Segunda-feira, 24.11.08

Citação montesquieuana do dia

"No decurso de um longo governo, a descida para o mal tem uma inclinação imperceptível, e só com um esforço regressamos ao bem."
publicado por Miguel Morgado às 14:04 | comentar | partilhar

Oἱ πολλοί

Por detrás de toda esta vozearia pela “avaliação” dos professores está um imenso desdém pelo Saber. É esse sentimento (na verdade, uma paixão) que, por sua vez, torna possível o desdém por aqueles que têm a seu cargo a transmissão do Saber. O aspecto visível desse desdém apaixonado é todo este rancor justiçoso pela “avaliação”, esta desconfiança por um género de trabalho que teima em se furtar a um certo tipo de compreensão.
publicado por Carlos Botelho às 01:17 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Domingo, 23.11.08

Tendências Sociais e Estados de Alma

À medida que se acumula evidência empírica de que nos últimos 15 anos a volatilidade do rendimento das famílias disparou (o que não é contraditório com um movimento generalizado de crescimento do produto e do emprego), e se acrescentarmos a conjuntura actual que também se alimenta do medo provocado por uma crescente percepção de insegurança económica, torna-se mais fácil compreender a aspiração fundamental das classes médias um pouco por todo o Ocidente, e em Portugal, em particular. Neste momento, o que as classes médias desejam ardentemente não é "mudança", nem "redistribuição" e muito menos "revolução" - para tumulto basta-lhes, e sobra, o que se verifica no sector financeiro ou nos processos das ditas "deslocalizações"; o objecto do desejo da esmagadora maioria da população nas sociedades ocidentais que nem se considera pobre, nem rica, é a segurança ou a estabilidade. Mais do que uma prosperidade em aceleração, mais até, talvez, do que mobilidade social instantânea. Viver num mundo previsível é bem mais importante do que tudo o resto. E quem lhe prometer isso, promete tudo o que importa.
Que se trata de um movimento compreensível, quase instintivo até, ninguém pode duvidar. Eu, pelo menos, não duvido. Mas, se tivermos em conta a experiência do século XX, também não é tendência social que se recomende. É que mais do que uma "tendência social", o anseio pela segurança converte-se num verdadeiro "estado de alma" que perde o gosto pelas liberdades e reprime a voz dissonante. O desafio dos partidos políticos e das forças sociais moderadas é saber responder à necessidade de segurança das classes médias, sem deixar de proteger as estruturas civilizacionais que nos trouxeram até aqui, até a um mundo de relativa prosperidade. E, sobretudo, recordar essas mesmas classes médias o que elas lhes devem.
publicado por Miguel Morgado às 14:58 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Niall Ferguson... outra vez

Mais uma entrevista. Desta vez, já nem cuida das contradições que aparecem no decurso da conversa com o Der Spiegel, nem sequer tenta disfarçar um ostensivo oportunismo típico de quem quer persuadir os outros de que sempre soube o que ia acontecer, e, no entanto, deixa escapar que não domina o que está agora a acontecer. O sucesso corrige tudo, suponho eu.
publicado por Miguel Morgado às 14:54 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sábado, 22.11.08

Ah, a ideologia... Ah, a esquerda

Tenham cuidado, muito cuidado, com esses republicanos que exaltam o pragmatismo sobre a ideologia, demonstrando com isso um descarado anti-intelectualismo e um delirante orgulho da "ignorância":



No NY Times e na MSNBC.

