Segunda-feira, 05.04.10

Furores

Tanta aflição e gritaria, tanta decepção mal disfarçada pelas palavras do papa, do nosso patriarca e demais tropa eclesiástica. Especialmente, da parte da "esquerda" militantemente idiota (i. e., aquela que vai orneando à volta do Bloco e do PS). No fundo, lamentam (com comprazimento interior) que os dignitários da Igreja não façam como eles: desatando numa gritaria ridícula de pregadores de vão-de-escada.
Bento XVI himself proferiu já palavras duras (*) - palavras de gume bem mais cortante do que as indigentes cabeças dos nossos pequenos ateus anti-clericais poderiam alguma vez regurgitar. O padrão dessa malta ululante é o da primeira página do 24 Horas ou o do simplismo estúpido (isto é, mediático) à Fátima Campos Ferreira: petrificar toda a complexidade num sim-ou-não.



(*) 'Em particular, houve uma tendência, ditada por recta intenção, mas errada, a evitar abordagens penais em relação a situações canónicas irregulares.
(...) Procedimentos inadequados para determinar a idoneidade dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa; insuficiente formação humana, moral, intelectual e espiritual nos seminários e nos noviciados; uma tendência na sociedade a favorecer o clero e outras figuras com autoridade; uma preocupação deslocada pelo bom nome da Igreja e para evitar os escândalos, que tiveram como resultado a malograda aplicação das penas canónicas em vigor e a falta da tutela da dignidade de cada pessoa. É preciso agir com urgência para enfrentar estes factores, que tiveram consequências tão trágicas para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho a um ponto, a que nem sequer séculos de perseguição tinham chegado.
' [sublinhados meus em versão corrigida, já que a portuguesa deixa a desejar.]
publicado por Carlos Botelho às 14:52 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Argumento curioso

Como defender Sócrates do rasto de Sócrates? - na verdade, como defender, desesperadamente, Sócrates de si mesmo?...
publicado por Carlos Botelho às 14:27 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Uma espécie de banalização do mal

Esta "não notícia", ao ajudar a banalizar as malfeitorias de José Sócrates, é um dos maiores e mais úteis fretes políticos que o Público e José António Cerejo podiam fazer ao dito cujo. Admito que involuntariamente.
Adenda: No entanto, e se lermos esta notícia do Jornal de Negócios, percebemos que José Sócrates e os seus assessores não perceberam a natureza e o alcance do frete.
publicado por Fernando Martins às 13:05 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Notícias de Além-Mundo

Parece que só lá fora os nossos problemas - a quadratura do círculo - são visíveis. Talvez seja um reflexo, uma defesa contra o desastre. Até lá, não me doa a cabeça. Ou talvez a tagarelice nos seja um traço congénito. Já não se pede aos políticos que nos restam que debatam problemas cruciais. Mas que ninguém o faça, no espaço da opinião pública, é que é um pouco mais angustiante. Assim, de vez em quanto, lá vem um sobressalto de Silva Lopes, ou um texto críptico de Luís Campos e Cunha (read my lips). Mas, em geral, os economistas que costumavam contar desapareceram para parte incerta. Sérgio Rebelo há lustros que já cá não está, e, sem que se perceba muito bem porquê, das últimas vezes que alguém acordou para lhe perguntar qualquer coisa, deu-se ao luxo de dizer vacuidades destas. Entretanto, convinha que nos habituássemos ao vocabulário inerente à coisa: dinâmica da dívida em deflação. Para leitura adicional, espreitar aqui.
publicado por Jorge Costa às 13:04 | comentar | partilhar

