "Digo, uns ténis .... para ténis!", hesito agora a rir.
De nada me vale. Já acha que me estou "a fazer ao bife".
Ao fim de tantos anos, continua a ser difícil viver em Lisboa.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 16:31 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Segunda-feira, 23.07.07

20 de Julho democrático?


A propósito deste post, agora que Hollywood vai (rosadamente) falar, convém que não embandeiremos em arco a respeito das virtudes democráticas da oposição militar ao Nacional-Socialismo (e não é esse o caso do camarada cachimbador Morgado). Não se tratava de puros combatentes da liberdade. Muitas destas pessoas não eram propriamente democratas de cepa. Certamente que, hoje, não incluiríamos muitos deles entre os nossos amigos. Havia nobres monárquicos de vários matizes, bastantes genuínos reaccionários que, como tais (sim, como tais), execravam aquela gente do NSDAP. Foram, sim, pessoas duma coragem excepcional que merecem todo o nosso respeito – opuseram-se a um regime inacreditavelmente brutal.
E se o atentado e o golpe de estado de 20 de Julho tivessem sido bem sucedidos, ter-se-iam talvez poupado milhões de vidas.

Grande parte do oficialato das Forças Armadas nunca nutriu grande entusiasmo pelo Partido e pelo regime: muitos oficiais respondiam sempre à saudação “nazi” (na verdade, romana), ostensivamente, com um simples sinal de continência.
Mas muitas destas pessoas só acordaram para o horror daquilo quando a maré da guerra começou a virar. Uns apercebiam-se ou receavam que aquele regime apenas conduziria à destruição da Alemanha (de resto, tinham já sido esses os lamentos de Ludendorff no fim da vida). Outros sentiam autêntica repugnância pelo desvario assassino daquele Poder, dentro e fora do país, antes e durante a guerra. Mas não devemos ver em todos esses opositores democratas que recusavam aspectos do regime para nós insuportáveis. Muitos deles ficavam horrorizados com os crimes cometidos contra Franceses, Holandeses, Nórdicos ou Bálticos, mas já olhavam, no mínimo, com condescendência e “compreensão” para as barbaridades feitas a Polacos ou Russos. Para não falar de quando eram feitas a Comunistas. Às vezes esquecemo-nos que o Nacional-Socialismo não caíu repentinamente do céu e não se desenvolveu num sítio qualquer com gente qualquer. Aquelas práticas não deixaram de encontrar terreno propício em muitos que não eram propriamente nazis.

Muitos não deixavam de sentir uma certa admiração pelo Führer, porque ele, no fim de contas, era a melhor garantia de que a Alemanha (dos Junker, dos industriais e da classe média) não iria soçobrar numa maré bolchevique. Lembremo-nos que a Revolução Russa e a atroz guerra civil entre Brancos e Vermelhos tinha acontecido não há muitos anos. E que a Rússia vermelha estava ali, imensa, já a seguir à Polónia. E que, em 1919, se tinha tentado uma Revolução bolchevista na própria Alemanha. E que, uma coisa que nunca se diz, também os Comunistas, tal como os Castanhos, tinham uma força de choque, a Rote Front (Frente Vermelha), que não era de todo mais meiga do que a SA...

Por outro lado, muitos dos militares que a partir de 42 conspiravam contra o regime, tinham antes sentido o orgulho prussiano satisfeito pelas sucessivas vitórias alemãs: desforras de 1918. E orgulhavam-se também com a civilizadora expansão da Kultur alemã para leste, à maneira predilecta prussiana: com a bota e a coronha da Mauser. Mesmo que, na mochila, se levassem hinos de Hölderlin e se suspirasse pelas tílias nos intervalos entre o massacre de uma aldeia russa e o abate em massa de Judeus.

No entanto, o preconceito da nobreza militar manteve-se sempre. Não admira. Quem eram os “quadros”, o núcleo duro, os “velhos camaradas” do Partido Nacional-Socialista? Desenraízados, rufias, brigões, homossexuais, tipos sem eira nem beira, filhos naturais, vadios. (Não foi o próprio Hitler um exaltado vadio das ruas de Viena?) Eram, numa palavra, marginais. E havia também alguns “idealistas”, é verdade - talvez por isso mesmo, mais perigosos do que os outros. Nunca me esqueci duma sequência do Triunfo da Vontade em que se sucedem grandes planos dos dirigentes do Partido: fica-se espantado com os facies de gangster daquela gente (excepção do Rosenberg, o “filósofo” da ideologia). Era, realmente, um partido lumpen.

