Terça-feira, 29.12.09

A década em fotografias, ainda


Noutros slideshows, como o da Reuters, esta é recolhida como uma das fotografias da década. Para ver é ali.

Legenda da Reuters - Majid Kavousifar e Hossein Kavousifar enforcados pelo cabo de uma grua em Teerão. No Irão, o homicídio, o adultério, a violação, o assalto à mão armada, a apostasia e o tráfico de drogas são puníveis com a pena de morte, de acordo com a Sharia, em vigor desde a Revolução Islâmica de 1979. Mas os governos europeus e os grupos ocidentais de direitos humanos têm vindo a criticar o Irão por um número crescente de enforcamentos, desde que as autoridades lançaram uma ofensiva contra o «comportamento imoral». O Irão é o segundo país, a seguir à China, onde se verificam mais execuções. Majid Kavousifar e o seu sobrinho Hossein Kavousifar foram enforcados por terem morto um juiz responsável pela prisão de vários reformistas dissidentes. Foto tirada em 2 de Agosto de 2007, por Morteza Nikoubazl.

E pergunta o leitor, indignado: Mas este tipo não se lembra de nada feliz para recordar? Assim de repente, não.
publicado por Jorge Costa às 23:19 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (6)



Enzo Scifo.

Desde que Scifo arrumou as botas, a Bélgica não voltou a calçá-las.
publicado por Miguel Morgado às 20:00 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

2009 lá fora



O acontecimento internacional do ano foi, na minha opinião, o recente referendo em que a Suíça proibiu, por uma expressiva maioria de 57% de votos, a construção de minaretes. O resultado é motivo de preocupação porque atenta contra um direito fundamental: a liberdade religiosa. Ainda para mais quando não se vê de que modo os minaretes põem em causa outros direitos fundamentais, em concretos os dos suíços não muçulmanos, única razão válida para proibir a sua construção. Que isto se passe em 2009 na Europa, e na democrática confederação helvética, tranquiliza ainda menos.
Mas a importância do referendo está para além do resultado, que apenas exprime os profundos equívocos da relação entre o Velho Continente e as suas comunidades islâmicas. Por toda a Europa, políticos, intelectuais e opinadores apressaram-se a repudiar o voto suíço, às vezes de forma contraditória. Disseram que a "islamofobia", ou a "xenofobia", ou a "intolerância", ou "o novo anti-semitismo" (sim, houve quem dissesse isto) era a expressão de uma minoria, mas esta minoria teve 57% nas urnas. Disseram que tinham sido os partidos de extrema-direita a promover o referendo, mas a extrema-direita nunca teve essa votação em eleições. Disseram que os suíços são e sempre foram um bando de miseráveis racistas (Cohn-Bendit dixit), mas todos percebemos que um referendo com a mesma pergunta nos países onde a presença do Islão é mais notória teria um resultado semelhante (incluindo a França de Cohn-Bendit) .
É fácil acusar os suíços de serem um bando de sikinheads disfarçados de fabricantes de chocolates. A suiçofobia é uma das paixões mais desulpáveis: é mesmo o último preconceito desculpável de qualquer pessoa civilizada. E, nos tempos que correm, dá aquela sensação de superioridade moral tão necessária às almas sensíveis.
Infelizmente, não explica nada.
Pelo contrário, o resultado do referendo helvético mostra que a integração do Islão na sociedade europeia é ainda um problema, talvez mesmo o problema mais sério da Europa nas próximas décadas. E a culpa não é só dos suíços que votaram a proibição dos minaretes. Os mesmos políticos, intelectuais e opinadores que os condenaram, cheios de indignação, exigem a proibição do shador na rua, no emprego e na escola. Ao que parece, proibir uma mulher de se vestir como quer é laicidade, mas proibir uma comunidade de construir como quer é intolerância. Convenhamos que baralha o pessoal.
Porque, no fundo, do que se trata é de definir uma identidade colectiva. O voto dos suíços não é uma resposta "cristã" à "invasão" muçulmana. Nenhuma sociedade da Europa pode ser hoje qualificada de "cristã". Mas não há dúvida que o referendo materializou e exprimiu o receio difuso de que a Europa esteja a "islamizar-se". A proibição dos minaretes é um conflito simbólico, mas não se trata de um conflito menor. Nem só de pão vive o homem. Pão têm os suíços e os europeus com fartura. O que o referendo vem dizer é que querem mais qualquer coisa: querem pertencer a uma comunidade, mesmo que o digam excluindo os símbolos do que lhes parece ameaçá-la. De nada serve idealizar o Islão e dizer-lhes que estão errados. A Europa precisa de reinventar o contrato social que lhe permitiu reerguer-se das ruínas do pós-guerra. Por outras palavras, precisa de recriar a sua identidade. Não lhe chega ser um Estado-providência continental e o mercado mais rico do mundo. Se chegasse, havia lugar para os minaretes. A Europa precisa de definir valores comuns. O que não é nada fácil. Mas só definindo esses valores, a Europa perderá o medo dos minaretes.
publicado por Pedro Picoito às 18:38 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Séries da década (6)