Botabaixismo


Mesmo sem Ferreira Leite, parece que o «botabaixismo» continua na nossa vida pública. A reportagem de hoje no jornal Público é mais um exemplo de uma «campanha suja». Fala de cerca de 21 projectos assinados pelo engenheiro técnico José Sócrates Pinto de Sousa, durante um período (1987-1991) em que era deputado na Assembleia da República com dedicação exclusiva. Mais um exemplo do perfil profissional e humano do actual Primeiro-Ministro. A falta de qualidade dos projectos é patente nas fotografias e nas críticas que sofreu na altura na Câmara Municipal da Guarda. José Sócrates chegou mesmo a ser afastado pela Câmara, em 1990 e 1991, da direcção técnica de obras particulares, depois de ter sido várias vezes advertido pela falta de qualidade dos seus projectos e da falta de acompanhamento das obras, chegando a ser ameaçado com sanções disciplinares. Mas o principal problema é que esta mediocridade ganhou eleições e se mantém à frente do governo do País. Com resultados visíveis. Bem piores que umas casas pindéricas na Guarda.
publicado por Paulo Marcelo às 10:14 | comentar | ver comentários (14) | partilhar
Domingo, 04.04.10

Eugen Terreblanche

Cada um é o mártir que pode ser. Cada um, individual ou colectivamente, tem os mártires que merece. Cada um cria os mártires que pode e como pode. Voluntária ou involuntariamente. Ontem nasceu um mártir: Eugene Terreblanche.
publicado por Fernando Martins às 23:50 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

A Europa ao espelho

Muitas vezes me interroguei sobre a razão de ser de Israel, um país diminuto (menor do que o Alentejo) e singularmente desprovido de recursos naturais (certamente que não simbólicos), a braços desde sempre numa luta de cada dia pela sobrevivência (nem a cegueira mais activa consegue convencer-se da natureza essencialmente territorial do conflito), desencadear entre gentes de todo o mundo tanta paixão desencontrada, com o lado do ódio especialmente empenhado.

É claro que a situação e a explicação difere absolutamente, conforme falemos do Ocidente liberal e democrático ou do mundo árabe e muçulmano. E não há-de ser por acaso que os termos em que o problema mobiliza paixões são significativamente diferentes, conforme as margens do Atlântico.

Julgo que ninguém tocou no problema como o filósofo francês Pierre Manent, no livro que, nada por acaso, traduzi para português - A Razão das Nações, Reflexões sobre a Democracia na Europa. O livro não é sobre esse problema. É sobre a crise do Estado-nação e o seu significado último na história da Europa. Mas faz do «sentimento» europeu, pelo menos desde 1967, em relação a Israel o revelador do problema que quer analisar. Aqui ficam os parágrafos finais do livro.

Uma boa leitura.

***
O restabelecimento de Israel coloca às nações europeias uma questão bem mais difícil, e em todo o caso bem mais íntima, do que a que é colocada pela chegada, ou retorno, do Islão. A democracia europeia já não sabe ver virtude, senão no que é «geral» ou «universal». Ora, os judeus, cujo destino, testemunhando sucessivamente os limites da cristandade e, depois, do Estado-nação liberal, parecia apelar à vinda de uma humanidade que mais nenhuma separação interior romperia, não podem construir Israel, senão por um combate de cada instante, e encontrar segurança apenas atrás de um longo muro. O Estado judaico põe a descoberto aos olhos dos europeus os limites de um universalismo que eles acreditavam poder deduzir do longo infortúnio dos judeus. Ele obriga os europeus a reconhecer o seguinte: vão e vazio é um humanismo que pretenda destacar-se integralmente de qualquer responsabilidade para com um povo particular ou de uma perspectiva distinta sobre o bem humano. Vã e vazia é a Europa que quiser confundir-se com o corpo em crescimento da humanidade em geral. A existência plenamente nacional do pequeno Israel interpela a enorme Europa, bem como cada uma das nações que a compõem, e convida as nações europeias a não se esconderem por detrás da Humanidade.

*
Que respondem os europeus? Que respondemos nós? Oscilamos entre duas respostas que se reconduzem a uma. Evoquei há pouco a primeira, que não é mais que uma recusa de resposta: sendo, a União Europeia, em suma, a vanguarda da humanidade em via de unificação definitiva, não temos outro ponto de vista que não seja o da própria humanidade. De acordo com a segunda, temos, sem dúvida, um «ponto de vista europeu» distinto – o que quer dizer, por exemplo, ou especialmente, não americano! Decorre da «cultura europeia», ela própria fundada em «valores europeus». Que «valores europeus» são estes? O valor europeu que os resume a todos é a «abertura ao Outro», é um universalismo «sem fronteiras». A particularidade europeia reside, então, numa abertura particularmente generosa à generalidade, ou à universalidade humana. O que quer que seja que se pense dessa generosa avaliação da nossa generosidade, é claro que não mencionamos a Europa senão para a anular. Só conhecemos a humanidade! Não temos existência própria, não queremos, não queremos de modo algum, um ser próprio, que seria necessariamente particular.

