Segunda-feira, 01.03.10

Estado de negação 10/10 II

Um dos aspectos que me deixa boquiaberto em posições como a de José Reis é, já não digo o não equacionarem a mais radical das consequências políticas do que defendem - o salto em frente para União como a consumação do desaparecimento do Estado soberano português, ou do que resta dele - mas isto: não compreenderem que não há democracia sem ele. Fora dele, na «União», seremos administrados. Talvez porque José Reis - e digamos a verdade: quantos, quantos, quantos lunáticos medíocres que povoam as fileiras da nossa imensa classe política não alinham pelo mesmo diapasão (mesmo quando não têm, como José Reis, coragem para expor o que vagamente intuem)? -, talvez porque José Reis, dizia, ignora que a democracia é um regime que pressupõe um Estado soberano e, este, uma nação, uma tradição de consentimento, comunhão e solidariedade forjada pela história, esse passado que se recusa a deixar de ser presente - excepto no pensamento tecnocrático dos economistas economicistas e outras pessoas assim, fatalmente distraídas (Cf. Pierre Manent).
publicado por Jorge Costa às 20:46 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

A democracia é o pior dos sistemas, exceptuando todos os outros (2)

Ainda sobre o estudo de André Freire e José Manuel Viegas que refiro mais abaixo, uma pequena nota. Ao que parece, o PSD é o partido português onde há um maior desvio entre o posicionamento político dos seus representantes e o dos seus militantes, estes mais à direita do que aqueles. Outra evidência empírica para quem conheça o PSD. O Miguel Morgado, numa célebre conferência do Instituto Sá Carneiro, já tinha chamado a atenção para esta dissonância cognitiva, pedindo o respectivo remédio.
Na altura, lembro-me bem, choveram as críticas cruzadas dos liberais laranjas e dos herdeiros de Bernstein. Há quem no PSD continue dar por adquirido que as eleições se ganham ao centro (ok) e não há qualquer risco em defraudar o core vote do partido (ko). Resultado: o CDS teve mais 200 mil votos nas últimas eleições. Nem todos vieram do Bloco de Esquerda.
Também são estes desencontros entre eleitores e eleitos que minam legitimidade da democracia. Às vezes (poucas, eu sei), a culpa é nossa.
publicado por Pedro Picoito às 17:34 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Uma derrota de Passos Coelho?

Desconheço os matizes locais da derrota de Miguel Relvas para a Assembleia Concelhia do PSD de Tomar, um lugar que ocupava há vinte anos.
É impossível, no entanto, não ver uma relação entre essa derrota e o facto de Miguel Relvas ser porta-voz da candidatura de Passos Coelho à liderança do partido.
O que significa duas coisas muito importantes para as próximas directas. A primeira é que, no PSD, não há vencedores antecipados. A segunda é que ninguém pode dar por adquiridos os votos dos militantes.
Chama-se a isto democracia. E começa em casa.
publicado por Pedro Picoito às 17:02 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A democracia é o pior dos sistemas, exceptuando todos os outros


Os portugueses estão insatisfeitos com a democracia, diz um estudo de André Freire e José Manuel Viegas hoje citado pelo Público. Mas não era preciso que o ISCTE fizesse um estudo: bastaria ouvir e ver o que se passa à nossa volta para concluir o mesmo empiricamente.
A culpa pode ser da crise económica, dos partidos ou do sistema judicial, mas tem um nome próprio: José Sócrates. O Primeiro-Ministro usa a mentira como método político e a democracia, regime em que a legitimidade vem do contrato social, não resiste muito tempo à permanente desconfiança em quem governa.
Juntemos a isto a crise de representação do Parlamento e dos partidos e, portanto, a crescente abstenção eleitoral.
Juntemos a degradação do aparelho judicial, com os processos explosivos que não chegam a lado nenhum (vide Casa Pia), a violação sistemática do segredo de justiça e, agora, as suspeitas gravíssimas sobre o Procurador-Geral da República e o Presidente do Supremo Tribunal.
Juntemos a repugnante promiscuidade entre o poder económico e o Governo que o caso Face Oculta confirmou.
Tudo somado, a única surpresa consiste em tanta gente acreditar ainda que "a democracia é o pior dos sistemas exceptuando todos os outros", como proclamava Churchill. Apesar de tudo, há alguma esperança. Até quando?
publicado por Pedro Picoito às 16:05 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Da série "A concorrência faz melhor"

Ou como um incréu explica que o debate sobre a eutanásia foi reduzido a uma questão de fé pela militância progressista.
publicado por Pedro Picoito às 15:58 | comentar | partilhar

Estado de negação 10 na escala 10 (act.)

O que torna interessantíssima a entrevista do Professor José Reis hoje ao Público é a clareza com que põe os problemas.

É no plano europeu, defende ele, que o problema português deve encontrar solução. Não é aqui em casa. É lá fora. Primordialmente lá fora. Como? Com integração orçamental, do mercado de trabalho e social. Como ele diz: «Nesta fragilidade crescente das nações do euro, se não tivermos forma de caminhar e abrir horizontes, ficamos com sérios problemas. É evidente que uma integração orçamental, de mercados de trabalho ou social não se faz de um dia para o outro. Ao pé disso, criar uma moeda única foi uma coisa simples. Contudo, abrir esse caminho como cenário alternativo é essencial. Provavelmente, não encontramos via de resposta aos problemas actuais que não seja esta.»