Safety Warning: Este post contém alguma ironia (ou tentativa de).
publicado por Manuel Pinheiro às 12:09 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 21.11.08

Byblos

Sim, é verdade que não estava bem situada. Mal servida de transportes. Fechava aos Domingos. Lá dentro, não era uma livraria muito atraente. Parecia sempre despovoada - de livros e de pessoas. Aquele sítio tinha qualquer coisa de inóspito. Tudo isso é verdade. Durou pouco tempo e nem me pareceu ter chegado a adquirir um carácter.
Mas não deixa de haver uma tristeza qualquer por aqui. Não me posso esquecer que foi lá que encontrei livros que já não esperava encontrar: alguns Irene Lisboa, Rodrigues Miguéis, Mário Dionísio. E deparei lá, com entusiasmo infantil, numa edição desengraçada da Penguin, com a The Royal Hunt of the Sun, do Peter Shaffer - uma peça que sempre quis encontrar (e que nunca me lembrava de procurar) desde que, há muito tempo, a vi numa versão com o Robert Shaw/Pizarro e o Christopher Plummer/Atahualpa.
Apesar de tudo, graças à Byblos.
publicado por Carlos Botelho às 22:09 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

O gabinete

Se se confirmarem, bom, as escolhas de Gates, Clinton e Geithner são muito, muito melhores do que eu esperava.
publicado por Joana Alarcão às 21:18 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

O Lobo das Estepes (9)


Inicialmente pensei tratar neste post (9) a "independência" do lobo das estepes; entretanto, decidi que o melhor é reflectir agora sobre o tema do "suicídio" e falar da "independência" juntamente com a "solidão" no próximo (10).

Suicídio

O lobo das estepes pertence ao lote dos suicidas. Um esclarecimento é aqui devido: há homens comuns que se suicidam, sem que necessariamente sejam suicidas por natureza; outros, apesar de pertencerem a este lote natural, acabam por nunca se suicidar. Em relação aos suicidas por natureza, o Tratado revela o seguinte:

Sob uma perspectiva metafísica [por oposição a uma perspectiva psicológica, isto é, física], a questão do suicídio apresenta-se assim: Os suicidas vêem-se como tomados por um sentimento de culpa; o sentimento de culpa próprio das almas que encontram o sentido da vida, não no aperfeiçoamento e formação do seu eu, mas antes na libertação pessoal por via do retorno à Mãe, do retorno a Deus, do retorno ao Todo. A maioria destas naturezas é incapaz de recorrer ao suicídio propriamente dito, pois elas têm uma consciência aguda do pecado inerente a esse acto. Para nós, de qualquer modo, eles são suicidas; pois eles vêem a libertação na morte e não na vida.

A chave para a leitura desta passagem requer uma interpretação adequada do significado das expressões “aperfeiçoamento e formação do seu eu” e “libertação pessoal por via do retorno à Mãe, a Deus, ao Todo.”

Voltarei novamente a estas duas expressões em outros post; entretanto, devo confessar a minha dificuldade em perceber o que pretende dizer o autor, principalmente com a primeira das expressões sublinhadas. Para já, importa salientar que os apontamentos que se seguem, relativos à segunda expressao, devem ser lidos como meras especulações interpretativas, isto é, sem pretensão de dizerem a verdade intencionada pelo autor.

No post anterior, referi o facto de o lobo das estepes alcançar momentos de felicidade, embora raros, quando consegue elevar o seu espírito à imortalidade. Talvez se possa encontrar a tradução perfeita da figura do suicida (tal como Herman Hesse a apresenta, isto é, como uma pessoa que vê a libertação na morte e não na vida) nos versos da poesia lírica de Santa Teresa de Jesus:

Vivo sin vivir en mí / Y tan alta vida espero / Que muero porque no muero
...
Ay, que larga es esta vida, / Que duros estos destierros, / Esta cárcel y estos hierros / En que el alma está metida! / Solo esperar la salida / Me causa dolor tan fiero, / Que muero porque no muero.
...
Solo con la confianza / Vivo de que he de morir, / Porque muriendo el vivir / Me asegura mi esperanza. / Muerte do el vivir se alcanza, / No te tardes, que te espero, / Que muero porque no muero.
...
Aquella vida de arriba, / Que es la vida verdadera, / Hasta que esta vida muera / No se goza estando viva. / Muerte, no seas esquiva; / Viva muriendo primero, / Que muero porque no muero.


No sentido da definição avançada por Hermann Hesse, Santa Teresa de Jesus pertence ao lote dos suicidas, segundo um modo — arrisco dizer — ainda mais eminente do que o próprio lobo das estepes.