Admitamos por um momento a pretensão europeia a não ser, no meio destas presenças incómodas – chinesa, americana, israelita – senão ausência pura. Admitamos que dizemos alguma coisa quando falamos de «valores europeus». Se estamos a um tal ponto «abertos ao Outro», então estamos abertos, sem dúvida, ao que o Outro diz de nós, levamo-lo a sério e avaliamo-lo com escrúpulo. Vimos, por exemplo, que nem os muçulmanos, nem Israel confundem a Europa com a própria humanidade. Acham-nos bem mais «substanciais» do que nós nos sentimos a nós próprios. Por vezes, acham-nos mesmo francamente «pesados».

Uma vez que os outros o dizem, é provável que, apesar de tudo, existamos e sejamos qualquer coisa.

Essa qualquer coisa, não a procuremos muito longe! Não partamos em busca de um nome inaudito, de uma definição sofisticada! Sobretudo, não a procuremos no futuro, num regime novo, num homem novo! Já tentámos isso tudo e recompusemo-nos sempre, depois de experiências de duração e crueldade variáveis. Recentemente, tivemos a pretensão de descobrir ou inventar uma forma verdadeiramente nova e instalámo-nos numa palavra: «Europa». Estamos em vias de sair dela, descobrindo que não há coisa alguma por detrás da palavra, ou antes, que há outra coisa – outra coisa que essa palavra trai.

Como se sabe, a verdade entre os homens escapa frequentemente num lapso. O esforço para definir a Europa, ou antes, para não a definir foi a ocasião de um imenso lapso colectivo. De onde veio, não sei, mas, enfim, o princípio foi repetido por todas as vozes autorizadas: a Europa não é um clube cristão. A proposição parece de análise difícil. Primeiro, é claro que a União Europeia é originalmente um clube, que os seus membros fundadores se cooptaram à maneira de um clube, mesmo se, como vimos, acabaram por ser ultrapassados pelos novos «aderentes». Depois, não há, nem pode haver, «clube cristão»: os novos membros da Igreja não são cooptados, mas recebidos na comunhão. Se a União Europeia é originalmente um clube, e não pode haver clube cristão, que dizemos quando dizemos que a Europa não é um clube cristão? Que queremos dizer? Queremos dizer, sem dúvida alguma, que a Europa não é cristã, mas não podemos dizê-lo. Algo nos impede de dizer que a Europa não é cristã. A única coisa que nos impede de dizer que a Europa não é cristã é o facto de ela o ser efectivamente.

Aqui é preciso prestar muita atenção. A proposição não significa que «os Europeus são cristãos». Esta última proposição releva da estatística e esta, para fornecer uma informação útil, reclama um conhecimento objectivo das subjectividades, conhecimento que eu disse ser impossível no começo desta reflexão. E se nos contentarmos com a plausibilidade, essa proposição não é muito plausível, também o fiz notar. A proposição segundo a qual a Europa é cristã não releva tão-pouco de um desejo; não contém um apelo implícito ao «devir cristão». Não se trata aqui de transformar o mundo, apenas de compeendê-lo. E essa compreensão do carácter cristão da Europa concerne tanto ao não crente como ao crente. Enfim, a proposição não é «cultural», como quando se diz que, sem sermos certamente crentes, somos ainda «de cultura cristã». Ao dizermos isso, não dizemos nada, ou então apontamos confusamente para aquilo que eu tento trazer à luz, e que é objectivo e político.

