Domingo, 02.09.07

Postais de Lisboa (2)

Sigo pela Rua da Boavista. A pobreza sente-se. Casas abandonadas. Negócios que faliram. Um sem abrigo debaixo das arcadas, deitado no catre. Às 6 da tarde. A rua assemelha-se a este mendigo à deriva, mas com títulos de nobreza que vai declinando a quem passa: Travessa do Cais do Tojo, Rua das Gaivotas, Boqueirão dos Ferreiros. Alguns turistas fora de jogo. (Vêm certamente do Terreiro do Paço, mas para onde é que vão?)
De repente, a rua alarga-se. Começa a de São Paulo. Por cima da Pastelaria-Snack Tijúlia, surge uma janela trabalhada. Arte Nova? Neoclássica? Mero pastiche? Não sei, mas o efeito é supreendente. Mais à frente, o elevador da Bica - ou Ascensor da Bica, como se anuncia muito sério. Um nicho de Santo António. O Roti Botti 100% Restaurante Hallal, seja lá o que isso for. As Tintas Marilina, com as pernas do m a azul, amarelo e vermelho. Bêbados e prostitutas no Largo de São Paulo. Três bombeiros gozam com um taxista, que buzina à lentidão do trânsito. "És mesmo fogareiro, pá!" Rua das Flores, a da Tragédia do Eça, com duas lápides: uma oficial, lápide branca com letras prestas, outra de azulejo e debrum florido, que alguém fez ou deixou estar.
Uma Lisboa feia e bela, à ilharga do Chiado.
publicado por Pedro Picoito às 09:20 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Bolonha

Dou aqui um exemplo, mas cada leitor não terá decerto dificuldade em se lembrar de muitos outros. Robert E. Lucas, Prémio Nobel da Economia em 1995, e o pai da chamada Revolução das "Expectativas Racionais", tem uma licenciatura (major) em História. Foi já como aluno de doutoramento que começou a estudar Economia.

Em Portugal, esta história seria impossível. Entre nós transitar das ciências humanas para estudos que implicam conhecimentos matemáticos e estatísticos, pelo menos até há muito pouco tempo, simplesmente não acontecia, até porque o sistema universitário não facilitava um percurso académico desta natureza. O exemplo banal de Lucas, a que se acrescentam milhares de outros nos EUA, devia levar alguns dos resistentes nacionais à flexibilidade introduzida (à força) pelo processo de Bolonha a pensar duas vezes antes de falar da especificidade da suas áreas científicas e das exigências dos seus cursos.
.
Bolonha abriu o caminho para a flexibilidade académica que se deseja. É mais um exemplo de reformas benéficas que foram impostas de fora. O patriotismo lusitano não pode rejubilar, pois constata que os seus conterrâneos, quando entregues à sua própria invenção, governam-se mal.
publicado por Miguel Morgado às 01:03 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Sábado, 01.09.07

Já agora

Talvez não fosse má ideia saber quem paga a vinda das FARC à Festa do Avante.
Não vá dar-se o caso de sermos nós, com os nossos impostos.
Como aqueles pacifistas de Silves, lembram-se?
publicado por Pedro Picoito às 11:56 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Da série "Mas porque é que isto não me surpreende?"

"Dois dos suspeitos detidos pelas autoridades russas na investigação ao homicídio da jornalista Anna Politkovskaia foram libertados por falta de provas: o segurança privado Alexei Berkin e o antigo polícia Oleg Alimov. (...) Um terceiro suspeito, Sergei Khadjikurbanov, antigo malor do Departamento de Combate ao Crime Organizado, foi também ilibado nas investigações por ter um álibi de betão: não podia ter participado no planeamento e execução do homicídio da jornalista, a 7 de Outubro de 2006, uma vez que esteve preso entre 2004 e Dezembro de 2006" .
Público, 1/09/07
publicado por Pedro Picoito às 11:37 | comentar | partilhar

