Sexta-feira, 02.11.07

Lógica

Contaram-me uma vez que Hans-Georg Gadamer, nas suas lições em Marburgo Problemas Fundamentais da Lógica (Semestre de Verão de 33, isto é, com os Nacional-Socialistas acabados de chegar ao poder, note-se), costumava jogar com os juízos ‘Todos os burros são castanhos’ e ‘Todos os castanhos são burros’.
Inacreditavelmente, agora, podemos ainda, com propriedade, repetir os juízos de Gadamer: ‘todos os burros são castanhos’, ‘todos os castanhos são burros’.
publicado por Carlos Botelho às 22:24 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

The day after


Nunca visitei uma campa ou um jazigo e nunca elegi um dia ou um qualquer momento específico para recordar mortos, embora recorde vários com frequência. Julgo, aliás, que não há circunstância mais eficaz que uma morte para nos fazer pensar a vida...

Pensar a vida é um acto de inteligência e uma obrigação moral. O ritmo próprio do nosso tempo, combinando obrigações profissionais, paixões familiares, programas sociais e outros inadiáveis afazeres, espezinha com facilidade aquilo a que alguém já apelidou de "necessidade de deserto": afastamento, abandono, solidão e paragem. Afastamento do nosso quotidiano, abandono de "nós" e da nossa imagem, distância dos olhares dos outros e interrupção de tudo quanto faz a soma dos nossos ritmos.

Pensar a vida há-de ser fazer escolhas. E procurarmos ser, perante o que existe entre nós e o mundo, dominadores e não dominados. Trata-se de coisa que vai sendo rara, no frenesim a que nos submetemos e perante os valores e aquilo que merece reconhecimento nos nossos dias.

Entre os mortos que recordo com frequência não há um só que tenha sido publicamente célebre. Deixaram saudade, muita, o que os tornou célebres, sim, mas para os que tiveram a felicidade de lidar com eles.

Entre todos, alguns denominadores comuns: uma vida seguramente pensada, o reconhecimento preciso do essencial e uma espantosa coerência. A coerência própria de quem, não tendo visibilidade pública, jamais perderia um segundo que fosse com a problemática da mulher de César. Nunca precisaram de parecer coisa alguma. Foram, simplesmente, na simplicidade própria de quem adquire segurança suficiente para jamais se levar absolutamente a sério. Segurança que terá passado pela capacidade permanente para dar uma segunda demão a tudo quanto fosse preciso, se preciso fosse, para manterem intocável o modo como se respeitavam a si próprios e aos outros.

Acredito que crescer é um processo de distanciamento (e de aceitação, de reconhecimento) daquilo que é meramente efémero. Não concebo crescimento sem abertura para um processo voluntário, racional e permanente de aceitação da relatividade daquilo que somos. Sob pena de entupirmos, com as nossas "certezas", o nosso próprio processo de crescimento.

Os mortos que recordo com frequência nunca partiram. O seu exemplo, mais que saudade, deu razão à esperança. Aqueles que recordo com frequência deram lugar à esperança graças ao modo como, crescendo, foram um exemplo de paz. De paz no modo como encararam os acontecimentos, as vicissitudes da vida, como trataram os outros, como se relacionaram com as coisas e como, na adesão a essa paz, souberam caminhar em paz consigo próprios.

Aquilo de que escrevo não é coisa própria do dia 2 de Novembro. É coisa de todos os dias. É coisa própria do legado daqueles cuja vida foi muito mais do que impostos em dia e soma de tempo que passa. Foram vidas que passaram por mim e por outros e que ficaram. Que ficaram no conforto oportuno dos seus gestos, das suas palavras e da sua companhia, que ficaram no modo como procuro levantar-me todos os dias para a vida e na vontade de saber transmitir aos meus filhos o modo como vale a pena vivê-la.

Os mortos que recordo com frequência foram homens e mulheres que, morrendo, não mais deixaram que um modo diferente de ficarem. Talvez se torne sensível, por estes lados, o momento inicial da nossa própria eternidade...
publicado por Joana Alarcão às 00:32 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 01.11.07

Outros saberes

Já se desconfiava, mas agora é certo: a Ministra da Educação é daquelas pessoas para quem os saberes são todos equivalentes. Não parece haver lugar para diferenciações qualitativas entre os vários géneros (pois, há géneros) de saberes – essas estranhas aquisições de conteúdos de que somos naturalmente capazes.

