Domingo, 05.12.10

Mortos vivos e outras histórias

Ontem, fez trinta anos que Sá Carneiro e Amaro da Costa morreram – e, com eles, a primeira Aliança Democrática entre PSD e CDS, mas, sobretudo, um modo que parecia diferente de fazer política, com mais coragem e menos ‘tacticismo’. Sinal da desesperança e da falta de perspectivas que se vivem em Portugal, nunca como nos tempos que correm se publicaram e venderam tantos livros sobre Sá Carneiro.

Hoje no CM
publicado por Paulo Pinto Mascarenhas às 14:27 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

On (dit que)

Diz que amanhã vão ver se somos resgatados ou não. E diz que o Fundo Europeu de Estabilização Financeira pode ser aumentado antes de 2013. Diz que não. Diz que a Bélgica não é a Grécia, a Irlanda ou Portugal. E diz também que Portugal não precisa de ser resgatado. Muito antes pelo contrário. Tudo depende.
publicado por Jorge Costa às 13:28 | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Reformas no mercado de trabalho

Um dos problemas que impediam a zona euro de ser uma zona monetária óptima era a falta de mobilidade de trabalhadores, bem como a falta de flexibilidade salarial. Sendo certo que as diferenças linguísticas e históricas nunca permitiriam atingir a mobilidade existente nos EUA, tinha feito todo o sentido que um dos critérios de adesão ao euro fosse a introdução de reformas muito significativas no mercado de trabalho. Deveria ter-se apostado em substituir a flexibilidade conferida pela taxa de câmbio (que seria perdida com a adesão do euro) por uma flexibilidade laboral.

Note-se que esta flexibilidade não teria que traduzir-se na uniformização de legislação e de práticas, mas era necessário que fosse concretizada. Não tendo sido concretizada na altura certa, nada obsta a que seja agora introduzida.

Portugal tem dois graves problemas – divergência estrutural com a UE e elevado défice externo – que exigem uma reforma profunda no mercado de trabalho, de molde a tornar o nosso país um destino atractivo de investimento estrangeiro.

De acordo com o Fórum Económico Mundial (Set-10), Portugal tem vindo a perder competitividade, tendo caído da posição 25ª em 2004 para a 46ª em 2010. O elemento que mais contribui para esta baixa posição é o mercado de trabalho, onde nos classificamos na 117ª posição em 139 países. Neste indicador, a Estónia está em 17º, a Rep. Checa em 33º, a China em 38º, a Eslováquia em 40º, a França em 60º, a Alemanha em 70º.

Dentro do mercado de trabalho, os indicadores onde temos a pior avaliação são: práticas de contratação e despedimento (138º, penúltimo lugar!); custos de despedimento (123º) e flexibilidade na determinação dos salários (119º).

O governo pode alegar que já fez importantes reformas, mas os outros países também fizeram e Portugal mantém-se como um dos países do mundo onde é menos interessante criar empregos. Se não conseguirmos atrair investimento estrangeiro vai ser muito mais difícil reduzir o défice externo e voltar a crescer a sério.

Mais grave ainda é o que se poderá passar com os grandes grupos nacionais que vivem fora da dependência do Estado. Estes estão já a apostar na internacionalização, em parte devido às anémicas perspectivas de crescimento económico e fraca rentabilidade dos investimentos em Portugal. Muitos começam a estar em vias de fazer mais de metade do negócio fora de Portugal. Se o agravamento da tributação continuar é bem possível que decidam transferir a sede para outro país.

Os grandes grupos nacionais que vivem dependentes do Estado estão condenados ao definhamento em Portugal e à internacionalização, porque não será mais possível continuar a sustentá-los como até aqui.

Se não conseguirmos atrair novos investidores e perdermos os investidores habituais, iremos afundar-nos ainda mais numa espiral de decadência, de emigração dos melhores, em que cada novo passo gera uma nova degradação.
publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:26 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Foguetes e velas na noite da morte de Sá Carneiro

