Domingo, 09.12.07

Dupont ou Dupond?

Luís Filipe Menezes declarou que, em Portugal, "a situação de insegurança é insustentável" e que as pessoas já não podem sair à rua.
Por uma vez, estou inteiramente de acordo. Há pessoas que não podem sair à rua. Nem devem.
Só não percebi o que é que ele prefere: uma situação de insegurança sustentável ou uma situação de segurança insustentável.
publicado por Pedro Picoito às 17:27 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Considerações sobre o Declínio da Riqueza das Nações

A propósito do livro de Alberto Alesina e Francesco Giavazzi, O Futuro da Europa: Reforma ou Declínio (Edições 70, 2007):
[A]s causas dos problemas económicos da Europa não se encontram no lado da procura, mas no lado da oferta; e a história económica europeia nas últimas três décadas tem sido marcada, por um lado, pela fustigação permanente do lado da oferta da economia e, por outro lado, pelo delírio ocasional no fortalecimento da procura. E poucos países encaixam tão perfeitamente nesta tese como Portugal. Não é, portanto, assunto supérfluo para o público nacional.
A economia portuguesa, se bem que tratada apenas de forma tangencial, não sai muito bem tratada das páginas deste livro. Na realidade, não seria exagero dizer que os problemas e comportamento da economia portuguesa nos últimos dez anos tipificam tudo o que, do ponto de vista económico, vai mal na Europa. Portugal tem quase todos os problemas das grandes economias europeias que exemplificam a falência do “modelo europeu” (França, Alemanha, Itália), mas com duas agravantes: entre nós, esses problemas são quase invariavelmente mais profundos; e temos poucos dos trunfos que as economias problemáticas sempre lá vão mantendo. Em Portugal, como em toda a Europa mediterrânica, padecemos de um sistema universitário ossificado e estatista, de deficientes níveis de inovação, de tributação asfixiante, do poder desmedido de sindicatos e do funcionalismo público na definição das políticas públicas e das sempre anunciadas “reformas”, de hesitação política, de um sistema judicial ineficaz e paralisante da actividade económica e, diga-se por acréscimo, de muito medo do que “aí vem”.
[Eu, no nº 33 da Nova Cidadania]
publicado por Miguel Morgado às 12:11 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 07.12.07

Cimeira União Europeia – União Africana e Marrocos: Lisboa, 6 de Dezembro de 2007.

Não deixa de ser curioso que, quando se aproximam os 80 anos sobre a chegada de Salazar ao poder para ocupar o cargo de ministro das Finanças (o que sucederá em Abril do próximo ano), Lisboa, Portugal e os portugueses, por causa da sua presidência da União Europeia, recebam um número grande, mas um tanto impreciso, de ditadores que, comparados com o acima citado, o tornavam numa personagem política e moral altamente respeitada e respeitável.
Visto isto, cumpre tentar perceber o porquê da cimeira UE – União Africana e Marrocos. Parece que será um exercício de realismo político posto em prática para aprofundar e melhorar relações entre estes dois "blocos" que, e ao menos quanto ao segundo, só existe na cabeça de quem não conhece a história do continente africano desde que, no início da década de 1950, deixou de ser, na sua quase totalidade, uma reserva colonial, para passar a ser um espaço de estados independentes onde praticamente ninguém quer viver. Serve ainda a cimeira para que a Europa recupere as oportunidades de negócios perdidas para norte-americanos, indianos e, sobretudo, chineses, esses novos demónios económicos do mundo em que vivemos. A cimeira é também útil para dar visibilidade a Portugal, ao seu governo, ao seu povo (que como nenhum outro, há quem garanta, conhece e percebe África) e aos méritos da sua presidência da UE. E, no entanto, todos estes argumentos são falaciosos. Da cimeira nada sairá, excepto, claro está, a humilhação da Europa – já evidente aos olhos de todos – e a concessão gratuita, aos ditadores que nos visitam, de um sopro de dignidade e de legitimidade política e moral de que necessitam absolutamente, mas que não merecem.
publicado por Fernando Martins às 17:35 | comentar | ver comentários (15) | partilhar

We're rich, we're rich



«Market participants don't know whether to buy on the rumour and sell on the news, do the opposite, do both, or do neither, depending on which way the wind is blowing. The atmosphere is febrile» State Street Global Markets

publicado por Manuel Pinheiro às 14:42 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Os pais sem filhos

Nos últimos tempos assistimos a vários dramas (já não é só o «caso Esmeralda») que envolvem a adopção: a confusão gerada por «pais de acolhimento» e «pais biológicos» lançam as crianças num cenário de loucura que lhes vira o mundo do avesso.

