Quinta-feira, 29.04.10

Bloga a Bloga

(Saudações atrasadas) Foi reactivado o ABC do PPM, o que são sempre excelentes notícias.
E um grupo de alunos (liberais, presume-se) de Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos - Universidade Católica vai começar a blogar no "Alunos do Liberalismo". Dêem-lhe gás.
publicado por Miguel Morgado às 22:17 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A banda sonora para o estado do país

publicado por Alexandre Homem Cristo às 20:00 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Confusões

John Maynard Keynes (com a sua mulher, a bailarina Lydia Lopokova - de onde roubei a fotografia, lê-se na legenda: once a bloomsberry hippy, always a bloombsberry hippy).

Markets can remain irrational a lot longer than you and I can remain solvent.

Os governos da crise da dívida soberana (claro que quando as coisas ficarem mesmo graves se estenderá para lá da dívida soberana), como já está designada para a história, confundiram «a lot longer» com «forever». E agora acusam os «mercados», quer dizer, os investidores, as agências a quem estes compram (maus: concedo, e não digo mais) serviços de avaliação de risco, etc., de terem terminado malévola e abruptamente com a ilusão (chamam a isto um ataque especulativo). Queriam, em suma, irracionalidade para sempre.
publicado por Jorge Costa às 17:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Ter razão ao retardador

O Ministro das Finanças reconheceu hoje que as obras públicas onde o Estado não assumiu compromissos definitivos, estão a ser estudadas com o objectivo de se centrar "nos projectos prioritários, de modo a podermos aliviar e reduzir o impacto financeiro". Demorou muito. Demasiado. Gostava de saber se isto se aplica ao TGV, à nova travessia do Tejo e à "terceira" auto-estrada Lisboa-Porto. E a ver vamos se ainda vai a tempo de evitar a bancarrota.
publicado por Paulo Marcelo às 16:45 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Um pouco de arquivo

De há não muitos anos atrás, muito bem lembrado pelo Jornal de Negócios: "Cavaco Silva avisou. Há sete anos, um confronto entre o então professor de economia Cavaco Silva e o já governador Vítor Constâncio ficou célebre." Dizia Cavaco:

«Um país, mesmo que seja uma região num espaço monetário unificado, não pode endividar-se sem limites. No médio ou longo prazo, um défice continuado das contas externas acaba por manifestar-se sob a forma de aumento do prémio de risco, racionamento do crédito ou transferência de activos das mãos nacionais para as mãos de estrangeiros. O ajustamento torna-se inevitável, i.e., a despesa das famílias, das empresas e do Estado tem de ser contida

O PS pensou de forma diferente, não sem suporte eleitoral, diga-se. Ou da generalidade dos media.
publicado por Manuel Pinheiro às 15:20 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Há-de ter uma lógica, mas eu não a descortino

Deixemos de lado o facto de Passos Coelho ter afirmado que o PSD deveria votar contra o OE2010 e a resolução do PEC, usando o argumento de que só se deveriam viabilizar contra a suspensão imediata do programa de TGV, novo aeroporto de Lisboa e novas auto-estradas - tendo Manuela Ferreira Leite justificado a viabilização de ambos com, quanto ao primeiro, a necessidade de não deixar o país sem um orçamento e, no segundo caso, com o interesse nacional perante a instabilidade dos mercados financeiros (sendo que discordei desta decisão para o PEC) - para presentemente vir 'entender-se' com o governo, a bem do interesse nacional, conseguindo o PSD a grande vitória de obter compromissos do governo que este já pretendia implementar e sem que o PS prometa suspender os grandes investimentos públicos que PPC entendia fundamental para dotar o estado de um orçamento e viabilizar o PEC. Afinal mudanças de opinião de PPC não são propriamente tão raras quanto os avistamentos do monstro do Loch Ness.

Contudo há neste 'entendimento' com o governo uma incongruência que eu não entendo. Dizia a comunicação social (eu, graças a Deus, não estou no inner circle que decide estas coisas tão importantes) que a oposição a Sócrates e ao PS abandonaria os ataques ao PM e ao seu percurso tão cheio de sombras para se concentrar na degradação da situação económica, que faria cair o governo mais cedo ou mais tarde (eu não vejo porque há-de a primeira excluir a segunda, mas mentes mais brilhantes deverão ter uma resposta muito convincente). Ora se se pretende fazer oposição realçando as fraquezas da economia, tenho duas questões:

1) Porque diabo se patrocina um entendimento com o governo - algo que ultrapassa qualquer viabilização de OE ou PEC - e se compromete o PSD com a política económica que será seguida ao abrigo desse entendimento?