O milagre da multiplicação dos museus

Hoje, dia em que deixou de ser directora do MNAA, Dalila Rodrigues escreve no Público uma-resposta-que-não-se-quer-resposta às críticas que lhe têm feito. O registo é um pouco emocional, mas não há nada a acrescentar. Desejo-lhe as maiores felicidades e que o Ministério da Cultura não faça mais asneiras...
Entretanto, e com o país ainda a banhos, algo de muito curioso se está a passar no Instituto dos Museus. Depois do folhetim Dalila, o Público de 20 de Agosto noticiava que vai ser criado, na estação do Rossio, "um museu muito vocacionado para o multiculturalismo, no final deste ano, a tempo da comemoração, em 2008, do Ano Europeu do Diálogo Intercultural".
Eis a política cultural de Sócrates em todo o seu esplendor: a propósito de uma qualquer efeméride mediática e europeia, cria-se um museu quase literalmente de fachada - em 900 metros quadrados da estação do Rosssio.
Esperei posteriores desenvolvimentos, mas em vão. Por mais voltas que dê, não imagino como vai sobreviver um "museu do multiculturalismo". De onde virão as peças, os funcionários, o público e, sobretudo, o dinheiro? Parece que são coisas que os nossos museus têm à farta - como revelou ao mundo Luís Raposo. Mas, há tempos, o MC anunciou que iria pôr no lugar do Museu de Arte Popular, a última relíquia da Exposição do Mundo Português de 1940, outro museu bem intencionado: o da lusofonia. Este crime de lesa-história, na forma tentada, motivou o protesto de académicos como João Leal ou a própria Dalila Rodrigues. Fosse pela polémica, fosse pela bendita falta de iniciativa da actual equipa da Ajuda, nunca mais se ouviu falar no assunto. Ou no badaladíssimo protocolo com o Hermitage, que traria a Lisboa uma extensão do melhor dos museus russos.
Talvez fosse agora a altura de iluminar os indígenas. Os dois (ou três) museus são para fazer? O do multiculturalismo substitui o da lusofonia? Nem uma coisa nem outra? E o Hermitage?
Eu sei que o multiculturalismo é lá uma fé dos socialistas, mas esta multiplicação dos museus não será milagre a mais?
publicado por Pedro Picoito às 11:26 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Atlântico nas bancas

Finalmente consegui deitar a unha ao último número da Atlântico.
Para já, li e recomendo a crónica do Paulo Tunhas e o artigo do Carlos Carmo Carapinha sobre o que (não) é o conservadorismo. Mas há mais, muito mais.
publicado por Pedro Picoito às 10:26 | comentar | partilhar

Liberalismo e valores (2)

O André Amaral teve a paciência de responder a este post. Continuemos o debate, tocando lateralmente o seu post mais recente sobre o conservadorismo.
Vamos partir daquilo em que estamos de acordo, uma vez que o André insiste em confundir conservadorismo e moralismo: o Estado não deve impor uma moral pública. Ambos defendemos uma sociedade liberal, ou seja, uma sociedade que consagra a liberdade de escolha. Perante um conflito de escolhas igualmente livres, o André respondeu com o direito de propriedade. Cada indivíduo é soberano no que lhe pertence - no caso, o direito de fumar.
Identifica, pois, liberdade e propriedade, um princípio do liberalismo clássico que tem a minha simpatia (como agora se diz), mas que origina um problema não menos clássico. Há conflitos de direitos que não se regulam pela salvaguarda da propriedade porque se trata de direitos fundamentais dos quais ninguém pode dispor. Por exemplo, o direito à vida que está em causa no aborto. Nenhum homem é dono da vida de outro. Até os mais ardentes pro-choice o reconhecem porque acabam sempre a discutir, não o direito ao aborto, mas o início da vida.
Ora a lei nunca é neutra. É sempre a tradução de uma moral, pressupõe sempre a existência de um Bem e de um Mal, mesmo que seja um bem a proteger e um mal a evitar (com minúscula). Para resolver este tipo de conflitos, a lei apela a um consenso moral mínimo. Nas tiranias, esse consenso moral mínimo é a vontade do tirano. Nas democracias, é o voto da maioria. Mas o voto da maioria, como sabemos desde Sócrates, pode pôr em causa os direitos das minorias e a liberdade individual, um risco de tirania democrática que Burke e Tocqueville denunciaram.
Burke e Tocqueville viram também que a melhor defesa contra a tirania da maioria (ou a "vontade geral" de Rousseau) é a tradição, a resistência das comunidades intermédias aos atropelos do Estado contra as liberdades. O conservadorismo de ambos desconfia do Estado, mas não faz do indivíduo a fonte da lei. Todos nos lembramos do desprezo de Burke pela noção abstracta de direitos humanos e de Tocqueville pelo materialismo individualista das democracias modernas.
Desprezo que não nasce de qualquer veneração romântica pela comunidade natural e pela moral colectiva, mais veneradas curiosamente (ou talvez não) pelos progressistas e revolucionários do seu tempo. Nasce do seu sentido de justiça: uma coisa respeitada por muitas pessoas deve ser respeitada pela lei porque a lei está ao serviço das pessoas e não o contrário. É aquilo a que Charles Taylor chama "política de reconhecimento", base do seu multiculturalismo liberal. E talvez base de um individualismo que não se esgota em si mesmo.
publicado por Pedro Picoito às 00:26 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Da série "O Som e a Fúria"

"Wavering between the profit and the loss
In this brief transit where the dream cross
The dreamcrossed twilight between birth and dying"
T.S. Eliot, Ash-Wednesday, VI
publicado por Pedro Picoito às 00:06 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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