Eu não considero os sentimentos subjectivos, mas as articulações políticas do mundo comum. «Construindo a Europa», «alargando a União Europeia», tentámos, uma vez mais, sair da Europa e deixar para trás a nossa condição europeia. Uma vez mais e, talvez, pela última vez. Depois da nação sagrada, depois da classe, depois da raça, é em nome da própria Europa que desta vez tentámos escapar à condição europeia. Os nossos governantes bem podem esfalfar-se e morigerar-nos. Parece que, desta vez, é em vão. A nossa condição, mais forte que as nossas mais fortes paixões, está em vias de nos retomar.

O povo judeu, regressando a Israel, cumpriu a sua «saída da Europa». Quero dizer: graças ao restabelecimento do seu Estado, deixou de estar espiritualmente dependente das nações europeias, onde vivia ou vive ainda. É a saída de uma sequência histórica muito longa. Não é apenas a consequência da destruição dos judeus da Europa; é também o que se segue ao apagamento de si em que laboram as nações europeias desde há vinte anos, com um zelo que espanta. Estando assim «saído da Europa», o povo judeu convida a Europa a dizer o seu nome. Pede-lhe o seu nome.

A Europa tenta escapar à obrigação de responder, escondendo-se atrás da multidão, transformando-se em multidão. Os seus «membros» nunca são suficientemente numerosos! Assim, julga ela afastar indefinidamente a questão do «corpo» que ela constitui ou ao qual pertence. Mas a vacuidade espiritual da Europa indefinidamente alargada é tal, que a questão regressa com uma urgência acrescida. Quem pode viver num mundo humano desprovido de qualquer forma?

Reentremos então nessa Europa real, que nos esforçamos em vão por abandonar. A promessa de comunhão contida na proposição cristã, e em primeiro lugar desenvolvida no império cristão e na Igreja romana, cada nação a refractou nos seus costumes e na sua língua para uma apropriação mais íntima, até absorver a Igreja na nação cristã, até transformar a nação em Igreja. A ideia democrática foi simultaneamente uma reduplicação e uma simplificação da promessa. Ela suscitou a actualização de todas as potências da nação. Porque deveriam o estiolamento da nação europeia, hoje, e a sua humilhação metódica, que descrevi atrás, significar o fim dessa forma política? De facto, não temos outra. Mas já não confundimos a nação com a Igreja. Essa sabedoria dolorosamente adquirida reconduz ao primeiro plano a comunhão mais larga que hesitamos em nomear. Hesitação feliz num sentido, pois não se trata de pôr o nome cristão sobre os estandartes. Trata-se de continuar a aventura europeia, cuja longa frase inacabada procura ligar o mais estreitamente possível a liberdade à comunhão, ligá-las conjuntamente até que elas se confundam.
publicado por Jorge Costa às 18:38 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Ressuscitou



Joahnn Sebastian Bach, BWV 249 Easter Oratorio, Sinfonia
publicado por Paulo Marcelo às 00:12 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 03.04.10

Eles e Nós


Há quem vaticine o recuo da integração europeia como resultado da crise financeira que a margem sul da Europa vive actualmente. Mas se há algo que os últimos 30 anos indicam é que há qualquer coisa de auto-propulsionado na centralização do poder na União Europeia. Os impasses aparentes convertem-se sempre em novos passos em frente. Por isso, talvez seja mais seguro prever que desta crise financeira resultará mais federalismo, mais centralização, menos autonomia dos Estados-membros. Um exemplo: os economistas sempre avisaram que sem centralização fiscal, a União Monetária vacilaria diante de um grande choque. Não obstante, fez-se a dita união sem federalismo fiscal. Agora, os europeístas mais convictos têm a oportunidade e o trunfo de que precisavam. Chama-se Grécia/Portugal. É a oportunidade para criar um orçamento europeu digno desse nome, com imposto europeu à mistura. É a ocasião para justificar sobretudo a desinibida ingerência política e económica nos Estados que não sabem comportar-se. Doravante todos os que desconfiarem da centralização do poder europeu e do federalismo estarão condenados a jogar à defesa. Afinal, não ficou demonstrado que de outro modo as integrações económicas se tornam disfuncionais?