2) Porque se afirma que o momento presente resulta de 'ataque especulativo' - algo que desresponsabiliza os governos do PS - em vez de se reconhecer que a instabilidade bolsista, as reduções dos ratings dos bonds portugueses e a subida da yield dos nossos títulos da dívida pública sucedem porque os mercados financeiros são lúcidos - diz o Miguel, implacáveis - a reconhecer a trajectória portuguesa - fraco crescimento, aumento da despesa pública, défices orçamentais absurdos e crescimento da dívida pública imparável - sendo que esta trajectória é exclusivamente da responsabilidade das políticas socialistas?

Guterres disse uma vez que a AD de Marcelo e Portas era o seguro de vida do seu governo. Com esta oposição tão compreensiva da parte do PSD, não tarda Sócrates estará a fazer referências idênticas a PPC.
publicado por Maria João Marques às 13:48 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Tindersticks "Marbles" 1993


publicado por Nuno Lobo às 13:47 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

A Alemanha, a Europa e Nós

Quaisquer contas com um mínimo de razoabilidade nos pressupostos – crescimento económico expectável, (in)capacidade política para fazer reformas que suscitem expectativa de crescimento futuro, interacção muito negativa entre cenários ideais de reajustamento nos níveis de despesa e evolução imediata do produto real e nominal – dão uma inevitabilidade que toda gente conhece neste momento: Portugal, a economia portuguesa, a sociedade portuguesa estão insolventes. Não estão em condições de satisfazer compromissos já assumidos e que se vencem no futuro.

Porque é que a insolvência não se converte automaticamente numa crise de incumprimento? Porque os diabólicos mercados assumem que alguém vai cuidar de resgatar o insolvente no momento em que se vencerem os seus compromissos. Por múltiplas razões: a principal das quais é que a falência do insolvente em causa pode ter consequências dramáticas para os agentes à sua volta, que, agindo racionalmente (?), em nome dos seus próprios interesses, o socorrerão para evitar um mal maior.

Esse socorro, porém, pode ter, num prazo mais longo, consequências ainda mais nefastas do que os efeitos negativos que pretendia evitar.

Desde logo sinaliza aos credores do costume – os malditos mercados, essa gente sinistra a quem os aforradores de todo o mundo confiam as suas poupanças para que eles as apliquem da melhor maneira possível – que, por exemplo, mentir sobre a situação das contas públicas próprias, acumular indefinidamente dívida pública e privada errando estrondosamente no desconto dos rendimentos futuros para honrar os compromissos correspondentes é possível, pois quando a insolvência estiver na iminência de produzir uma bancarrota, há alguém – supunhamos, apenas for the sake of the argument, a Alemanha – que não deixa falir.

Como é lógico, o jogo é terrivelmente perverso, pois o risco não desaparece por magia. Passa é a ter de ser suportado pelo «cobertor alemão», chamemos-lhe assim. Quer dizer: o «cobertor alemão» não se limita a pagar, no momento da bancarrota iminente, os compromissos não honráveis do prevaricador – «mediterrânico», chamemos-lhe assim. Passa a pagar permanentemente o risco acrescido que representou, ele próprio, ter uma vez estancado com dinheiro seu a falência iminente do «mediterrânico» (mesmo que as condições de resgate futuras se tornem explicitamente mais gravosas do que as presentes.) Além de que, quem resgata um resgata dois, etc., e é fácil de ver onde acaba a coisa, dada a circunstância actual.

A situação é complicadíssima para o «cobertor». Não tem poder para governar o «mediterrânico»; só tem o dever de o libertar de apuros no momento em que o desgoverno deste tiver, por acumulação, gerado uma situação crítica. A isto, há quem chame «solidariedade europeia». É o tipo de solidariedade à qual, muito compreensivelmente, os cidadãos do país «cobertor» não estão dispostos, e os seus políticos, democraticamente eleitos, em primeira e última instância só perante eles responsabilizáveis, entendem não patrocinar. A essa renitência há quem chame «chauvinismo», falta de «sentido de Europa».