Por ocasião do seu quadragésimo sétimo aniversário, o lobo das estepes define um dia determinado para pôr termo à sua vida — o dia em que completará 50 anos, e, deste modo, ele poderia encontrar o seu lugar junto dos homens comuns que se suicidam sem que necessariamente sejam por natureza suicidas; a Santa, ao contrário, não obstante aspirar ardentemente pelo dia de sua morte, não deixa de a esperar pacientemente: “No te tardes [muerte], que te espero.”

De igual modo, quando o lobo das estepes antecipa o efeito do suicídio a cometer dali a três anos, os aspectos físicos – que haviam sido descritos por Hermann Hesse como meramente “superficiais” – são tidos em conta a par dos aspectos metafísicos: “Nesse dia [do suicídio], a gota nas articulações, a depressão do espírito, e todas as dores da mente e do corpo podem doravante procurar uma outra vítima”.

Numa referência ao tema delicado do suicídio do lobo das estepes – e ainda a respeito do sofrimento – o Narrador do Prefácio ao livro escreve o seguinte:

Não, eu estou certo de que ele não tomou a sua vida. Ainda está vivo .... [E]le não se matou, pois uma centelha de fé ainda lhe diz que tem de beber desse sofrimento, desse terrível sofrimento, até à última gota..., e que é desse sofrimento que ele acabará finalmente por morrer.

Em última análise, portanto, o lobo das estepes pertence ao lote dos suicidas que acabam por nunca se suicidar; de acordo com o Narrador do Prefácio, o lobo das estepes não toma a sua vida porque assume o sofrimento como destino: "desse sofrimento ele acabará finalmente por morrer..." O lobo das estepes assumirá pacientemente o seu destino. Mas o destino do lobo das estepes não tem o mesmo sabor que tem o destino de Santa Teresa de Jesus: “Vivo ya fuera de mí ... Porque vivo en el Señor / Que me quiso para Sí.”

Recordo que a figura do santo, sob a sombra de Nietzsche, é desprovida de “actualidade” e antecipo que, no contexto do livro de Hermann Hesse, a figura do santo aparece como "um dos extremos" que se opõem à figura do lobo das estepes.

As passagens analisadas correspondem às pp. 53-56 do Tratado e à p. 26 do Prefácio, Difel, 3ª ed.

Próximo post: Independência e Solidão
publicado por Nuno Lobo às 01:53 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Citação marxista do dia

"No capitalismo o valor das coisas não é definido pelo serviço que elas nos prestam mas pelo serviço que nós lhes prestamos." Marx, Uma Contribuição para a Crítica da Economia Política.
publicado por Joana Alarcão às 01:12 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quinta-feira, 20.11.08

Interessante

É sempre interessante assistir a uma entrevista televisiva da ministra da Educação. Ela tem o discurso bem articulado dos fanáticos. São pessoas que não cometem gaffes. Estas, não.
E mentem sempre.
publicado por Carlos Botelho às 22:09 | comentar | partilhar

Make-up

Quando esta tarde soube do tal Conselho de Ministros extraordinário, ocorreu-me que, da mediática coisa, sairia uma de três alternativas. A primeira, a única opção decente, a saber, a suspensão do modelo de "avaliação", pareceu-me logo remota. Restavam, assim, duas. Ou o tal conselho de ministros não passaria de uma espécie de manifestação agressiva de solidariedade tribal (a haka "socrática" do costume) ou viriam dali somente alterações cosméticas. Foi esta a alternativa escolhida, como se viu.
Quais as intenções por detrás desta farsa?
O anúncio de um Conselho de Ministros extraordinário pretende mostrar a "seriedade" de todo o Governo empenhado numa "solução", numa "saída" para uma "crise" que ele nunca desejou, claro. Apenas forças obscuras do negro "corporativismo" dos professores e o "oportunismo" "irresponsável" das oposições decidiram, estranhamente, pôr obstáculos a medidas tão benéficas para a Pátria. Mas, enfim, o Governo, todo ele, não foge às responsabilidades e, perante a teimosia dos incréus, lá reuniu.
O manter o país suspenso até às 18.00. Depois, o atraso da comunicação, que aumenta a expectativa. Tudo isto revela o esforço "lá dentro", a boa-vontade de um executivo que tirou umas horas à labuta corrente da governação, para se ocupar de uns ingratos que não param de atravancar o Progresso.
Todo este "teatro do Poder" para anunciar alterações meramente cosméticas e não substantivas. Para quê?
Sócrates avança com propostas que sabe muito bem serem inaceitáveis, para depois, diante do público, poder alardear todo seu esforço e lamentar a "intransigência" e "má-vontade" dos "sindicatos".
Tem graça que, ainda ontem, na Pó dos Livros, tive na mão o Gattopardo, do Lampedusa.
publicado por Carlos Botelho às 19:47 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Brandos Costumes