E Portugal? Até meados dos anos 90, Portugal sonhou com a "convergência real". Era uma questão de tempo até sermos como "eles". Longe de ser uma miragem, era uma matéria concreta e até quantificável. Depois, veio o euro. No início, todos pensaram que o euro era precisamente a confirmação de que estávamos muito perto de nos confundirmos com "eles". Fosse por causa de uma taxa de câmbio excessivamente apreciada, fosse devido à nossa proverbial indisponibilidade para viver com regras disciplinadoras que uma união monetária impõe, o certo é que o euro foi o ponto de viragem nas nossas ilusões. A apreciação real que a nossa economia sofreu desfez todas as fantasias. "Eles" acabaram por ficar cada vez mais distantes. Nós por cá, frustrados pela pobreza, pela estagnação infindável, talvez até enfeitiçados por uma resignação fatalista, sentimo-nos mais e mais seduzidos pela ideia de nos tornarmos numa colónia do Norte. Sem grandes entusiasmos, é verdade, e arrastando os pés.

Diante da alternativa que seria sempre custosa e morosa (basta pensar nos longos 15 anos que a paciente e disciplinada Alemanha demorou a corrigir os seus desequilíbrios), este destino aparece como razoável. Nem o sorriso trocista do Norte nos dissuade, nem o desastre que o projecto anuncia nos demove. O medo do futuro justifica muita coisa.
.
publicado por Miguel Morgado às 12:43 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Sexta-feira, 02.04.10

Escolhas

Leio no Expresso que os alunos dos 2º e 3º ciclos têm 14 (catorze!) disciplinas, e que a reorganização dos currículos, que o ME está a ponderar, passa por transformar algumas delas em disciplinas semestrais. A ideia em si não me parece má. Mas, pensada por esta gente, desconfio que torne numa péssima ideia: porque razão, em 14 disciplinas, vão logo escolher para tornar semestrais algumas das mais importantes (História, Ciências Naturais, Física-Química)? Afinal, o que é que se pretende com esta reorganização?
publicado por Alexandre Homem Cristo às 23:29 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Borges, sionista


Um dia, aqui, perguntaram-me se ser sionista era possível para um não judeu. Limitei-me a citar nomes de não judeus, que se contam, inclusive, entre os precursores do sionismo, entendendo-se por sionismo a resposta política ao problema judaico: regresso secular à terra prometida, construção de um Estado judaico em Eretz Israel, a Terra de Israel. Por uma injustiça de proporções cósmicas, não referi o nome de um dos mais célebres entre os sionistas não judeus do século: Jorge Luís Borges (também não referi Nabokov e inúmeros outros, de modo que as falhas não ficam assim colmatas). Mas, de Borges, aqui deixo hoje o poema que escreveu em 1969 (depois de 1967, e com ressonâncias desse ano), recolhido em Elogio de la Sombra (recolhido no segundo volume das Obras Completas).

Israel, 1969

Temí que en Israel acecharía
con dulzura insidiosa
la nostalgia que las diásporas seculares
acumularon como um triste tesoro
en las ciudades del infiel, en las juderías,
en los ocasos de la estepa, en los sueños,
la nostalgia de aquellos que te anhelaron,
Jerusalén, junto a las aguas de Babilonia.
Qué otra cosa eras, Israel, sino esa nostalgia,
sino esa voluntad de salvar,
entre las inconstantes formas del tiempo,
tu viejo libro mágico, tus liturgias,
tu soledad con Dios?
No así. La más antigua de las naciones
es también la mas joven.
No has tentado a los hombres con jardines,
con el oro y su tedio
sino con el rigor, tierra última.
Israel les ha dicho sin palabras:
Olvidarás quién eres.
Olvidarás al otro que dejaste.
Olvidarás quién fuiste en las tierras
que te dieron sus tardes y sus mañanas
y a las que no darás tu nostalgia.
Olvidarás la lengua de tus padres y aprenderás la lengua del Paraíso.
Serás un israelí, serás un soldado.
Edificarás la patria con ciénagas; la levantarás con desiertos.
Trabajará contigo tu hermano, cuya cara no has visto nunca.
Una sola cosa te prometemos:
tu puesto en la batalla.
publicado por Jorge Costa às 12:14 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Pois é