Curiosamente, havia também um preconceito “social” dentro do próprio “movimento”: os belos “rapazes” da SS mostravam quase desde o começo um perfilado desprezo pelos “barrigudos” da SA. Levaram a cabo com eficência (e alívio) a limpeza (aspas são escusadas) da Noite das Facas Longas. O que, precisamente, serviu para que Hitler se livrasse de elementos “radicais” incómodos e, assim, se aproximasse do exército. Mas o próprio Führer desprezava os “cavalheiros” (como ele dizia com desdém) e os oficiais de carreira. A partir do 20 de Julho, o verniz estalou completamente.
publicado por Carlos Botelho às 19:52 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

O dia em que tudo quase aconteceu

Em Valkyrie, Tom Cruise é Claus Philipp Maria Schenk, Conde von Stauffenberg, o homem da conspiração de 20 de Julho de 1944 que tinha como objectivo matar Hitler. O dia em que tudo quase aconteceu.
publicado por Miguel Morgado às 13:12 | comentar | ver comentários (9) | partilhar

A Vertigem do Crude


publicado por Miguel Morgado às 01:16 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Domingo, 22.07.07

Os Liberais e as Políticas de Incentivo à Natalidade

Já percebi que, em geral, os liberais não gostam das chamadas "políticas de incentivo à natalidade". Uns torcem o nariz porque as ditas políticas traduzem-se em desperdício do dinheiro dos contribuintes; outros porque as mesmas representam uma desistência da neutralidade do Estado num domínio em que é ilegítima a preferência pública (por mais indirecta que possa ser) por certas escolhas individuais (?) em detrimento de outras.
Pela minha parte, resigno-me a estas opiniões. Os liberais lá devem saber do que falam. Afinal, a sua cartilha por vezes soa a história da carochinha.
publicado por Miguel Morgado às 21:18 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sábado, 21.07.07

A Crise (dos comentadores) da Direita

"A direita que convém à esquerda chama-se Marques Mendes e Paulo Portas."
"Certos elementos encavacam o PSD. Incluindo Manuela Ferreira Leite, um D. Sebastião de saias que tolhe a criatividade do PPD profundo."
.
publicado por Miguel Morgado às 01:07 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Sexta-feira, 20.07.07

4.º acto – Sem soluções, mas apontando um caminho

Durante os últimos dois dias, tenho recebido algumas mensagens: soluções?

O Partido não tem futuro sob a liderança de Paulo Portas, todos o sabemos. Mas a sua saída não tem que ser já. Pode ser no espaço de seis meses ou um ano. Nós não temos a responsabilidade e, portanto, a pressa do maior Partido da Oposição.

A saída de quem viveu e deu vida no Partido durante tantos anos, tem de ser difícil e não pode acontecer sem crise.
Faça-se, porém, deste momento de crise uma oportunidade. Não se apresse a carruagem.

O facto de não termos pressa, de podermos pensar a um ano permite-nos olhar para este tempo, como um tempo de convocação. Chamar todos, o maior número possível.
Penso, por exemplo, numa espécie de Convenção alargada, não encomendada, nem com a rigidez habitual dos Congressos. Que seja preparada com tempo e que chame muitos: os que já estiveram, os que estão e aqueles que estão à porta. Sem medos. Sem saber aonde nos levará e sem resultados antecipados.

Este seria um desígnio que falta cumprir a Paulo Portas e que creio que deseja sinceramente – o da tentativa de regeneração efectiva do Partido, da Direita e do País. Poderia tornar-se num legado importante se fosse feito de modo empenhado, desinteressado e abrangente. Onde seria convocador – e eventualmente árbitro - e não actor e muitos menos único. Adriano Moreira, Ribeiro e Castro e outros deveriam ter um papel importante também.

Sei que não é claro. Mas é um caminho. E se não for agora não será. Por isso, o digo: Esta é a Hora!
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 20:49 | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Verloc 2.0

Adolf Verloc é o famoso personagem da novela “O Agente Secreto” de Joseph Conrad, publicada em 1907. Pornógrafo e agent provocateur ao serviço dos russos, Verloc recebe a incumbência de fazer explodir o Observatório de Greenwich. A novela baseia-se numa tentativa real ocorrida em 1894, que resultou na morte acidental do autor, Martial Bourdin, e do seu cunhado anarquista. A intenção de explodir um relógio não é absurda: os relógios são um símbolo histórico de ordem e de poder. Durante as guerras religiosas do séc. XVI, Carlos V ordenava a retirada da torre do relógio às cidades rebeldes, como forma de punição. Em França, as disputas pelo controlo do relógio opunham protestantes e católicos. Desde 1884 que Greenwich era o ponto de referência para a medição do tempo: dinamitar o relógio visava provocar o caos. Três décadas mais tarde, na adaptação cinematográfica da novela de Conrad, Hitchcock revela um misto de presciência e sentido utilitarista: a bomba explode num autocarro londrino.