Duas temporadas que mergulham no período mais fascinante de Roma: da República ao Império. Uma série que segue as aventuras de dois soldados, Lucius Vorenus e Titus Pullo, que se atravessam na vida de personalidades como Julio César, Marco António ou Cícero. Sem o glamour pouco consistente que Hollywood nos habituara, esta é uma das sérias mais realistas sobre Roma.
publicado por Nuno Gouveia às 17:40 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

A manutenção dos tachos

A falta de vontade do PS em criar uma qualquer solução governativa na AR (seja uma coligação, um acordo parlamentar ou a simples não-hostilização dos restantes grupos parlamentares, de modo a criar condições para negociações futuras - tudo responsabilidade exclusiva do PS) e os ataques cerrados (e brejeiros) vindos do PS para o Presidente da República - alguém que num cenário de maioria relativa lhes interessaria cortejar se desejassem, de facto, governar -, renovados agora com a promulgação da suspensão da entrada em vigor do Código Contributivo, mostram, até para os distraídos, que o PS e o seu governo já desistiram dessa coisa apelativa que é o exercício dos poderes executivo e legislativo. No estado em que este PS já está, o único objectivo por agora é tentar colocar um socialista na presidência, de forma a manterem os tachos por quatro anos em vez de por dois ou dois e meio.
publicado por Maria João Marques às 17:25 | comentar | partilhar

Vem aí o fim do mundo

Prevê-se agora que, a continuar assim, o aquecimento mundial até ao final do século subirá 3 graus ou mais. Iremos ter uma subida regular das águas do mar, não de centímetros mas de metros. O que fará desaparecer algumas ilhas e recuar as zonas costeiras de certos países marítimos, como o nosso. Os excessos climáticos, chuvas torrenciais, ventos ciclópicos, tsunamis, furacões, tremores de terra e, por outro lado, secas, calor excessivo, desertificação, decréscimo das florestas, sensível diminuição da biodiversidade, vão tornar-se frequentes. Não é uma perspectiva agradável para ninguém, sobretudo para as jovens gerações.

Mário Soares, em mais um artigo notável do candidato derrotado nas presidenciais de 2006.
publicado por Nuno Gouveia às 16:42 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Sempre os mesmos (blague do século?)

- Quem afundou o Titanic?
- Iceberg. Um judeu. Como sempre.*

Serge Gainsbourg (Lucien Ginzburg)

*Ahmadinejad sobre as manisfestações contra o regime: «É uma mascarada nauseabunda que os sionistas e os americanos organizaram, e para a qual compraram bilhete, ficando apenas como espectadores. A nação iraniana já viu muitas destas mascaradas.»
publicado por Jorge Costa às 15:43 | comentar | partilhar

Como é que se diz "ständische Herrschaft"* em português?

* Designação proposta por Max Weber de uma forma de domínio patrimonialista mediante o qual o pessoal governativo e o poder administrativo se apropriam dos recursos económicos da sociedade.
publicado por Miguel Morgado às 13:38 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Ainda a década


Outra das imagens da década, segundo a AP. Uma apoiante de Hossein Musavi. Uma mulher corajosa. Revindicando um rosto, a promessa de liberdade, de expressão, de lugar na praça pública.

Parece que o regime iraniano está em decadência. A contestação sobe de tom, radicaliza-se, como aconteceu neste último domingo sangrento (ler hoje a boa cobertura e análise no Público).

O Irão inaugurou, em 1979, a erupção da teocracia islâmica como atracção fatal. Foi saudada por gente - por vezes notável, pelo seu trabalho propriamente filosófico, como Michel Foucault (Cf. Miguel Morgado) - da esquerda, mais ou menos, quase sempre mais, radical. Não há dúvida que muitíssimos intelectuais tiveram ao longo de todo o século XX uma forte queda para o flirt com a abjecção mais sumária. Não há imbecilidade sartriana que as hostes «gauche» não aproveitem como ocasião. Chega Chavez? Viva Chavez!, e assim por diante (obviamente que, se possível, à direita as coisas foram ainda piores: tinham ideias interessantíssimas, dizia Hannah Arendt às gargalhadas). Gente acósmica, ou para utilizar um termo menos técnico, imunda, etimologias equivalentes (daí a nossa admiração por ela, Aron, ou Octavio Paz, que brilharam pela integridade moral, quaisquer que sejam os erros de avaliação política que possam ter cometido). Como será o seu luto pela morte do regime iraniano?