Todos dizem contemplar os interesses da criança, mas, ao contrário da história que se conta para ilustrar a sabedoria de Salomão, ninguém vai tão longe, como se compreende, que esteja capaz de abdicar do «seu» filho.

O dilema é trágico e não tem fácil resolução. Merecia, porém, outra atenção para evitar casos futuros.

Tanto mais que com as técnicas de Procriação Medicamente Assistida (PMA) com recurso à fecundação heteróloga (com recurso a material genético de terceiros), estas situações correm o risco de se divulgar e generalizar. Ou seja, as crianças nascidas deste modo surgem no âmbito de uma realidade afectiva e social, mas escondem uma ascendência biológica e natural que não desaparece.

No Reino Unido e por ordem do Tribunal, duas lésbicas vão receber do dador de esperma uma pensão de alimentos para os filhos. É uma notícia que não estou seguro que a comunidade homossexual, por exemplo, acolha com entusiasmo. Porque se um dador de esperma tem deveres, também pode ter direitos sobre a criança, mesmo sem qualquer afinidade com esta. Quem se julgava de pleno direito pai ou mãe, pode ver amanhã a sua legitimidade questionada por alguém que não conhece, nem nunca a criança conheceu.

Em Portugal, a confidencialidade de todo o processo (imposta por Lei) é a arma que todos esperam possa garantir a segurança daqueles que recorrem a esta técnica de PMA. Se o dador não souber que filhos tem e os "pais de acolhimento" não souberem quem é o "pai biológico", em princípio, tudo correrá bem.Quando estão em causa vidas de pessoas, porém, o «em princípio» é manifestamente pouco. Sei que não é simpático, mas mais vale pensar nisto antes, para depois não termos que ser confrontados com dilemas de crianças partidas ao meio.
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 13:16 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quinta-feira, 06.12.07

Trick or treat?

We judge with high confidence that Iraq is continuing, and in some areas expanding, its chemical, biological, nuclear and missile programs contrary to UN resolutions.
· We are not detecting portions of these weapons programs.
· Iraq possesses proscribed chemical and biological weapons and missiles.
· Iraq could make a nuclear weapon in months to a year once it acquires sufficient weapons-grade fissile material.

We judge that all key aspects-R&D, production, and weaponization-of Iraq's offensive BW(*) program are active and that most elements are larger and more advanced than they were before the Gulf war.
We judge with high confidence that in fall 2003, Tehran halted its nuclear weapons program; we also assess with moderate-to-high confidence that Tehran at a minimum is keeping open the option to develop nuclear weapons.
Iran: Nuclear Intentions and Capabilities,” NIE, Dezembro de 2007.

(*) BW: biological weapons.

As National Intelligence Estimates são as melhores estimativas colectivas produzidas pelas dezasseis agências que constituem a comunidade de 'intelligence' norte-americana, sobre um determinado assunto ou matéria relevante para a segurança nacional (dos EUA). Por norma, os erros e imprecisões da ‘intelligence’ decorrem da natureza imperfeita dos processos de recolha de informação. Mas podem ser acentuados pela interferência política no processo de recolha de informação, condicionando, forçando escolhas, pressionando determinadas vias de investigação que levam às conclusões pretendidas. Nalguns casos particulares, como o citado em epígrafe, o enviesamento é significativo e tem consequências tremendas.

Recordo isto porque, três dias depois da divulgação do sumário não confidencial da NIE intitulada “Iran: Nuclear Intentions and Capabilities”, vejo uma série de comentadores notórios pelo cinismo com que encaram ‘all things American’ a aceitarem, com uma candura comovente, a fiabilidade das estimativas constantes do relatório –ou melhor, da já célebre estimativa também citada acima.