Um século depois, a sabotagem bombista regressou à ordem do dia. É uma lógica comportamental facilmente reproduzível por jihadistas, guerrilheiros revolucionários, traficantes de droga, ou facções de regimes neo-tribais. Os novos alvos de sabotagem já não são meros símbolos de poder: são infra-estruturas económicas vitais, designadamente para o transporte de energia. É Verloc 2.0, em versão real e perigosa.

Verloc 2.0 é um sabotador eficiente na destruição que causa: no México, um grupo de guerrilheiros de esquerda efectuou uma série de ataques no dia 10 de Julho a um pipeline de gás natural da Pemex, o monopólio estatal de petróleo e gás, que assegura 40% das receitas fiscais mexicanas. O abastecimento de gás esteve cortado por quatro dias, obrigando grandes empresas a suspenderem a produção: os prejuízos económicos da sabotagem foram estimados em 6,4 milhões de dólares.

Mao Tsé Tung comparava os guerrilheiros a peixes que nadavam no mar da população; sem o mar morreriam. Verloc 2.0, pelo contrário, é indiferente ao apoio da população: no Iraque a sabotagem de infra-estruturas de transporte de energia é parte da guerra civil, causando cortes nos abastecimentos de electricidade e de combustível e tornando a vida dos iraquianos ainda mais difícil. Os cortes são frequentes e prolongados: algumas zonas de Bagdad chegam a estar sem electricidade por períodos de vinte dias e o abastecimento médio de energia na capital iraquiana caiu para 5,6 horas/dia no mês de Maio.

No delta do rio Níger os trabalhadores das empresas petrolíferas que aí operam são conhecidos como “ouro branco”, pelas receitas dos resgates pagos. Só neste ano já foram raptados mais de 150 trabalhadores. Em consequência dos ataques e dos raptos, a produção petrolífera da Nigéria –o maior produtor petrolífero africano e o 8º maior mundial– sofreu uma quebra de 20%, cerca de 500000 barris de petróleo a menos, por dia. Verloc 2.0 causa instabilidade geopolítica ao nível global: o prémio de risco incorporado no preço do barril de petróleo situar-se-á entre os 10 e os 20 dólares e é um factor importante na persistência de preços acima dos 70 dólares.

Verloc 2.0 não afecta apenas as infra-estruturas já existentes: ameaça mesmo as que ainda não existem. Um exemplo é o pipeline IPI (Irão-Paquistão-Índia) que deveria estar operacional em 2011 e que tornaria a importação de gás natural iraniano quatro vezes mais barata para a Índia do que qualquer alternativa de transporte. Apesar das divergências negociais entre iranianos e indianos sobre o “preço político” do gás e da oposição norte-americana ao projecto, a principal razão para o atraso na construção do pipeline é o elevado risco de sabotagem: quase 30% da extensão total do pipeline atravessará o sul do Paquistão, através do Baloquistão, uma província com um longo historial de guerrilha político-religiosa. A tomada da mesquita de Lal Masjid pelo exército de Musharraf foi necessária, mas a reacção da aliança entre jihadistas e líderes tribais não se limitará às províncias do noroeste e pode lançar o Paquistão num caos violento, tornando proibitivo o elevado risco geopolítico.

Em “O Agente Secreto” Conrad não pretendeu caricaturar o anarquismo, mas criticar a complacência do progressismo liberal para com o terrorismo. Conrad sabia que para derrotar a violência de grupos organizados era necessário um esforço de persuasão intelectual para lhes retirar a legitimidade política. Eis algo que é necessário reaprender para lidar de forma efectiva com este problema: Verloc 2.0 é uma ideia e não se dispara contra ideias.