É bem possível que a melhor caracterização do dilema alemão – resgatar ou não resgatar – seja a da no-win situation: questão tornada irrelevante, vista do futuro. O resultado será o mesmo. A verdadeira alternativa é: ou o(s) país(es) que cobre(m) passa(m) a governar, ou as ambiguidades do projecto europeu, que ganharam uma potência letal no passo da União Monetária, têm de ser desfeitas. Como a primeira alternativa não é possível – e, presumo que nisso todos concordarão comigo, desejável – o caminho está traçado.
publicado por Jorge Costa às 13:03 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Teste de Fogo

No i de hoje.
publicado por Miguel Morgado às 10:53 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

A dimensão das turmas não é um factor a ter em conta

Desculpa lá, Carlos, mas o Alexandre tem a evidence do seu lado. Pelo menos é o que indica o relatório que a McKinsey publicou em 2007, "How the world's best-performing school systems come out on top". A dimensão das turmas não é um factor a ter em conta no desempenho escolar dos alunos: de 112 estudos que analisaram o efeito que a dimensão das turmas tem no desempenho dos alunos, apenas 9 verificaram um efeito positivo, 89 não detectaram qualquer efeito e, inclusivamente, 14 manifestaram um efeito negativo significativo. Por outro lado, tal como o Alexandre refere, e ainda de acordo com o mesmo relatório de 2007, a qualidade dos professores é o elemento mais relevante para a melhoria dos resultados escolares: dois alunos médios acabarão, num período de 3 anos, por divergir em mais de 50% em função da qualidade do professor que cada um tem. O Movimento Escola Pública e o Mário Nogueira e companhia lá saberão o que os move. Mas talvez não fosse pior apostarem antes no aumento da exigência no acesso à profissão e num regime de prestação de contas dos professores, capaz de acompanhar o contributo que, de ano para ano, cada professor dá aos seus alunos.
publicado por Nuno Lobo às 09:46 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

Ideias assim-assim

Não vale a pena tentar desmerecer uma iniciativa dizendo que provém de "Mário Nogueira e companhia". Primeiro, porque ela será boa ou má por si mesma. Segundo, porque ela parte de gente muitíssimo variada e contrária - o que, por si, já deveria fazer pensar, antes de dispararmos logo a matar.
Aqueles gráficos, como é óbvio, são enganadores. Para se aferir o número de alunos numa sala de aula concreta, não basta dividir a totalidade dos alunos pelo número de professores existentes, obter-se um "rácio" (uma delícia, esta palavra) e, depois, virmos, ufanos, proclamar que cada docente tem diante de si nove ou dez criancinhas. Isso é delírio. Calma.
Aqueles gráficos são somente uma perspectiva sobre a realidade. Se erigidos como o ponto de vista por excelência adequado a ela, transformam-se em perversões.
É claro que a dimensão das turmas não é o factor decisivo, mas é, sem dúvida, um dos factores a ter em conta. Parece-me desnecessário explicar porquê.
A diminuição do tamanho de turmas será uma opção cara e esse pode muito bem ser um critério a ter em conta (não esqueçamos que os recursos não abundam) que, com justiça, não permita a adopção dessa política, mas não é por isso que devemos tapar o sol com uma peneira. Mais: a diminuição é um objectivo desejável (independentemente da sua possibilidade presente).
Hold your horses, camarada Alexandre.
publicado por Carlos Botelho às 09:45 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Esta gente é só boas ideias

Esta petição, organizada por Mário Nogueira e companhia, quer turmas mais pequenas. É, claro, uma enorme perda de tempo e impede-nos de debater o essencial na Educação – e logo agora que se decretou a abolição do chumbo por faltas. O que precisamos não é de turmas mais pequenas, até porque nem sequer temos turmas grandes (como se vê nos gráficos abaixo), mas de uma reforma no sistema educativo. Tout court.

A diminuição do tamanho das turmas é a mais popular, mais simplista, mais cara e menos eficaz das políticas educativas que se faz pelo mundo fora. O erro está em julgar que o aproveitamento dos alunos depende de um único factor, neste caso no tamanho das turmas. Não é assim. Além disso, entre os vários factores, o mais importante para o aproveitamento escolar dos alunos é a qualidade dos professores: os países com os melhores resultados na Educação são aqueles onde a profissão de professor é muito atractiva profissionalmente (bem remunerada e prestigiada) e de difícil acesso (apenas para os melhores alunos das universidades). Que Mário Nogueira e companhia prefiram fazer petições sem sentido em vez de pensar nisto não é, contudo, surpreendente.