Judite de Sousa, na entrevista desta noite na RTP, invocou o escândalo de alguns “colegas seus, também professores unversitários” perante o analfabetismo (com aspas? sem aspas?) dos estudantes chegados ao Ensino Superior. Não pôs a coisa da maneira mais adequada. Assim, facilitou a resposta da entrevistada que pôde então aparecer como uma pessoa sensata que modera esses ímpios exageros. Lá desfiou a estremosa litania do desgosto perante o velho discurso maldizente dos velhos sobre os jovens, que estes não são analfabetos não senhora, que isso é coisa de Velhos do Restelo, disse ela com convicção de boca torcida, brandindo a referência erudita(!) que dá sempre jeito, que os jovens merecem o nosso respeito e patati-patatá...
Judite de Sousa deveria antes ter-se referido aos sintomas de iliteracia (senão aliteracia...), num sentido culturalmente lato, que se manifesta, alarve, nos desgraçados que vão desaguar às portas das Faculdades, levados inconscientes pela enxurrada que vem do Secundário.

A Ministra foi clara. Os jovens, disse ela, têm outros saberes. Reparem: são saberes outros, não são melhores nem piores, mais elevados ou mais rasteiros. São outros. A única diferença entre esses saberes é, precisamente, a sua alteridade. Este é um discurso que apazigua os ignorantes. E que lhes diz que não vale a pena tentarem deixar de o ser. Porque, na verdade, não são ignorantes. Sabem. Têm saberes. Alegrem-se. Naquele seu mundo, todos estamos no mesmo plano. Não há razões para qualquer sentimento de inferioridade. Pois, na verdade, na verdade, o que é o superior e o inferior? Não se esqueçam, meus queridos, tudo é relativo. (We don’t need no education, cantavam os outros, de barriga cheia)

Portanto, saber ler e escrever com correcção, ter qualquer coisa como uma maturidade intelectual que permite conhecer alguns textos importantes e alguma música, treinar a sensibilidade e, de algum modo, educar o gosto, tudo isso não passa de snobices. Porque os jovens podem não saber escrever na sua língua, podem nunca ter cheirado sequer as folhas de um livro, podem, assim, estar desprovidos das capacidades que lhes permitiriam... pensar, mas... têm outros saberes. Que têm de ser valorizados, bla, bla, bla. Zurremos com alegria, portanto.

Num acesso de pedagógica generosidade, a Ministra insistiu em dar dois exemplos. Dois exemplos, atenção, de competências “escolares”. Dois saberes que os jovens dominam hoje, ao contrário dos jovens de há trinta ou quarenta anos. E são o quê? Informática e Inglês. Sim, ouvimos todos bem: Informática e Inglês.

Pois, temos de concordar. Até podemos reforçar. Eu, por exemplo, tenho conhecimentos de Informática que o meu bisavô não tinha. E até sei ligar e desligar um televisor, coisa de que a minha bisavó, essa incompetente, não era capaz. E que dizer da torradeira? É claro que eu poderia dizer que a razão porque o meu bisavô não dominava a Informática era a de que ela ainda não existia. E que a Ministra compara o que não é comparável quando fala da erudição informática da juventude de hoje em relação à de ontem. Mas isso, para ela, serão pormenores, subtilezas irritantes. E ela finge não saber que os estudantes do presente estão mais habituados à língua inglesa. É apenas isso. As gerações anteriores estavam mais familiarizadas com a francesa. Devia-se antes comparar o efectivo domínio da língua inglesa dos jovens de hoje com aqueles, poucos, que a conheciam há trinta anos. Isso sim, seria interessante. E educativo.
publicado por Carlos Botelho às 22:51 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Fazer pontes

Há pouco, na entrevista a Judite de Sousa, Maria de Lurdes Rodrigues lá tentou negar o que já todos percebemos: o grupo parlamentar que a devia apoiar, a meio da reunião da Comissão Parlamentar de Educação, subitamente, recuou na proposta extravagante do artigo 22 do Estatuto do Aluno – uma proposta que, se vingar, de facto, desvaloriza um valor, um bem a proteger: o da assiduidade dos alunos. O traiçoeiro golpe de rins do Grupo Parlamentar do PS atropela ruidosamente a posição da Ministra: ainda há dois dias vinha ela proclamar que a sua proposta era justa, inabalável. Provavelmente, tendo em conta o clamor geral que se levantou contra o disparate proposto, alguma importante personagem do Governo fez uma espécie de ponte até aos deputados. A Ministra, ultrapassada, ficou por debaixo do tabuleiro. Ficará talvez na sombra de um arco, a partir de agora. Tratando-se de uma ponte, há aqui certamente mão de engenheiro...
publicado por Carlos Botelho às 22:02 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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