(Versão integral do artigo publicado na edição de ontem do Diário Económico)
publicado por Joana Alarcão às 10:43 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

A propósito de nada: Democracia e Tecnologia

Na nossa era democrática talvez valha a pena recordar que o mais famoso crítico da Idade da técnica, Martin Heidegger, e um dos seus mais vigorosos profetas, Francis Bacon, concordam (por razões muito diferentes, é certo) que a democracia não se lhe adequa.
Ou estes dois homens excepcionais estavam redondamente enganados, ou então isto ainda vai acabar mal.
publicado por Miguel Morgado às 01:00 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 19.07.07

O aborto dos partidos


Pergunta o João Noronha, nos comentários a este post do camarada Anacoreta: "e se um dos partidos do arco parlamentar fizesse o favor de representar os 1,5 milhões e meio de eleitores que votaram Não no último referendo?"
Eis uma boa pergunta, e eu próprio a tenho feito aos meus botões (que são muitos porque nós, os conservadores, andamos sempre com fatos de três peças, excepto na caça à raposa).
A resposta, porém, só pode ser um rotundo "é melhor não".
Seria um erro que os votos do Não se concentrassem num único partido. E por duas razões.
Em primeiro lugar, porque a unidade de voto na questão do aborto poderia não corresponder à unidade de voto em questões menos mobilizadoras (não apenas, mas também, as fracturantes). Nenhum partido pode segurar o seu eleitorado à base de um single issue, por decisivo que este seja, nem isso é democraticamente saudável. Um dos grandes males do PP de Monteiro e Portas foi justamente deixar de falar para para todos os eleitores, abandonando qualquer visão nacional que não fosse retórica e qualquer projecto político que não desse votos, em troca de uma colecção de causas avulsas - a "lavoura", a "segurança", a "imigração", os "reformados", os "eurocépticos", os "espoliados do Ultramar".
Os resultados estão à vista.
Para que os votantes do Não sejam representados, basta que as direcções do PSD e do CDS estejam atentas ao seu eleitorado natural - a chamada direita sociológica - e não se metam em ziguezagues ideológicos com o dúbio fim de ganhar o centrão, que está de pedra e cal com o PS.
Em segundo lugar, a ligação a um único partido enfraqueceria o Não porque uma das virtudes deste tipo de voto é a sua (relativa) transversalidade partidária e a sua (absoluta) independência dos aparelhos. Se pensarmos que o tal milhão e meio de votos do Não foi alcançado graças ao esforço da sociedade civil, entendendo por esta palavra os milhares de activistas amadores que fizeram campanha fora dos partidos e até contra os partidos de esquerda (um deles o do Governo), veremos que a partidarização, que não é o mesmo que politização ou profissionalização, talvez não traga grandes vantagens.
No entanto, seria também um erro que os partidos ignorassem ou não respondessem a estes votos. As questões fracturantes vieram para ficar. É mesmo provável que, nos tempos que se avizinham, com a Europa e a economia a obrigarem os governos a uma ideologia cada vez mais soft e simbólica, sejam as batalhas culturais a marcar a agenda. (Aliás, se repararem bem, não se tem discutido outra coisa na blogosfera lusa desde há uns meses valentes...)
E se o Não perdeu o último referendo, nada nos garante - nem garante aos partidos - que uma derrota venha a repetir-se quando alguém voltar à carga com uma nova e ainda mais ampla proposta de liberalização do aborto. É uma questão de tempo. Ou de oportunidade. Basta estar atento, repito. No exacto dia em que escrevo estas linhas, que a posteridade há-de recordar como proféticas, a grande dúvida sobre a lei que entrou há uma semana em vigor é saber se o aborto praticado dentro do prazo legal mas fora de estabelecimento autorizado deve ou não ser "crime". Wake up, little Susie...
Boa pergunta, a do João. Muito boa mesmo.
A solução da famosa crise da direita também passa pela resposta que lhe dermos.
publicado por Pedro Picoito às 17:04 | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Da série "Cachimbos de Lá"

publicado por Paulo Marcelo às 17:03 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Da série "Posta restante"

Muito boa, a crónica de Helena Matos hoje, no Público.
Para quem gosta de ler as letras pequenas dos contratos. As nunca despeciendas letras pequenas.
publicado por Pedro Picoito às 16:49 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

3.º acto – Do Pântano e do Depois

Compreendo aqueles que dizem que Paulo Portas “voltou, agora tem de ficar”.
Mas, no presente caso, a sua permanência no Partido serviria efectivamente e apenas para a sua tortura e para o desaparecimento acentuado do CDS/PP. Cada vez mais o País se distanciará dele. Definhará e acabará isolado, acabando por ver os que no passado o adularam e hoje o servem, insurgirem-se contra ele. Não seria a primeira vez.