Esta fotografia é bela, e não faz mal que seja. O gesto da mulher também é.
publicado por Jorge Costa às 12:32 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 28.12.09

A década


Esta fotografia foi eleita, pela Associated Press, uma das fotografias da década. Um homem cai da Torre Norte, em 11 de Setembro. Há qualquer coisa nela a que não consigo aderir, que me afasta: o seu lado artístico, as linhas, o belo efeito, o sentido da composição, quando o que se está a passar... Mas não consigo deixar, mesmo assim, de olhar para ela. Apesar de tudo dá que pensar, na sua quase abstracção. E evita o horror óbvio, saturante, paralizante. Mixed feelings. Se calhar gosto. Se quiserem ver o slideshow completo, é aqui.
publicado por Jorge Costa às 20:54 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (5)


Andreas Möller.

Quando rumou para a Juventus, chamaram-lhe TurboMöller, em homenagem à sua velocidade. Houve quem vaticinasse um penoso final de carreira assim que essa velocidade lhe sumisse das pernas. Mas ele não teve dificuldade em reconverter-se num atacante inteligente, grande passador e estrondoso rematador. Nervos de aço e mentalidade vencedora fizeram com que Möller fosse uma das figuras obrigatórias das últimas grandes selecções alemãs. Enquanto ele por lá andou com Matthäus e Bremen e Mathias Sammer, quem jogava com a Alemanha não tinha ilusões.
publicado por Miguel Morgado às 20:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Discos da década (5)

(Cat Power, The Greatest, 2006)

publicado por Nuno Gouveia às 19:26 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Videntes e economistas

Paul Krugman

Infelizmente para todos nós, e inclusivamente para o vidente José Sócrates, Paul Krugman não vê sinais nenhuns de melhoria no horizonte da economia. Segundo o economista, «há uma chance razoavelmente elevada de a economia se contrair no segundo semestre de 2010». Qual economia? A economia. Dos EUA, é claro, a tal que, quando se constipa, provoca uma epidemia.

Sócrates (parece António Costa, mas não é, é mesmo ele) depois de «ver sinais claros»
publicado por Jorge Costa às 16:47 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Jogadores que nunca venceram o prémio FIFA (4)


Gheorghe Hagi. O "Maradona dos Cárpatos".

Julgo que certa vez, provavelmente nas vésperas do Campeonato do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, Anghel Iordanescu - o seleccionador romeno - disse que a preparação da equipa para o torneio consistia fundamentalmente em "motivar o Hagi".
publicado por Miguel Morgado às 11:46 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Gaza, um ano depois

Sderot

Há um ano começava a ofensiva do exército israelita contra o terrorismo em Gaza. Depois de um processo de intensificação dos bombardeamentos do Hamas contra as cidades israelitas fronteirças (Sderot, Akskhelon, etc.), com morteiros e rockets, que atingiu um pico em 2008, com 2500 explosões, e estava em crescendo acentuado nos meses de Novembro e Dezembro, a 27 de Dezembro as Forças de Defesa de Israel fizeram o que não podiam continuar a evitar: invadir o território inimigo e destruir o máximo de infra-estruturas ofensivas possíveis.

Eram conhecidos os perigos da guerra que não podia mais ser adiada. O Hamas não se limita a atacar indiscriminadamente alvos civis do inimigo. Usa sistematicamente escudos civis para as suas operações, fazendo de mesquitas, escolas, hospitais, etc., as suas bases. Qualquer operação de destruição dessas bases envolveria forçosamente baixas civis, provavelmente em grande número, por muitos cuidados que se tivesse, como foi o caso, com um investimento maciço no aviso prévio às populações para abandonarem os alvos do ataque. O Hamas não se limitava a saber isso: a guerra foi provocada com o objectivo óbvio de expor Israel aos perigos referidos, deslocando depois o terreno de combate para a cena mediática, onde o contra-atacante se expunha à reprovação internacional. Mas o Estado israelita não podia deixar de fazer a guerra, sob pena de abdicar da sua primeira e mais elementar função: dar garantias de protecção às suas populações. Para chegar onde pretendia, o Hamas não recuou nos meios, e usou quanto pôde a sua população como carne para canhão numa guerra de propaganda. (Arrisco-me a especular que, para o momento escolhido para lançar a ofensiva, além do facto óbvio de estarem em intensificação os ataques do Hamas, contou a circunstância de estar no horizonte, para breve - 20 de Janeiro -, a tomada de posse de Obama, um homem de quem era legítimo desconfiar, mesmo depois das efusivas declarações, em campanha, sobre a indivisibilidade de Jerusalém).