Alguns lêem-na como mais uma página a acrescentar ao libelo anti-Bush, argumentando que aqui está a ‘prova’ do belicismo presidencial relativamente ao Irão. Não parecem perceber a natureza estratégica do documento que citam e (tres)lêem. Ao abordar o documento como uma surpresa desagradável e embaraçosa para a presidência supõem, implícita e erradamente, que um documento da importância duma NIE poderia ser divulgado sem o conhecimento prévio e a aprovação dos secretários relevantes (de Estado e da Defesa) e do presidente. Absurdo. Trata-se de uma divulgação aprovada politicamente, que constitui provavelmente um elemento da estratégia política americana face ao Irão e não de algo imprevisto e inoportuno.

A questão relevante é: por que razão optaram agora os EUA por divulgar informação que relativiza a ameaça colocada pelo programa de armas nucleares iraniano? No artigo de hoje no Diário Económico escrevo sobre este assunto. Mas relembro também que a fiabilidade dos ‘intelligence assessments’ constantes deste relatório está politicamente condicionada. É por isso que recordo o caso mais célebre de situações onde o processo de recolha de informação foi completamente contaminado pela estratégia política.

Compreendo que os comentadores que se opõem à política externa norte-americana ignorem convenientemente todas as reservas de precaução que se seguem à famosa citação e a tentem explorar, usando-a como arma de descredibilização presidencial (note-se, de passagem, que a suspensão do programa iraniano de armamento nuclear confirma, por inclusão, a sua existência, algo que foi sempre negado por Teerão). Mas esses comentadores precisam de compreender três coisas. Primeiro, ao fazê-lo evidenciam ignorância sobre as condicionantes políticas das NIE’s. Segundo, não conseguem explicar por que razão é que devemos acreditar piamente na fiabilidade do presente relatório, da responsabilidade de instituições que nos deram momentos tão memoráveis como a NIE de 2002, “Iraq's Continuing Program for Weapons of Mass Destruction”. Talvez os serviços de informação tenham aprendido a lição; ou talvez estejam a cometer outro erro: é preciso manter presente que ainda há dois anos, outra NIE dedicada ao programa de armamento nuclear iraniano garantia precisamente o contrário. Terceiro, ignoram a possibilidade já mencionada, da divulgação desta informação neste momento poder servir os interesses políticos e a grande estratégia norte-americana para o Golfo Pérsico, não o contrário.

De tudo isto transparece o costume sobre alguns dos ditos comentadores: o menosprezo pela verdade, uma ignorância pouco salutar e uma disposição para deitar mão apressadamente a tudo o que possa constituir enxovalho e embaraço para a presidência americana. É da natureza da cegueira ideológica.

Nota: recomendo a leitura do livro de Bob Drogin, Curveball –um excelente relato da forma como incentivos e problemas de informação típicos de organizações, como o comportamento de ‘herd behaviour’, se cruzam com incentivos e problemas típicos do relacionamento entre políticos e técnicos para produzir um enorme e desastroso erro. O livro foi abordado pelo cronista George Will, há algumas semanas no Washington Post.
publicado por Joana Alarcão às 14:16 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Assim não!

A propósito de divergências ideológicas ou outras, já não sei, alguns elementos de vários blogs andaram a brincar às velhas alcoviteiras, rancorosas e intriguistas. Guerrilha de bairro que não se limitou à casa da porteira: foi levada, com estrondo, à praça pública.
Lamentavelmente, a coisa teve origem entre vizinhos do mesmo prédio e, para minha maior tristeza, todos residentes no lado direito.
Assenta a poeira mas fica a memória: uma vergonha.
publicado por Joana Alarcão às 13:05 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