Em face do inevitável afastamento de Paulo Portas (que só depende dele próprio, uma vez que os seus “amigos” continuam a não ser capazes de ver a realidade), o CDS/PP tem duas evidentes alternativas: ou desaparece ou continua.

Se continuar como está, com os mesmos da derrocada, o CDS vai provavelmente desaparecer. Não será o fim do mundo. Alguns, como eu, terão pena. Pouco mais. O Partido como está hoje não faz falta a muita gente. E com as alterações para breve do sistema político, o veredicto já estará escrito.

Por isso, se quiser continuar, o Partido tem que ser qualquer coisa de diferente. Creio que um Partido diferente com a raiz do CDS faz falta a Portugal. Há espaço vazio, à espera de ser ocupado.

É este o apelo que retiro dos “sinais” que nos chegam (mobilização cívica diversa em matérias culturais, económicas, e sociais, abstenção e desgaste dos velhos protagonistas dos Partidos, cansaço do modelo social e do papel do Estado, ventos que nos chegam da Europa, etc, etc).. Todos vemos afirmada a necessidade de caminhar com mais confiança numa sociedade mais livre, menos protegida, mais destemida, mas também mais enraizada na sua cultura, na sua memória, no seu património.
O CDS identifica-se e está particularmente vocacionado para responder a estes apelos. Foi para isso que surgiu e pessoas como Adelino Amaro da Costa chamariam a “isto” um figo. Um desafio estimulante.
(Continua, mas não se preocupem. Não me vou candidatar à presidência do Partido)
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 12:51 | comentar | ver comentários (11) | partilhar
Quarta-feira, 18.07.07

2.º acto: Até à evidência

Em face do resultado de Domingo, muitos perguntam: o que falhou? O que errou na estratégia? As respostas são evidentes para o cidadão comum e apenas difíceis de aceitar para quem se empenhou numa opção errada.

A liderança de Paulo Portas (PP) esgotou o seu tempo.

Uns defendem-no, outros atacam-no, mas já só quem é do Partido é que nele se detém. As restantes pessoas olham para o CDS de PP com indiferença ou, na melhor das hipóteses, com fastio. Poderá ser justo ou injusto, merecido ou imerecido. É uma conversa que, neste momento, não interessa.

O "Pórtismo" cai também porque não se emancipou. Demonstrou que vive de PP como um espelho vive do que tem diante de si. Telmo Correia, Nobre Guedes, Pires de Lima, António Carlos Monteiro e Teresa Caeiro estão entre os principais responsáveis pelo regresso de PP. Todos personificavam a sua aposta também num Partido "aberto" e disponível para causas que não são tradicionalmente as suas e que, nalguns casos pontuais, agridem o seu eleitorado tradicional.
Todos foram a votos. Todos foram derrotados.
Neste sentido, Lisboa foi um excelente ensaio. Se o contexto urbano da capital, que era a grande aposta do experimentalismo que se ensaiava, chumbou o projecto, o que pensará o resto do País?
O que os eleitores descontentes do PSD disseram de uma forma muito clara foi que preferem não votar, votar em branco ou num Independente Carmona do que votar neste CDS-PP. Muitos eleitores do CDS disseram o mesmo.
O ciclo acabou. De vez.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 23:29 | comentar | ver comentários (21) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

pesquisa

 

posts recentes

links

Posts mais comentados

últ. comentários

  • ou podre
  • http://fernandovicenteblog.blogspot.pt/2008/07/si-...
  • O pagamento do IVA só no recibo leva a uma menor a...
  • O ranking tal como existe é um dado absoluto. Um r...
  • Só agora dei com este post, fora do tempo.O MEC af...
  • Do not RIP
  • pois
  • A ASAE não tem excessos que devem ser travados. O ...
  • Concordo. Carlos Botelho foi um exemplo de dignida...
  • ou morriam um milhão deles

tags

arquivos

2014:

 J F M A M J J A S O N D

2013:

 J F M A M J J A S O N D

2012:

 J F M A M J J A S O N D

2011:

 J F M A M J J A S O N D

2010:

 J F M A M J J A S O N D

2009:

 J F M A M J J A S O N D

2008:

 J F M A M J J A S O N D

2007:

 J F M A M J J A S O N D

2006:

 J F M A M J J A S O N D

subscrever feeds