Menos de um mês depois, a 21 de Janeiro, Israel retirou, sem que se percebesse muito bem o balanço. De facto, os objectivos da ofensiva militar nunca foram claramente explicitados pelo Governo israelita, de modo que se tornava difícil avaliar o seu cumprimento, sobretudo porque, se os bombardeamentos do Hamas diminuíram, não cessaram por completo.

Além disso, estava definitivamente lançada a controvérsia mundial, com a condenação de Israel a fazer ouvir-se nos mais diversos quadrantes. 1400 mortos palestinianos depois, o Hamas parecia ter atingido os seus objectivos, e era incerto - até por falta de definição - o cumprimento dos objectivos por parte do contra-atacante.

Onde a condenação de Israel não obedecia ao padrão ideológico forte do islamismo político, a palavra-chave era: reacção desproporcionada. Portugal e o seu ministro dos Negócios Estrangeiros usaram a expressão até à náusea. Que me lembre, nunca lembrou a nenhum jornalista que ouvia a expressão condenatória perguntar a luminárias como Luís Amado o que poderia ser uma reacção proporcionada a um inimigo que ataca alvos civis por sistema e usa escudos civis por sistema. Um massacre generalizado, ao modo do Hamas?

Um ano depois, o balanço já não é tão incerto: dos 2500 bombardeamentos do pico de 2008, 2009 ficou com um registo de menos de 250. Em Israel, respira-se um ambiente de calma tensa. Sabe-se que a qualquer momento os ataques terroristas podem voltar em força. Mas a calma tensa é a normalidade do país, quando não está em guerra aberta.

À redução dramática da intensidade do bombardeamento, não é alheia a destruição dos meios para o fazer, por parte das Forças de Defesa de Israel, durante a ofensiva no ano passado e, assim, é mais fácil agora ver objectivos razoáveis cumpridos. Em particular, foram seriamente afectados quilómetros de túneis que, pela zona fronteiriça de Rafah, serviam de rota de trânsito para o armamento do Hamas.

Acresce que o Egipto reforçou as medidas de controle da fronteira, sendo a principal preocupação dos terroristas palestinianos, neste momento, as obras da uma barreira metálica subterrânea - isso mesmo -, que o governo de Hosni Mubarak está a construir, para impedir a reabertura dos túneis e das ligações.

Rafah

O cerco ao Hamas aperta-se. O que não impediu que ontem 3000 activistas do movimento saíssem à rua, gritando: «Fomos nós que ganhámos, somos nós os vencedores!». Loucura? Ou a referência é ao relatório Goldestone e suas sequelas, inquestionável vitória do Hamas, como os líderes do movimento proclamam eufóricos?

publicado por Jorge Costa às 10:49 | comentar | partilhar
Domingo, 27.12.09

Hattie McDaniel - Gone With the Wind

Hattie McDaniel ganhou o Óscar de melhor actriz secundária pela sua participação em Gone With the Wind (1939). Em baixo coloco as imagens da entrega do prémio a Hattie McDaniel e do curto discurso de agradecimento à "Academia" que proferiu diante dos seus concidadãos. Note-se a ausência da "questão" racial nas palavras proferidas por uma actriz que conseguiu, com trabalho e talento, um desempenho magistral em que deu corpo, voz e alma a uma personagem inesquecível.

publicado por Fernando Martins às 19:54 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Bombas, vida, liberdade, etc.


Não é forçoso que falemos apenas daquilo que presumimos saber um pouco, porque estudámos. Sobretudo se não botarmos sentenças. Vem isto a propósito deste pequeno post, sobre segurança nos aeroportos, assunto de que só tenho a experiência comum de qualquer viajante.

Por muito estranho que possa parecer, mas se virem bem não há nada de estranho nisso, nunca me sinto tão seguro, quando viajo de avião, como quando viajo para Israel na El Al. Porque será que o país e, presumo, a companhia aérea mais apetecida pelo terrorismo mundial é calmamente reconhecida como a mais imune a atentados, como o prova o seu histórico (sim, claro, também os houve, mas parece que se levou a sério a adopção de medidas que impedissem a sua repetição)?