Eurostat, dados referentes a 2007.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 08:44 | comentar | ver comentários (26) | partilhar

Modo de ser

Mais uma vez, ainda mais uma vez, se vê como aquele homem que ocupa São Bento tem uma relação rançosa com a linguagem. Com ele, o que é verdadeiro hoje, revela-se como falso amanhã e nunca o facial corresponde ao real. Bradava aos sete ventos, calcando com as suas patadas impacientes por abafarem a voz dos outros, que, com aquele seu inesquecível "estatuto", se tinha conseguido lograr "um progresso absolutamente extraordinário" na redução do absentismo dos alunos. Quando se gabava, quando vociferava esganiçado as suas hipérboles, sabia que mentia e sabia que enganava os que o ouviam.
A sua insolência irritada à mínima suspeita dos cépticos avisados, é o desespero antecipado de se ver descoberto - o que o põe fora de si é o saber que aqueles que dele duvidam têm razão. Não há nada mais insuportável para o mentiroso contumaz e arrogante do que suspeitarem da própria patranha que apregoa. E faz então uma espécie de fuga para a frente: estrebucha, ridiculariza e insulta os cépticos. Está na tensão contínua de se saber a mentir. Num movimento simultâneo de antecipação (que pretende neutralizar o saudável antídoto que os outros possam aplicar ao seu discurso venenoso), ele aumenta as dimensões da sua mentira, engrandece-a mesmo ("progresso absolutamente extraordinário" aqui e fantasias semelhantes relativas às energias renováveis, etc.), para que ela se imponha, por assim dizer, pelo seu próprio tamanho. Quanto mais profunda a mentira, mais ela se impõe como verdadeira - como ensinou o outro.
Não é com a verdade que a personagem que, por ora, habita São Bento, tem "uma relação complicada". Antes disso, ela tem já uma relação rançosa com a própria linguagem. O uso da linguagem pressupõe já uma relação com a verdade. Ora, é precisamente isso que está sempre em xeque quando a criatura abre a boca. O homem tem mostrado ad nauseam que não é de confiança.
Quando se vê ao espelho, talvez já nem tire a máscara. Talvez já nem ele saiba qual é o seu rosto autêntico.
publicado por Carlos Botelho às 01:53 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 28.04.10

"Os problemas nacionais e a ordem da sua solução"

Aqui também se citou Salazar nestes dias de brasa. Aliás, com muito propósito. Mas o propósito não foi nem outro aniversário da revolução dos cravos, nem mais um aniversário (o 82.º) sobre a chegada ao Governo, dessa vez para ficar, do "mago" das finanças, nem tão pouco para evocar o 121.º aniversário do nascimento do doutor Oliveira Salazar.
publicado por Fernando Martins às 23:25 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Nem tudo é igual

Apesar de tudo, há diferenças. Notórias: 200 pontos não é brincadeira. Do futuro, nada sei*.

*À parte do que está em cima: só sei que a demagogia expiatória (com os bodes chamados agências de rating, mercados, especuladores e outros demónios) vai entrar em hiper-inflação. Numa crise que mexe radicalmente com as nossas vidas, com contornos complexíssimos, que obrigariam ao menos a alguma modéstia e estudo dos problemas, com a abdicação dos actores políticos entrados em regime de salve-se-quem-puder, com essa necessidade humana, muito humana, de reduzir tudo ao esquema binário para ter lugar garantido do lado do bem contra o mal, ao menor preço possível, a demagogia, a mentira, o simplismo, a vozearia estridente vão dominar o espaço público. Não ajuda nada. Mas é inevitável.

Noutra altura, isto até teria graça.
publicado por Jorge Costa às 22:40 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Ver, ouvir, e pensar - a dívida externa (mediada em grande parte pela banca) está a explodir



Pedro Braz Teixeira.
publicado por Jorge Costa às 22:10 | comentar | partilhar

Dar uma lição aos boches (só para não lhes chamar uma coisa pior).