O bailarico da esquerda

O recente episódio da aprovação do empréstimo para a CML revela mais do que meras jogadas de números. Revela um modo de fazer política por parte de José Sócrates, António Costa e seus camaradas que é - há que reconhecer - realizado com uma arte verdadeiramente admirável.
Senão veja-se: António Costa candidatou-se à Presidência da Câmara sem qualquer acordo com o PSD no sentido de obter a concessão do tal empréstimo de 500 milhões. Por outro lado, sabia que teria de governar a cidade sem maioria PS e com uma Assembleia Municipal "laranja".
Nunca o ouvi dizer que se demitiria caso o empréstimo não fosse aprovado. António Costa limitou-se a dizer que a possibilidade não deixava de ser equacionada, que havia o risco, etc, etc.
Atendendo às circunstâncias em que se encontrava a CML no momento da sua candidatura e às condições em que aceitou o cargo, António Costa carecia de legitimidade para impor agora, sobre os ombros do PSD, o ónus da sua continuidade. Condições impõem-se necessariamente em momento anterior. Mas isso não foi impedimento para o episódio a que assistimos e que se traduziu na transferência para o PSD da responsabilidade pela aprovação de uma medida que não é sua.
Ou seja, António Costa conseguiu assustar Luís Filipe Menezes com o "papão PRD", a queda de um executivo esforçado mercê da irresponsabilidade de alguns...
Foi um processo genial, embora com o preço de 100 milhões para salvaguardar honras de conventos (quiçá já previamente contabilizado...)
Os responsáveis do PS aprenderam como ninguém a jogar o jogo político. Constituído por figuras que pouco mais fizeram na vida, o Partido Socialista tornou-se exímio a criar factos políticos, a desviar ou atrair as atenções conforme a sua conveniência, a lidar com a imprensa, a aproveitar tempos e circunstâncias, a jogar com o marketing e a imagem, com as palavras certas e com os silêncios tumulares. E tudo isto (salvo poucas excepções) ao nível partidário, parlamentar e governamental.
O PS é hoje feito de profissionais da política, com a lição bem estudada. É por isso que consegue, sem problemas, prosseguir políticas e executar medidas que criticou durante o governo PSD. É por isso que, apesar dos disparates de Manuel Pinho e Mário Lino, as "trapalhadas" são coisa de outros. É por isso que. mesmo em tempo de vacas magras, consegue manter-se nas sondagens. É por isso que tem pesadelos nocturnos com Pinochet e sonhos cor-de-rosa com ditadores africanos. É por isso que hoje quer um referendo e amanhã logo se vê. É por isso que consegue transformar a apresentação do OE na AR numa troca de galhardetes sobre o passado de Santana ou a batalha de Aljubarrota. Tanto faz.

Nisto o PS é, de facto, imbatível. Um verdadeiro bailinho que (na oposição ou no Governo) o Eng.º Sócrates e os seus rapazes oferecem à direita portuguesa. É claro que há quem reaja, faça barulho, tente denunciar. Mas a mensagem não passa ou passa pouco. Falta técnica...
Em democracia não ganha necessariamente quem está isento de suspeita ou quem é mais competente. Ganha quem ganha os favores do povo o que, podendo ser coincidente, não é exactamente a mesma coisa.
O PS percebe melhor que ninguém que o voto se faz mais de sensações que de razões.
E é por dominar como ninguém o mundo das aparências que António Costa arquitectou o seu show.
Em política não basta ser sério e - por vezes ou para alguns- não é sequer preciso sê-lo.

publicado por Joana Alarcão às 00:15 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Terça-feira, 04.12.07

Cultura intermitente, ensaio de resposta

Há tempos, o Tiago Ivo Cruz desafiou-me a comentar este post. Ontem, o Público trazia um artigo de Mário Vieira de Carvalho, Secretário de Estado da Cultura, em defesa do novo "estatuto do artista" aprovado no Parlamento com os votos a favor do PS e contra de toda a oposição. Juntando as duas coisas, e ressalvando que ainda não li o referido "estatuto", deixo aqui um comentário sobre a matéria. Fatalmente provisório.
Ao que parece, o novo regime laboral dos "intermitentes" não os inclui na segurança social. Vieira de Carvalho diz que sim, porque passa a ser obrigatório celebrar um contrato para exercer actividade artística subordinada (a termo incerto, a termo certo ou sem termo). Acaba-se assim com os recibos verdes e garante-se o acesso à segurança social, uma vez que há descontos (variáveis). Ao mesmo tempo, porém, o SEC acrescentava que estes contratos só subsidiariamente são regulados pelo Código de Trabalho. Subsidiariamente? Em que medida? Como é que são calculados os descontos e as prestações correspondentes (se é que são correspondentes)? E de que natureza e peso são as sanções, sem as quais o estatuto terá pouco efeito, para os empregadores que não cumpram a lei?
Suspeito que haja aqui uma certa indefinição. Claro que, em cenários laborais tão variáveis, a flexibilidade da lei pode ser uma das suas forças. Mas uma lei muito flexível também pode revelar-se pouco imperativa e, portanto, fraca. Veremos. Em todo o caso, eu não seria tão optimista como o Secretário de Estado nem tão pessimista como a oposição. Ter isto já é melhor do que nada, mas o risco da temida precariedade não desaparece.
Daí que a questão da segurança social seja prioritária. Por uma dupla razão de justiça. Antes de mais, porque a arte é uma actividade profissional que beneficia a sociedade e que deve, em consequência, ter os direitos e deveres reconhecidos a qualquer outra. Depois, porque a arte não tem o direito natural de ser subsidiada, como não o tem nenhuma outra actividade profissional. Ora, se não houver segurança social, a tentação estatista será a de sustentar os artistas e o seu trabalho através de alguma forma de subsídio, como bolsas ou encomendas.
A não ser que os deixemos morrer à fome.
O que sai mais barato, mas é um pouco inestético.
publicado por Pedro Picoito às 21:53 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Um Palpite: o dia "C"