«O estado do Estado é muito grave e este terá capacidade limitada para cumprir as suas funções essenciais, por muitos anos. As suas funções sociais e de apoio aos mais vulneráveis estão já em crise. E a culpa é dos Governos da última década e, em particular, do actual. Mas também é culpa de todos aqueles que pensavam, escreviam e lutavam por um Estado gastador e se opuseram a medidas de consolidação orçamental em devido tempo. Por isso, os portugueses vão ter mais injustiça social, mais desemprego e pagar juros mais altos. Há alternativa? Claro que há. Se nada for feito os portugueses vão ter ainda mais injustiça social, ainda mais desemprego e pagar juros ainda mais altos. É escolher, Némesis vingou-se e o PEC é o seu instrumento.»
.
-- Luís Campos e Cunha, Público, 2.04.2010
publicado por Miguel Morgado às 10:16 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Quinta-feira, 01.04.10

Uma polémica extremamente

É o artigo mais bem feito que até agora li sobre a polémica supremamente fantástica relativa aos alegados agentes da Mossad, envolvidos na liquidação de um importante operacional do Hamas, no Dubai. Agradeço a O Insurgente a pista.
publicado por Jorge Costa às 21:28 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Talvez existam pessoas assim. Talvez

Estou à espera do meu tempo

Nogueira Leite é um homem com «um código moral e ético muito mais exigente do que a lei impõe», que quer contribuir para o «pensamento estruturado» em Portugal. (Aparentemente a entrevista foi dada toda no mesmo dia e pela mesma pessoa, sempre em português.)

Sobre ter sido secretário de Estado de Pina Moura:

- Disseram que precisavam de mim por ter pontes em vários lados.

- Não me saí muito mal, a imprensa andava comigo ao colo. O Pina Moura era o mau da fita e eu era o bonzinho - serviu de contraponto.

É um estigma?

- O meu currículo é demasiado vasto (...).

Sobre ter pensamento livre, pensamento estruturado:

- Quando bato em alguém, bato sabendo que estou a bater. Quando bato em Pacheco Pereira, sei que o estou a fazer. Estou convencido que é uma das pessoas que fazem pior à democracia portuguesa. Não é bom ter uma pessoa que tenta ser a referência moral do regime, quando no fundo é uma pessoa que vive da polémica. A contrapartida é o tempo de antena. Um tempo que não é gracioso como o meu. É um tempo de antena profissionalizado.

Dinheiro?

- Obviamente. E não tem mal nenhum. Mas no plano ético, ele tem muito a aprender comigo. Não está à vontade para lançar aquelas polémicas; só o poderia fazer, se, como eu, não recebesse para fazer televisão.

O que o faz correr?

- Boa pergunta. Ainda não encontrei aquilo por que me apetece correr. Gostava de deixar qualquer coisa feita e ainda não percebi muito bem o quê.

- Reconheço que com esta minha postura corro o risco de me transformar em Marcelo Rebelo de Sousa dos economistas [riso]. Ou seja, uma pessoa que podia ser e nunca foi.

Final (sobre o Twitter)

- Não estou a falar do Pacheco Pereira; discordo dele em muitas coisas, mas é um homem inteligentíssimo e um adversário fantástico. Depois há aqueles que gostavam de ser assim..., e são esses que manipulo.

Fim.
Jornal de Negócios
publicado por Jorge Costa às 18:50 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Humor involuntário

publicado por Alexandre Homem Cristo às 17:35 | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Portugal Profundo


(Clique para ver melhor)

O Cachimbo bate em retirada para local seguro com nome inspirador. A foto retrata a logística da operação, dos vários camiões fretados pelo Picoito o que aparece na foto carrega parte da biblioteca pessoal dedicada à fenomenologia.
publicado por Manuel Pinheiro às 09:15 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Filho de Mãe Incógnita

Ontem, perante uma comissão de inquérito parlamentar, alguém da J. P. Sá Couto reivindicou para esta empresa a "paternidade" do computador Magalhães. Resta saber se, por causa das voltas que o mundo tem dado, o célebre computador ainda fica filho de mãe incógnita ou se descobre que a sua gestação decorreu afinal em barriga de aluguer. Sem dramas.
publicado por Fernando Martins às 00:19 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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