Esta - é a abolição definitiva do Estado português. É o caminho da União Política. Até que enfim, encontro alguém, em quadrantes que não são os meus, que diagnostica a seriedade da situação assim, nestes termos, como me tenho esforçado por fazer há já bastante tempo.

A diferença está em que eu considero essa saída inaceitável. Não estou na disposição de me desfazer disto – de Portugal – assim, sem luta e sem honra. Também não acredito, valha-nos isso, que a Europa esteja na disposição de nos comprar, mesmo em saldo. Felizmente, a «Europa», no fundo, não é um problema económico, ou exclusivamente equacionável como problema económico, como quer o pensamento economicista do Professor José Reis. É mais, bem mais do que isso, e as nações da Europa não estão para nos aturar. Fazem bem, e eu agradeço.

O Professor José Reis não vê nessa rejeição da Europa um problema insolúvel. Diz ele que isso passa «por combates que mesmo uma nação portuguesa pode fazer.» O combate pelo fim do que lhe resta como existência soberana. Seria o nosso último combate.

Estou a exagerar a vontade de aniquilação que preconiza o Professor José Reis? Ouçamo-lo. Também ele pensa, como eu, que «o cenário de desagregação da zona euro é um cenário possível. É um cenário em que os problemas de uma economia como a nossa seriam muito maiores e que, por isso, é bom contrapor outros cenários.»

Quais? Pois «é necessário que, à escala global, se encontrem substitutos ao que os países foram noutras fases da história económica. Tivemos fases que foram muito centradas nos Estados-nação e sabemos que hoje isso se mantém, mas com fragilidades que não havia anteriormente. Provavelmente a grande vantagem europeia é que nós podemos, a uma escala supranacional, repercutir uma imagem do género da que os Estados-nação representavam, com capacidade de intervir directamente em formas de regulação que tenham a ver com o crédito, financiamento, fluxos financeiros e questões orçamentais.»

Em suma; para o Professor José Reis, que elabora, como não vi ninguém fazer, até hoje, na esquerda, com tanta clareza, sobre o problema português e a solução desejável, o problema português é um problema económico. A nação e o Estado, o Estado-nação um empecilho à sua resolução. É bem provável, pelo caminho que as coisas levam, que a grande distinção entre a esquerda «progressista» e a direita conservadora se venha a fazer nesta clivagem: entre advogar Portugal e advogar o seu fim.

É verdade. Concordo. As coisas nunca estiveram tão negras. O haraquiri é que não me parece uma opção. Como dizia Schopenhauer, querendo talvez dizer algo diferente do que eu quero, o suicídio nunca é solução, porque é já sempre tarde de mais.

Estamos, felizmente, condenados a resolver os problemas aqui – e não na Europa. Sim, claro. Vai doer muito. Mas não há escape para isso, como sonha o Professor José Reis.

P.S.: Não vou elaborar, porque o espaço não é infinito, na cómica contradição que afecta o pensamento do Professor, quando defende o Estado contra os que o acham «colonizado por interesses» e, por isso, um «monstro» hipertrofiado, defendendo, acto contínuo, o seu desaparecimento na Europa. Provavelmente ele entende por Estado uma coisa diferente do que eu entendo. Para ele Estado talvez seja governança, administração de coisas. Para mim é a forma política pela qual um povo existe na era moderna. Mas isso dava outro post.
publicado por Jorge Costa às 13:14 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Paulo Rangel tem razão

Paulo Rangel disse</span> ontem que, apesar de criticar a actuação do Procurador-Geral da República, esta não é a altura do PSD contribuir para o desvio das atenções. Pela actuação que tem tido, e depois de ter sido apanhado a mentir, Pinto Monteiro encontra-se numa posição de grande fragilidade. Já fez tudo para merecer ser corrido pelo Presidente da República. O governo nunca o fará, pois costuma revelar-se grato aos seus serventes. Mas a questão central é a actuação do governo e do Primeiro-ministro. O PSD não deve desenvolver iniciativas que sirvam para retirar os holofotes do caso político e centrá-los no aparelho judicial, pois isso contribuirá para branquear a actuação lamentável de José Sócrates e do seu grupelho. Que Pinto Monteiro provou ser indigno do cargo que ocupa? Não tenho a menor dúvida. Que o PSD deva fazer desse o seu cavalo de batalha? Nada disso, deve centrar-se no problema político deste caso, nomeadamente na actuação de José Sócrates. Até porque me parece que Pinto Monteiro tem o destino traçado à frente da PGR.
publicado por Nuno Gouveia às 12:24 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

pesquisa

 

posts recentes

links

Posts mais comentados

últ. comentários

  • ou podre
  • http://fernandovicenteblog.blogspot.pt/2008/07/si-...
  • O pagamento do IVA só no recibo leva a uma menor a...
  • O ranking tal como existe é um dado absoluto. Um r...
  • Só agora dei com este post, fora do tempo.O MEC af...
  • Do not RIP
  • pois
  • A ASAE não tem excessos que devem ser travados. O ...
  • Concordo. Carlos Botelho foi um exemplo de dignida...
  • ou morriam um milhão deles

tags

arquivos

2014:

 J F M A M J J A S O N D

2013:

 J F M A M J J A S O N D

2012:

 J F M A M J J A S O N D

2011:

 J F M A M J J A S O N D

2010:

 J F M A M J J A S O N D

2009:

 J F M A M J J A S O N D

2008:

 J F M A M J J A S O N D

2007:

 J F M A M J J A S O N D

2006:

 J F M A M J J A S O N D

subscrever feeds