Como complemento a este post do Carlos do Carmo Carapinha, permitam-me um palpite. Chavéz arriscará a próxima investida num certo dia em que for desmascarada a preparação de um golpe de Estado com o patrocínio dos EUA, do Rei Juan Carlos e outros sinistros agentes do imperalismo. E será nessa altura que Chavéz dirá: salus populi... está acima dos referendos. Resta saber qual será o dia "C".
publicado por Miguel Morgado às 15:02 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Children See, Children Do.

Vejam este vídeo produzido pela Child friendly australiana. É poderoso.
publicado por Paulo Marcelo às 14:24 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 03.12.07

Sobre o diagnóstico

Os debates sobre natalidade em Portugal são das coisas mais amadoras e voluntaristas que se podem encontrar no território. O wishful thinking atinge níveis difíceis de igualar, nomeadamente sobre o alcance nunca quantificado da longa mão do estado e das suas virtudes salvíficas, mas também sobre a capacidade de influência colectiva em escolhas individuais. Cá estarei para me penitenciar se for o caso, mas vem aí mais um Prós e Contras com um anunciado desfile carnavalesco das banalidades de sempre, baseadas no mesmo equívoco base, e que redundam na ineficiência de sempre. Se este discurso e metodologia não produz resultados, quem é o suicida que investe na continuação do paradigma? Julgo que vários serão apresentados logo à noite. Espero que pelo menos levem uns bebés giros, que a todos nos enterneçam sobre a beleza da natalidade e incutam por uns minutos o sentimento de culpa da não pertença (um pouco ou de todo) a tão fantástico fenómeno. A pequena tragédia segue um mais forte destino logo a seguir.


publicado por Manuel Pinheiro às 19:51 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

O futuro da direita nas mãos (que aproveito para beijar) do Daniel Oliveira

Camaradas, por muito que vos custe, e custa, hão-de reconhecer que o Daniel Oliveira é impagável (espero que ele não considere isto um insulto; significa que não está à venda, foge do mercado, recusa o capitalismo, etc.).
Depois de querer ser a ASAE das anedotas e o conselheiro do Vaticano para as beatificações em massa, agora exerce com brio o ofício de entidade reguladora da "direita". Uns são, outros não, e o Daniel certifica. Era o que faltava que alguém fosse de "direita" sem ter a licença do Arrastão.
Sim, é um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer. E ele fá-lo (espero que o Daniel não considere isto um insulto) com conhecimento de causa. Socialdemocratização oblige.
Eis os felizes contemplados: o Tiago Mendes, o Pedro Marques Lopes e o inevitável liberal-presidente-da-junta CAA. Curiosamente, ou talvez não, as únicas pessoas "de direita" que concordam sempre com ele. Bem, sempre não - quase sempre.
O que me leva a partilhar convosco, além da infinita mágoa de ver o futuro da "direita" longe de mim, que a profecia do Daniel diz mais sobre a sua ideia de democracia - e também, suspeito, dos felizes contemplados - do que sobre a "direita" propriamente dita.
A qual, esclarece ele pedagogicamente, não terá futuro enquanto não resolver "matérias que deviam estar resolvidas há cem anos".
Nem mais.
Até parece o Gabriel Garcia Marquez.
Que maçada, isto de as pessoas não resolverem as coisas em cem anos.
Uma maçada tão grande que o melhor é nem pensarmos nas coisas que o partido do Daniel tem por resolver.
Sei lá, aquilo da Albânia.
Ou de Silves, que sempre é mais perto.
publicado por Pedro Picoito às 16:50 | comentar | ver comentários (32) | partilhar