Os alemães e a Alemanha são muito engraçados. Mas são, sobretudo, perigosos. No século XIX, ainda se chamavam prussianos e Prússia, mas queriam construir a Alemanha – uma Alemanha que só podia ser imperial e imperialista –, provocaram os dois maiores e consequentes conflitos militares da Europa do pós-guerra da Crimeia. Depois da guerra com a Áustria, em 1866, na terceira guerra de unificação alemã, em 1870-1, Berlim impôs à França uma paz cartaginesa. Subtraiu-lhe a Alsácia e a Lorena e, para além dos exércitos do novo Reich terem ocupado território francês muito para além daquilo que era politicamente razoável, determinou o pagamento de compensações financeiras que, além de humilhantes, pretendiam quebrar a economia gaulesa durante mais de uma geração. Os franceses, inesperadamente, não só pagaram como construíram em finais do século XIX e no início do século XX uma economia de tal forma eficiente que lhes permitiu financiar parte do milagre económico russo ocorrido entre 1905 e 1914, como fazer face a sucessivas ofensivas militares germânicas que, iniciadas no fim do Verão de 1914, só terminariam na primavera de 1918.
No século XX, os alemães, além de terem provocado duas guerras mundiais, arranjaram sempre maneira de escaparem às suas responsabilidades. Entre 1919 e 1929, conseguiram que fossem os norte-americanos a financiar o pagamento da quase totalidade das compensações de guerra, mais do que justas, que lhes tinham sido impostas pelos vencedores em Versalhes. Fizeram-se de vítimas, disseram que não podiam pagar, da mesma forma que consideraram as amputações muito limitadas em população e em território de que foram alvo a maior das injustiças. As elites alemãs e o povo alemão não descansaram enquanto não inverteram o veredicto de 1919. Primeiro, pacificamente, sem Hitler e sem os nazis. Depois de 1933, com estes chefiados por aquele e na ponta das baionetas. A II Guerra Mundial acabou como acabou e, não fosse a Guerra Fria, a Alemanha teria sido politicamente fragmentada e profundamente desindustrializada. Além disso, os alemães teriam sido obrigados a pagar à Europa a destruição causada entre 1914 e 1945. No entanto, o medo do expansionismo comunista por parte dos ocidentais e ou os receios do imperialismo norte-americano por parte da URSS, fizeram com que a Alemanha fosse poupada e mais uma vez escapasse ao seu destino.
A partir de 1949 a Alemanha viveu normalmente, apesar de dividida em duas até 1989, facto que velhas raposas da política como Kohl ou Brandt sempre quiseram e conseguiram fazer render politicamente, na Alemanha como no exterior. Finalmente, em 1989, os europeus, os russos e norte-americanos aceitaram a reunificação da Alemanha. O monstro renascia. Depois de 1990 a economia europeia e a economia da União Europeu conheceram duras penas por causa dos custos económicos e políticos da reunificação alemã. Conheceu, sofreu, mas também calou e aceitou. Não tinha alternativa? Talvez. Mas hoje é evidente que a “Europa” fez mal.
Por outro lado, se até 1990 a Alemanha não foi politicamente na Europa e na União Europeia aquilo que a sua economia lhe permitia ser, depois de 1990 a Alemanha não se cansa ditar aquilo que a União Europeia e a Europa devem ser e podem ser. A Alemanha aceitou uma moeda única, mas esta teve que ser feita à imagem do deus marco, da mesma modo que a sede do BCE não podia ficar noutro sítio que as benditas terras do Reich restaurado. O calendário do alargamento da União pós-1990 fez-se para satisfazer os interesses alemães, do mesmo modo que a Europa e a União tratam com a Rússia ou com a Ucrânia, já para não falar dos Balcãs, nos termos em que a Alemanha exige. Os "fundos estruturais" – pagos, diz-se, sobretudo pelos pobres alemães – são distribuídos segundo os seus subidos interesses. Pelo meio, o mercado europeu, dos países que gastam e produzem muito, pouco ou quase nada, está aberto à indústria alemã, da mesma forma que a abertura da Europa ao comércio com os mercados emergentes afecta ou afectará certamente a indústria portuguesa, britânica, grega, espanhola ou búlgara, mas nunca afectará o coração da produção industrial germânica. A Siemens ou a WV, entre muitos outros, jamais permitirão que o livre-comércio afecte os seus interesses – e nem sequer estou a falar em interesses vitais. Cinjo-me a alguns dos mais mesquinhos.
Pelo meio, se o “ocidente” tem que enviar tropas para combater o que quer seja onde quer que seja, os alemães torcem o nariz e não mandam tropa ou mandam pouca tropa. Evocam o seu triste historial expansionista e belicista. Mas, curiosamente, no que diz respeito à guerra os alemães não viram nem nunca viraram a cara à venda de armamento.
Vem tudo is a propósito do facto da Alemanha, ou dos alemães, não quererem dar o seu contributo, enquanto país da zona euro, para o “resgate” financeiro da Grécia. Os alemãs, coitados, parece que não querem abrir os cordões à bolsa, ao mesmo tempo que garantem que o grego, incorrigível povo do sul, gasta muito e trabalha pouco. É indolente. Ao contrário do alemão que é muito trabalhador e já foi maioriária e convictamente nacional-socialista e destruiu mais de meia Europa, do Atlântico aos Urais, entre 1914 e 1945. Os gregos, aliás, que o digam.Parece-me, por isso, que é tempo de acabar com esta lengalenga. Porque o exigem a história e a política, os gregos e a Grécia, e porque o exigem o euro e a zona euro (que não gozam nada da minha simpatia mas facilitam a vida quando vamos para "fora"). Se Miterrand fosse vivo – e como eu detestava Miterrand – certamente já se teria lembrado de uma coisa muito simples. Fechar numa sala o primeiro-ministro grego, o impossível Barroso, o chefe do governo britânico, o presidente francês, a chanceler alemã e dar, discretamente e a quem quisesse ouvir, uma lição de história e de política. Caso a chanceler, coitada, não percebesse e se fizesse outra vez de vítima, como tanto os alemães gostam e muitos dos seus lacaios europeus, e não só, apreciam, ficariam guardadas as próximas semanas para explicar nos media ao mundo aquele que tem sido o papel da Alemanha na Europa (e no mundo) desde 1866. E depois? Depois, o último a sair apagava a luz. Certo e sabido é que é preciso dar aos alemãs uma lição e recordar-lhes que no século XX quando enfrentaram a Europa e os europeus para além do razoável foram derrotados. É certo que uma vez com a ajuda da Rússia bolchevique, e duas com a ajuda dos EUA e do Império Britânico. Mas se não for a bem será a mal. E não me parece que alguém deseje que a Prússia, perdão a Alemanha, faça à Europa no século XXI aquilo que lhe fez impune e desgraçadamente no século XIX.
publicado por Fernando Martins às 18:53 | comentar | ver comentários (19) | partilhar