Ou os camaradas dos partidos da esquerda e das redacções estão algo frouxos, ou então não acreditam verdadeiramente na absurda tese que o excerto da frase de Manuela Ferreira Leite deve ser entendida no seu limitado sentido literal e não no seguimento das críticas à forma de governar de José Sócrates nalguns sectores contra os "parceiros sociais". É que se efectivamente acreditassem e fossem consequentes, o caso era bem mais sério e exigiria outro tipo de adjectivos e de movimentos cívicos e partidários. No fundo, esta interpretação abusiva e indignação selectiva ajuda a reforçar o estereotipo de muita esquerda segundo a qual toda a direita é reaça apesar de alguma maquilhagem civilizacional. E nos tempos que correm uma indignação sempre ajuda, como dizem os americanos, a "let off some steam" em alternativa a outras formas de relaxamento como a sugerida pelo Henrique Raposo. Não fujo mais da questão, o tema é grave, ainda ontem um amigo socialista dizia-me ao telefone: "Então ela defende .... como é que é possível? Bom, o que fazes hoje à noite?"
publicado por Manuel Pinheiro às 13:02 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Leitura Recomendada

«Let Detroit Go Bankrupt», por Mitt Romney, no NYT

"Bankrupt", que não é o mesmo que "fechar", mas antes um enquadramento para possibilitar uma reestruturação possível sem uma pesada mão do estado, cujos benefícios não parecem ser visíveis no mercado automóvel americano, ao contrário da actual questão do mercado financeiro. Video aqui
publicado por Manuel Pinheiro às 11:58 | comentar | partilhar

A Bem da Justiça e da Vergonha.

Luís Filipe Menezes revelou ontem na RTP-N que foi ameaçado por antigos membros do Governo PSD (alguns deles membros da Comissão Política do seu partido), quando propôs, ou pensou propor, enquanto líder do PSD, um “inquérito à supervisão bancária em Portugal”. Estas denúncias são graves e devem ser minimamente provadas. Mas a sua gravidade exige ainda que as ameaças de que Luís Filipe Menezes terá sido vítima venham a ser formalmente denunciadas às autoridades competentes (penso que ainda o não foram). Por fim, as próprias autoridades – PJ ou Procuradoria Geral da República – devem chamar a depor o antigo presidente do PSD. A bem da justiça e da vergonha.

publicado por Fernando Martins às 10:33 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Quarta-feira, 19.11.08

"Democracia Paralítica"

No Portugal dos Pequeninos, João Gonçalves deu ao regime político que temos a designação mais exacta que alguma vez me foi dado a conhecer. Chamou-lhe "democracia paralítica". E se o estado deplorável em que o regime se encontra não começou com Sócrates e com o actual Governo, a verdade é que nunca como com Sócrates e com a actual maioria PS a paralisia foi tão profunda. Naturalmente, era isto que se devia perceber. E no que à política diz respeito, o resto pouco ou nada importa.
publicado por Fernando Martins às 19:38 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Congressos