Escola Jardim

"O Presidente do PS-Madeira, João Carlos Gouveia, admite corte de relações com o PS nacional se Lisboa lhe negar autonomia."
Público, 2/12/07
publicado por Pedro Picoito às 15:10 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

A Venezuela, e parece que até o próprio Pirro, disseram NÃO a Hugo Chávez

publicado por Paulo Marcelo às 09:45 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Domingo, 02.12.07

O regresso do rugby

Lembram-se? Foi o nosso ensaio contra a Roménia, no último Mundial de rugby. Perdemos por 14-10, depois de estar a ganhar quase até ao fim. Um adeus lusitano. Custou-me mais do que a tareia da Nova Zelândia.
Ontem voltámos a jogar com eles, por coincidência no primeiro jogo oficial depois do aventura francesa. Para quem esperava que fosse a desforra, não correu bem. Voltámos a perder, e por mais: 23-8. Salvou-se o público. Dez mil pessoas, talvez a maior enchente da história do "jogo de cavalheiros" em Portugal.
A selecção está claramente em processo de renovação, como se diz no futebol. Desde Setembro, já saíram Joaquim Correia, Rui Cordeiro e Miguel Portela. Ontem foi a despedida do Luís Pissara. Muito interessante a sua entrevista ao Público. Sem ilusões: ou começamos a ganhar, e isso exige um enorme salto do rugby português, ou o fervor de Setembro vai-se embora.
O rugby é uma escola de vida.
publicado por Pedro Picoito às 18:03 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 01.12.07

A pedrada no charco... que já estava muito agitado

Há uns dias, num colóquio de filosofia política, notei que alguns dos participantes mencionavam de passagem aquele dito em tempos célebre, segundo o qual foi John Rawls quem salvou a filosofia política moribunda do século XX. Até ao início da década de 70, antes de Rawls, só houve o deserto.
Isso talvez seja verdade para a Inglaterra do pós-Segunda Guerra Mundial. Mas não vale com toda a certeza para outras paragens. Sentado na minha cadeira, decidi apontar os nomes de filósofos políticos que me ocorressem nesse instante, sem precisar esforçar a memória, e que se notabilizaram, digamos, entre 1945 e 1971: Hannah Arendt, Raymond Aron, Bertrand de Jouvenel, Eric Weil, Aurel Kolnai, Alexis Philonenko, Jacques Maritain, Amintore Fanfani, Alexander Kojève, Leo Strauss, Eric Voegelin, Michael Oakeshott. E parei. A demonstração estava feita, achei eu.
publicado por Miguel Morgado às 15:45 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Prémio merecido


O prémio 'a amarela da semana' vai para a Fernanda Câncio.
publicado por Carlos Botelho às 13:59 | comentar | partilhar

Arruaça

Além deste nosso Cachimbo de Magritte, só há um blogue português que leio com regularidade. É o blogue da revista Atlântico. É mais uma razão para lamentar a arruaça que um certo cavalheiro, de resto, perito nessas práticas, por lá causou.
publicado por Miguel Morgado às 13:12 | comentar | partilhar

