Terça-feira, 01.09.09

Há setenta anos II

"Um de Setembro de 1939! 1h00. Há uma hora que as tropas rolam em direcção à fronteira. Finalmente, também nós deixamos a nossa posição de prevenção. A noite está enevoada, a lua mal brilha. Avançamos numa lentidão insuportável – as estradas estão obstruídas. Tudo tem um ar fantasmagórico neste luar embaciado.
Desviamo-nos da estrada e percorremos caminhos infindáveis de areia numa floresta. Fazemos alto diante de uma grande clareira, o batalhão dispersa-se. Temos de aguardar, são talvez 2h00. Sabe-se agora que a guerra começou, se bem que não reconhecida oficialmente. Está bastante mais fresco agora e nota-se uma certa tensão. Corre um rumor: às 4h30 pômo-nos em marcha. A floresta abre-se diante de nós e temos uma boa vista da região. Além já deve ser território polaco. Temos o relógio na mão. 4h25! Que irá suceder? 4h30! De súbito, tudo ganha vida. Aqui mesmo à nossa frente, ribombam os disparos de uma bateria de obus. Em redor, respondem outras posições. Conseguimos vê-las parcialmente. O fragor dilui-se num estrondo contínuo. Só por vezes há pausas de um silêncio inquietante.


Meia hora depois, arrancamos. A corta-mato por prados e veredas, com os nossos pesados carros de lagartas e camiões, vamos numa corrida desenfreada em direcção à fronteira. Mas tudo se enterra na areia. Temos de descer dos carros, a coluna prossegue sem nós e marchamos. Num posto alfandegário crivado de feixes de MG, atravessamos a fronteira. Logo topamos com os nossos veículos e, enquanto os primeiros prisioneiros desfilam por nós, tomamos um duche.
Uma linha de fortificações ligeiras parece ser um obstáculo intransponível. Dizem que não foram vistas pelas vagas dos nossos pilotos. Os carros blindados avançam. Seguimos tensos atrás do ataque faseado. Mas o terreno atoladiço é como que uma barreira natural. Os carros estacam um após outro. Recebemos agora a nossa primeira tarefa, o nosso primeiro fogo, as nossas primeiras perdas. Com paus e com os nossos lagartas procuramos libertar os carros blindados. A confusão é grande.
Aqui, só os tanques serviam de alguma coisa. Assim, o ataque fica imobilizado. A cavalaria motorizada ataca as fortificações com grandes perdas. Mas os Polacos não se aguentam. Acometidas por lança-chamas, as fortificações rendem-se umas a seguir às outras.
E tudo está terminado. Subimos para os veículos, os motores arrancam - quase como se nada tivesse acontecido. Só então, de repente, se nota que o lugar ao nosso lado está vazio.
(...)
Estou diante da casa destruída de um médico judeu, como indicava uma placa. De pensamento ausente, remexo nos escombros. E dou com um volume de Goethe na minha mão. Poesia e Verdade [Dichtung und Wahrheit] em Alemão!"


MEINHART FREIHERR VON GUTTENBERG, in Walter Bähr e Hans W. Bähr, Kriegsbriefe Gefallener Studenten 1939-1945, Tübingen, 1952, pp. 9-12.
publicado por Carlos Botelho às 04:30 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos de lá

Gerard Dou, Auto-retrato com cachimbo, c. 1650
publicado por Pedro Picoito às 00:27 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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