Quem já esteve em congressos partidários, como participante ou simples observador sociológico, sabe o tédio em que se transformou a discussão de ideias, ou moções como se diz no “politiquês” congressista vigente. Pela noite dentro, sala vazia, um desfile interminável de discursos, mais ou menos inflamados, que poucos querem ouvir, muito menos discutir ou votar. O resultado é o esvaziamento político do Congresso enquanto órgão partidário. Com as directas já nem a liderança está em causa, restando apenas o ritual de entronização do líder eleito. Sabe a pouco, muito pouco mesmo. Lembrei-me disto quando soube que a JSD está a organizar o seu próximo congresso nacional com um modelo diferente. Para além da originalidade da recolha de sangue e alimentos, apresentações de ONG´s e outros voluntariados, vai haver worksops sobre temas sectoriais (educação, ambiente e energia, Portugal no mundo, Portugal 2030, etc.), em vez dos habituais e enfadonhos plenários. Os participantes são convidados a debater cada tema e a construir propostas que depois vão a votação. Não sei se será a revolução de que fala Pedro Rodrigues. Nem qual a qualidade das discussões sectoriais, mas não deixa se ser um sinal de vitalidade nas juventudes partidárias.
publicado por Paulo Marcelo às 17:56 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Heil Manuela, Viva il Duce e a Bem da Nação (ah, desculpem, não se pode brincar com coisas sérias)


Hoje, às 23h, estarei em directo no programa sobre blogues do Rádio Clube Português. Adivinhem qual é o tema.
publicado por Pedro Picoito às 17:53 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Declarações de MFL no blog Jugular

Escreve a Maria João Pires: "Claro que há uma explicação 'freudiana' para a coisa mas, para já, não quero ir por aí" (itálico meu). É pena. Pois seria exactamente por "aí" que se deveria ir. É claro que quando se tenta ir por "aí", não se chega a lado nenhum - tão rídicula que é a suspeita! Logo, a decisão sensata - essa sim, clara - é não ir por "aí". Ficamos, então, circunscritos a uma série de bocas atiradas para o ar, indignações virginais e insinuações pouco subtis, bem ao gosto dos que fazem da desinformação e do espectáculo uma política.
publicado por Nuno Lobo às 14:02 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Manela substitui Palin no imaginário jugular, com notória desvantagem porque não caça alces

No Jugular, soam as trombetas da indignação porque ninguém "nota" ou "detecta" qualquer ironia nas palavras de Manuela Ferreira Leite.
Estou solidário com os camaradas. É simplesmente uma violência imprópria de um país civilizado pedir-lhes que notem ou detectem semelhante coisa.
Se eles nem perceberam que a treta da Palin e de África era uma brincadeira...
publicado por Pedro Picoito às 11:01 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

O Lobo das Estepes (8)

Infelicidade – segunda parte

A vida do lobo das estepes, embora firmemente infeliz, não era sem um ou outro momento de felicidade. Hermann Hesse compara o lobo das estepes aos heróis, artistas e pensadores - por oposição aos juízes, médicos, artífices e professores de escola - que, também eles vivendo uma vida inquieta, só encontram o sentido das coisas em momentos raros - uma experiência ou acção ou pensamento ou obra - que transcendem o habitual; os artistas vivem um conflito interior permanente, uma tensão entre uma vida habitual que lhes aparece vazia e risível e aqueles momentos que parecem destinar o homem à imortalidade. No Prefácio, o Narrador diz ter observado o lobo das estepes, numa singular ocasião, a fruir dez minutos de aparente felicidade intensa, durante um concerto sinfónico, quando ouvia uma peça musical de Friedemann Bach. Arrisco dizer, a este respeito, que a felicidade só é possível em momentos em que o lobo das estepes é dominado pelo homem que nele existe: se é verdade que Harry Haller, ao longo do período a que corresponde a história, aparenta ser feliz em momentos em que nele domina o lobo, nunca essa felicidade é descrita no sentido descrito de elevação do homem à imortalidade.

As passagens analisadas correspondem às pp. 50-51 do Tratado e à p. 23 do Prefácio, Difel, 3ª ed.

Próximo post: Independência
publicado por Nuno Lobo às 10:44 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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