Coisas Deste Mundo

publicado por Fernando Martins às 18:48 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Entretanto em terras de Sua Majestade

Gordon Brown cometeu hoje um grave erro político, que terá acelerado o fim da sua carreira à frente do governo. Num encontro com uma eleitora do Labour, Brown teve uma breve troca de palavras sobre a imigração. Com um microfone ligado da Sky News, Brown entrou para o carro, e teceu comentários desagradáveis sobre a senhora, nomeadamente dizendo que era uma racista. O que teria sido uma gaffe grave tomou outras proporções depois da reacção da senhora e de um atrapalhado pedido de desculpas de Brown.

Com a fraca campanha que o Labour tem desenvolvido, o terceiro lugar afigura-se cada vez mais provável. E não ficarei nada surpreendido se ficarem abaixo dos 25%. Os Tories já exploraram este episódio, mas tenho dúvidas se não serão os Lib-Dems a ganhar mais fôlego depois dos acontecimentos de hoje.
publicado por Nuno Gouveia às 17:47 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

& ainda s/ verdades

E ainda sobre as verdades que muito agradecíamos que os nossos governantes (lato senso) não descurassem.

Em Janeiro, éramos todos mais ou menos iguais, com excepção da Espanha, um pouco a destoar, negativamente. Dinheiro muito democrático. Depois houve o Orçamento do Estado. Depois, houve o PEC. Lá pelo fim de Março, já tínhamos (os nossos bancos) descolado há algum tempo, quando deixámos finalmente a Espanha para trás. Aí por volta de 10 de Abril, o risco associado aos bancos portugueses picou. Como picou o risco da dívida soberana nas últimas semanas. Como de costume, as agências de rating reagem tarde. Ontem, uma delas, desceu o rating soberano e dos bancos. É falso que «as agências de rating» tenham desencadeado um «ataque». Foram atrás dos mercados.

O Governo assistiu impávido a tudo. E os outros actores políticos também. Temo bem que a reacção que esteja a ser pensada seja totalmente inútil. Porquê? Por isto. Mas a verdade não conhece regras de cortesia. E não espera por convite, para nos entrar casa adentro.
publicado por Jorge Costa às 17:01 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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