Chega-se a Madrid, e depois de uma longa viagem até ao ponto extremo onde está a manga do avião da El Al, apresentamo-nos ao guiché de embarque. Vem uma entrevista muito sui generis. O que vai lá fazer, se já lá foi, quanto tempo vai lá estar, se tem lá amigos, onde vai ficar, etc., etc.

A impressão imediata, desde a primeira vez que passei pelo interrogatório, é a de que quem me está a interrogar se está literalmente a marimbar para o que eu digo. E porque carga de água é que a substância das minhas respostas podia ter qualquer interesse em termos de segurança?

Em contrapartida, tem-se a impressão de que se está a ser observado até ao mais ínfimo detalhe. O melhor é deixarmo-nos ir na onda. Não temo nada, e tenho a vaga sensação de que a verdadeira fronteira, entre a segurança e a insegurança, se está a passar naquele momento. Agradeço. Depois, é o reconhecimento pessoal da bagagem de porão (aconselho, pois, os possíveis viajantes para Israel a nunca aceitarem voos com 1h30 de intervalo em Madrid, ou por onde forem, porque se arriscam a ficar em terra, tal a necessária morosidade dos procedimentos).

Em mais nenhuma companhia, das que voam para Tel Aviv, as coisas se passam assim. Os seus procedimentos de segurança têm sido criticados com os mais diversos argumentos.

Sugere-me um amigo que reputo saber destas coisas, que está a ficar claro que as normas de segurança vigentes estão a começar a falhar. Diz ele que temos estado concentrados nos meios usados pelos terroristas, em vez de nos concentrarmos nos executores dos atentados. Presumo que seja essa a filosofia da companhia mais segura do mundo, embora disso nada saiba, excepto o que relatei em cima.

Fiquei a pensar no assunto, e ficaram aqui lavradas as minhas ruminações de leigo. Costumo dormir descansado, nas cinco horas que em Madrid me separam de Tel Aviv. Ignoro até que ponto a experiência e os métodos da El Al são generalizadamente aplicáveis. De uma coisa estou certo: se fôssemos por aí, teríamos os estrepitosos gritadores do costume indignadíssimos com mais um atentado às liberdades, à democracia, etc. Com a paranóia securitária, como diz aquela gente.

O pequeno detalhe de a mais elementar das nossas liberdades, a de podermos deslocar-nos sem pôr em risco a vida, estar sob ameaça não os comoverá. Mas isso já nós sabemos.
publicado por Jorge Costa às 16:24 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Uma visão simplista


Na edição de Natal da revista Visão, questiona-se se Jesus Cristo é de esquerda ou de direita. A pergunta é absurda, como é evidente. Mas nem por isso este tipo de simplificações históricas deixa de ser comum. Há quem veja em Cristo um idealista, precursor do comunismo, assim como existe em alguns círculos conservadores a crença de que o comunismo nasce, em parte, da obra de Platão. Esta forma de os compreender é reveladora da nossa profunda incapacidade em ler o passado e, mais ainda, torna evidente a nossa ignorância quanto ao presente. Identificar comunismo na obra de Platão (ou na vida de Cristo) denuncia uma tripla ignorância: sobre a obra de Platão (ou sobre a vida de Cristo), sobre o comunismo, e sobre a História. Mais que tudo, trata-se um recurso simplista, sinal do quanto é fácil esquecermo-nos da História. E, finalmente, um sintoma dos malefícios de um fraco modelo de Educação.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 13:31 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Serão OVNIs?


«Há agora sinais claros de que estamos a retomar lentamente um caminho de recuperação», disse José Sócrates.

Quanto a gente séria e coisas sérias, com referência à bela entrevista a Tolentino Mendonça que o Paulo Marcelo aqui linkou em baixo, destaco, e o critério é apenas porque vem a propósito, sendo a entrevista toda ela de leitura recomendada, a última pergunta e resposta:

O país também vive dias assim, de "hesitação e descrédito". Portugal aflige-o?

Olho-o com esperança e procuro contagiar outros. Temos de perder o medo.
publicado por Jorge Costa às 12:10 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Tolentino Mendonça

Não deixem de ler a entrevista de Tolentino Mendonça, publicada ontem no jornal i. Para além da erudição que se percebe nas suas respostas a Maria João Avillez - mesmo as citações são oportunas e naturais -, o que mais me impressiona é a simplicidade com que fala do seu caminho em busca de Deus. Sem cair em beatices ou pieguices deslocadas, o padre e poeta Tolentino Mendonça consegue trazer o fenómeno religioso com naturalidade para o espaço público e para o mundo da cultura, de onde tem andado estranhamente afastado.
publicado por Paulo Marcelo às 08:25 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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