Nada vou dizer sobre Sá Carneiro. Nem sobre a sua personalidade, nem sobre o seu perfil de estadista, nem sequer sobre o seu legado político. Neste aspecto parece-me que vale a pena constatar a tremenda autoridade que Vasco Pulido Valente ainda mantém sobre os comentadores virados para a direita, pelo menos em assuntos destes. Há uns dias avisou que havia gente a mais a falar de Sá Carneiro. Muitos foram a correr denunciar precisamente a mesma impostura, ao mesmo tempo que falavam do que aparentemente admitiam não saber.
Depois VPV determinou os contornos precisos do "legado" de Sá Carneiro. E os mesmos comentadores lá seguiram obedientes a repetir exactamente o que VPV dissera, sem se atreverem a pôr o pé em ramo verde. Nalgumas coisas Portugal não muda.
Mas numa coisa Portugal mudou. Em Setúbal, na noite em que Sá Carneiro morreu, houve foguetes pelo ar. É verdade. Foguetes que sacudiram os céus da cidade. Rejubilavam. Quem pôde ser tão patife? A coisa não foi feita com dissimulação, e os comunistas mostraram abertamente os seus sorrisos e o seu triunfo. Exibiram provocatoriamente a sua satisfação.
Não é lenda. Não é exagero. Eu era miúdo mas lembro-me muito bem. E lembro-me igualmente bem como as pessoas comuns responderam à afronta. Uma após outra foram aparecendo velas solitárias nas janelas dos prédios. Foi o modo de resistir à intimidação e à barbárie. Ou o respeito e a dignidade contra a infâmia.
Foi assim em Setúbal há 30 anos.
publicado por Miguel Morgado às 10:22 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Grande Finale (76)

Il Postino, Michael Radford, 1994

publicado por Carlos Botelho às 00:00 | comentar | partilhar
Sábado, 04.12.10

Camarate

Ao contrário de muita gente da minha área política, não vejo grande benefício numa nova comissão parlamentar de inquérito a Camarate. É inútil: tendo em conta tudo o que aconteceu nos últimos trinta anos, parece-me impossível chegar hoje a factos conclusivos sobre o acidente/atentado/riscar o que não interessa. Seja qual for o resultado, ninguém ficará convencido. Alguns continuarão dizer que foi crime e o resto do país manterá o cepticismo.
A iniciativa, ainda para mais na data em que vem a público, resvala para o aproveitamento partidário. Desconfio sempre de verdades estabelecidas por decreto. Não há uma verdade de direita e outra de esquerda. E é sempre má ideia aproveitar cadáveres para fazer política.
publicado por Pedro Picoito às 23:43 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Nos começos...

publicado por Carlos Botelho às 23:27 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

A assombração

Ao contrário do que diz esta assombração, com a razia aos mercados tentada pelo BCE na semana passada, o que se percebeu não foi a «determinação» da «Europa» em defender o euro, mas a sua impotência.

Depois de dez anos de resgates proibidos sem que isso obstasse ao empilhamento de dívida, impossível de ignorar a partir do primeiro estoiro em 2008, depois de um ano de violação dupla dos tratados europeus com dois resgates sucessivos - e abortados - na tentativa de «acalmar os mercados», acordados subitamente para a possibilidade da insolvência dos Estados do Sul (mas já não só), Trichet e o BCE, à falta de recursos para travar a ameaça final - uma sucessão em dominó de resgates, com a Espanha, pela sua dimensão, à beira de forçar a ruptura do mecanismo posto a rolar em Maio - limitou-se, na quinta-feira, a explicar ao mundo que a resolução do problema está do lado dos Estados nacionais.

Nenhuma intervenção pontual e espectacular, como a compra que, tudo indica, foi massiva a partir do momento em que iniciou as suas declarações, resolve o problema restante das quantidades abismais de fundos que o sector público e a banca dos Estados mais expostos - com Portugal, embora pequenino, entre os mais desesperadamente carenciados - vão ter de mobilizar para atravessar o ano de 2011.

Na menos gravosa das hipóteses, do ponto de vista do curto prazo, onde aquela assombração está fechada, como explica aqui Alan Greenspan, o aumento do volume de compras pelo BCE fornece à nossa assombração e às assombrações em geral um alívio momentâneo da pressão, sem a qual não agem.

Trichet, ao devolver aos Estados nacionais a responsabilidade pela resolução do problema e ao simular que lhes retira o único incentivo - provado! - para agirem revela bem o impasse, a desorientação e a impotência, em doses explosivas, a que chegámos. Mas não revela mais nada. Salvo àquela assombração.
publicado por Jorge Costa às 19:42 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Soneto de José Régio (1969)

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.
Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado. (...)
publicado por Paulo Marcelo às 17:30 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Margaret Thatcher on Socialism

publicado por Miguel Noronha às 08:37 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sexta-feira, 03.12.10