Era outra vez

Diz o Daniel Oliveira nos comentários ao post anterior (falhei a profecia, afinal) que a polémica "está a léguas de ser" sobre a maioria católica. Eu sei que está. Mas não tanto assim.
Vejamos.
A reacção do Daniel ao artigo do Francisco José Viegas é o caso típico de ataque a um espantalho. O artigo está bem escrito, bem pensado e coberto de razão. O próprio Daniel inclui magnanimamente Viegas entre as "pessoas civilizadas" e não contraria a defesa da liberdade de expressão a que, no essencial, ele se limita. Os posts barrocos (ou bacocos?) de apoio à causa no Cinco Dias e na Atlântico, estes devido a um simples link do André Azevedo Alves, são ainda mais pavlovianos. A campanha da Tagus era pífia e atacá-la em nome dos direitos das minorias é igualmente pífio.
De resto, as notícias da "homofobia" lusitana são francamente exageradas. Admito que continue a existir, e suspeito que há-de existir sempre, tal como o racismo, a xenofobia, a misoginia, a intolerância ou o tribalismo na sociedade portuguesa. Também existe na sede do Bloco de Esquerda, na redacção do Diário de Notícias e nos colleges de Oxford. Sim, já sei que em Viseu um bando de machos latinos fez e aconteceu e tal. Há muitos mais?
Desconheço em que caverna falocénica vivem o Daniel Oliveira, a Fernanda Câncio ou o Tiago Mendes, mas tenho a certeza de que ficariam surpreendidos com a tranquila aceitação da diferença por parte da terrível maioria. Outra coisa é a luta pelos "direitos" dos gays, que as pessoas tendem a colocar, e muito bem, em plano distinto.
E não me venham com a história do cozinheiro com VIH. Não se trata de um problema de discriminação sexual, mas de saúde pública, e assim deve ser discutido. A não ser que queiram identificar a SIDA com os gays, uma muito má ideia - se me permitem o conselho.
Então, o que é que se passa? A que propósito vem isto tudo?
O que se passa é que o combate à "homofobia" é a próxima bandeira do Bloco de Esquerda. A sua aproximação ao PS está a criar divisões internas e problemas de identidade, como era de prever, além de o condenar à irrelevância política. Basta olhar para Lisboa: no dia em que Sá Fernandes apoiou os socialistas numa decisão difícil (e governar é isso), partiu o Bloco ao meio. Qua a nada mais aspira hoje do que a ser a consciência crítica do PS. Daí a sua hostilidade a Manuel Alegre, por exemplo, que quer ter idêntico papel de apocalíptico e integrado, na expressão de Eco que já aqui usei . É uma clara luta pela ocupação do mesmo espaço: a ténue fronteira entre ser do sistema e ser contra o sistema. O Bloco não pode chegar lá pela via eleitoral, a não ser em casos pontuais, porque a receita se esgota depressa. Também não pode chegar lá pela via sindical, que é proletária, mas não popular, e portanto nada tem a ver com o tipo de causas esquerda-chic que gosta de abraçar. E está ainda nas mão velhas, mas sólidas, do PCP.
Restam as causas fracturantes.
São perfeitas. Têm provas dadas de sucesso e baixíssimo risco político, como se viu no referendo do aborto e como se verá com o casamento gay, que o Bloco tentará levar ao Parlamento no início da próxima legislatura (sem referendo). Unem o partido, devolvem-lhe a iniciativa política, dão-lhe a liderança da frente de esquerda, põem o PS e o PCP a trabalhar para a sua glória, colhem apoios à direita, colhem apoios na opinião pública, atraem artistas e intelectuais, têm uma aura romântica, heróica, progressista. E, sobretudo, misturam inimigos bem visíveis e mal amados: os conservadores, os "fascistas", a extrema-direita, os skins, a província, os três éfes, a Igreja. Sim, a Igreja. Não a que eles citam quando lhes dá jeito, mas a que os incomoda. E muito. Lembrem-se de quem atacaram na polémica ainda mais pífia dos rankings das escolas.
Que apareça alguém como o Francisco José Viegas, refractário a qualquer das categorias de inimigo oficial, a sugerir a irrelevância da patrulha da virtude e, pior ainda, o germe totalitário que a anima, dá cabo de todos os esquemas do Daniel Oliveira y sus muchachos. Lá se vai o mundo a preto e branco. Lá se vai a salvação da humanidade que nos propõem com a censura. Mais uma vez. É preciso metê-lo no meio dos maus, e rapidamente.
Eis o que se passa.
Querem uma prova? Não há hoje causa maior de discriminação em Portugal do que a maternidade. Todas as mulheres o sabem. E eu posso contar histórias muito interessantes a este respeito, histórias que talvez não cheguem à sede do Bloco, nem à redacção do DN, nem a Oxford.
Alguém conhece qualquer iniciativa, a mais remota campanha, um artigo de jornal, um mísero post, uma palavra das patrulhas sobre isto?
Não?
Abram os olhos, pá.
Adenda: Nos comentários, o Pedro Sales corrige-me e cita um exemplo de preocupação do Bloco de Esquerda com a questão da maternidade. Um exemplo. Posso dizer que é a excepção à regra?
publicado por Pedro Picoito às 10:25 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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