A "moral" oculta

Alguns têm vindo a apontar que a posição na origem deste post do Fernando Martins (e de outros, como este, este e também este) é "moral" (ou pretende intrometer a "moral" na "política") em contraste com a posição contrária - esta, sim, não "moral", mas limpidamente "técnica" ou "legal". Nada disso. A posição dos que têm defendido a decisão maioritária do parlamento, como opção que é, acaba por ser tão qualificada quanto a contrária, é tão "moral" como ela. Os deputados que, maioritária e vitoriosamente, se levantaram das suas cadeiras na votação, fizeram-no, não comandados por uma qualquer mecânica newtoniana, mas motivados por uma escolha política.
Há um discurso de boa parte da "direita" e da "esquerda moderna" que é desinteressante, confrangedor, por vezes, repelente (exemplos: este, este e alguns comentários que vão aparecendo por aí). Tem mesmo de se fazer um esforço para, sequer, se considerar esse tipo de discurso como político. Mas, insistamos, esse discurso, ainda que tanta vez paupérrimo, não deixa de ser "parcial", "ideológico" - e condicionado "socialmente". (Nesse sentido, já tem um alcance que é político.) A maioria dos que, caracteristicamente, o fazem encontram-se protegidos numa redoma "social" - estão abrigados das consequências das opções que defendem. (E defendem-nas com unhas e dentes, numa espécie de heroísmo do teclado.) Têm sorte. Esse "condicionamento social" inevitável, necessário, da perspectiva seria considerado um corolário do Klassenkampf pelos nossos avós social-democratas (echt Sozialdemokraten.) Sim, têm sorte. Noutros espaços, noutros tempos, teriam de se pôr a milhas. Se conseguissem.
publicado por Carlos Botelho às 23:11 | comentar | ver comentários (18) | partilhar

Cachimbos de lá

Jean-Pierre Gibrat, Mattéo, 2010.
publicado por Pedro Picoito às 19:19 | comentar | partilhar

O Estado segundo o PS (II)

Quanto à suposta imoralidade das empresas distribuírem dividendos relativos ao exercício de 2010 em 2010 para evitar os impostos de 2011, porque os sacrifícios devem ser repartidos por todos, eu estou com o Zé Lucas Martins: preferia, no que à moral diz respeito, que os sacrifícios recaíssem sobretudo no nosso estado insuflado, e cujos gastos nos trouxeram à necessidade de sacrifícios que devem ser justamente repartidos, que já dá ares da sua graça na evasão à contenção das despesas. Há uns dias foram algumas empresas públicas que se isentaram dos cortes nos salários. Hoje é o arquipélago dos Açores e o SNS. Amanhã será o que a imaginação socialista engendrar.
publicado por Maria João Marques às 18:36 | comentar | ver comentários (19) | partilhar

O Estado segundo o PS

Seria interessante um jornal pegar nestas informações do TC e averiguar o perfil das consultoras contratadas pelas empresas públicas e dos proprietários.
publicado por Maria João Marques às 18:10 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Estou cheio de pena por não termos ganho a organização do Mundial

Peço desculpa. Afinal o que interessava mesmo eram os estádios do três grandes. O resto é para implodir. Afinal, aquilo das "novas centralidades" não funcionou muito bem. O chefe também falha. Mas olhem que agora podia ter razão. Uma receita de 300 milhões em 2018 não era de desdenhar. Descontando o que custaram os estádios em 2004 mais a manutenção e uma ou outra obrita de adaptação e se calhar ainda se obtinha um VAL jeitosinho.


(O Sr. daquele blog não precisa preocupar-se. Leva aqui mais um link)
publicado por Miguel Noronha às 17:03 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Efeito Trichet



fonte: goldprice.org
publicado por Miguel Noronha às 16:48 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Tudo bons rapazes

Ontem chamou-me a atenção a notícia de que o líder parlamentar do PS, Francisco Assis ameaçou demitir-se, caso a maioria dos deputados do PS defendesse a viabilização do projecto do PCP que previa a tributação sobre os dividendos distribuídos antecipadamente em 2010.
Aparentemente a maioria dos deputados PS na primeira reunião do grupo parlamentar mostrou vontade de viabilizar a proposta.
O que teria levado o líder parlamentar a esticar a corda e a anunciar mesmo a sua demissão?
A resposta veio poucas horas a seguir. A PT (sem dúvida a principal visada da proposta do PCP), estava ao mesmo tempo a negociar o fundo de pensões com o estado. Anunciado o chumbo da proposta, foi anunciado o acordo com a PT com mais 200 milhões de Euros para ajudar as contas de 2010.
Não há coincidências nem almoços grátis. Eu (PT) dou-te este ano mais 200 milhões de euros pela transmissão do fundo de pensões e tu (Governo) asseguras que o PS não viabiliza a proposta do PCP que iria tributar o dividendo extraordinário.
O resto é poeira.
publicado por Pedro Pestana Bastos às 15:04 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Don't touch my junk! The party goes on

Pois. Estamos todos a ver o mesmo.
publicado por Jorge Costa às 15:00 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Porque hoje é Sexta-feira: Arcade Fire

Tinha esta guardada para o dia 18 de Novembro... para a próxima, organizem a cimeira da NATO numa ilha deserta ou qualquer coisa do género: é bom para todos.

publicado por Nuno Lobo às 13:45 | comentar | partilhar

Ganhos colaterais

ADIOS!

publicado por Ricardo Rio às 11:31 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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