Segunda-feira, 29.08.11

Mais um passo

Não fiquem surpreendidos. Isto acaba por ser o corolário lógico do estado social. Perante uma gritante falta recursos para as ambiciosas tarefas que pretende realizar a solução consiste em restringir ao máximo a privacidade. Se queremos ter acesso às maravilhas do estado-papá (como diria o Prof José Manuel Moreira) temos de aceitar a progressiva redução redução da liberdade individual. Depois de coercivamente nos obrigarem a aderir e pagar esta maravilha do admirável mundo novo.

publicado por Miguel Noronha às 17:31 | partilhar

E se tratassem do corte da despesa?

 

Alguém me explica porque razão o governo português dispende recursos (tempo e dinheiro dos contribuintes) com estes temas? Será que não existem assuntos mais prementes? Será que compete estado português a "protecção das selecções nacionais e dos jovens jogadores", a "profissionalização (ou não dos árbitros)" ou "o regime jurídico das SAD's"? E  se algum dia deixarem regular e subsidiar os clubes de futebol (e não só)  será o caos, a fome e a miséria generalizada?

publicado por Miguel Noronha às 15:34 | partilhar

Impostos sobre os 'ricos'?

Contra a necessidade de mais impostos - sobre os 'ricos', no debate público, desde que Warren Buffett lançou o tema, logo após os tumultos em Londres e na Alemanha - está, em Portugal, essencialmente o argumento de que será mais uma forma de adiar a necessária redução da despesa. A favor, essencialmente uma questão de equidade, ainda que esta não seja uma questão linear.

 

Os impostos que menos perturbam a criação de riqueza incidem sobre stocks  (património) e não fluxos (rendimentos). Mas são também os mais difíceis de cobrar, por variadas razões, desde logo a dificuldade de o calcular. Para ser eficaz, um imposto sobre o património deve incidir sobre o património existente num período passado (como já lido por aí; e não creio que tal ponha em causa o princípio da não-retroactividade, na medida em que se trata de um imposto sobre um stock e não sobre um fluxo). Para ser aceitável, deve ser um imposto 'extraordinário'. 

 

Há um outro imposto, teoricamente mais distorcivo, mas que na prática não o é: o IVA sobre produtos de 'luxo'. Já é tempo de o recuperar, o que requer, no mínimo, uma lógica comum a nível europeu. Estamos a falar de um IVA de 35% ou 40% sobre produtos de 'luxo' em sentido lato: joalharia, automóveis acima de X, hotéis acima de Y, roupa acima de Z, restaurantes de 1ª (e quem sabe de 2ª), etc. A não 'distorcividade' resulta do facto de a procura deste tipo de produtos e serviços ser relativamente inelástica - o efeito de selecção resultante dos preços muito altos gera um efeito parcial de aumento da procura na medida em que tal consumo constitui, no caso de preços mais elevados, um 'sinal' ainda mais forte (custa mais fazer essa compra, logo, o efeito de exclusividade procurado é maior, logo, a procura aumenta em virtude desse efeito parcial [há obviamente outros, mas este é significativo]).

 

O problema fundamental de qualquer 'imposto sobre os ricos' é que eles têm uma base de incidência relativamente baixa, apesar da 'notoriedade' dos rendimentos e património de quem os pagaria. Isto não quer dizer que eles não possam ser implementados, mas reforça a ideia de que não é por aí que se resolverão os problemas financeiros graves do país.

 

Outro problema fundamental tem que ver com a mobilidade de capitais. Enquanto existirem off-shores e tributação desigual (e basta um free-rider credível para isso acontecer), convém ser bastante pragmático a abordar o assunto.

 

PS1: Nuno Ramos de Almeida comentava 6a no 'i', com base no aumento da desigualdade 'relativa', que se estava mesmo a ver onde é que os mais ricos tinham ido buscar a riqueza que agora detinham (cito de cor). Gostaria de confirmar segundo esta lógica, todas pessoas de esquerda que consumiram de forma livre produtos da Apple, dessa forma contribuindo para a fortuna colossal de Steve Jobs, viram a sua riqueza 'roubada' por esse senhor de tendências capitalistas vis e sórdidas. Como é que ele pode ter enriquecido sem 'tirar' rendimentos aos que tiveram menos sucesso relativo do que ele? Ver este vídeo pela enésima vez.

 

PS2: a esquerda chique que adorava despojar o sr. Amorim 'porque sim', adorava vê-la a consumir bons vinhos com rolhas de plástico vindas de Inglaterra...

publicado por Tiago Mendes às 13:22 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

O modelo madeirense

Seguro desafia Coelho a esclarecer quem paga "irresponsabilidade" da dívida da Madeira

 

Trata-se efectivamente  de uma excelente questão que merece melhor resposta por parte do governo. Seria extremamente útil acabar com a irresponsabilidade fiscal das autarquias e regiões autónomas fazendo com que sejam os contribuintes locais a pagar pela "obra feita" dos lideres locais. Para além da ressalva aqui feita pelo Nuno Gouveia, o que acho estranho é que seja feita pelo líder do partido que se tem batido por um modelo de regionalização que irá semear várias "Madeiras" pelo continente.

 

publicado por Miguel Noronha às 09:20 | partilhar
Domingo, 28.08.11

Socialistas no bom caminho?

O PS pôs Portugal na bancarrota, tem um buraco colossal, gaba-se disso e pede que sejam todos a pagar a factura da sua irresponsabilidade.*

 

Uma travessia no deserto pode ser o melhor que acontece a um partido. Mas em primeiro lugar é preciso expiar os pecados do passado. E admitir os erros que foram cometidos. Tozé Seguro, que esteve desaparecido um mês, apareceu hoje na Madeira disposto a recuperar o tempo perdido. E acusou o governo regional da Madeira de "irresponsabilidade" na gestão dos dinheiros públicos, colmatando essa acusação com esta frase: "os bebés daqui [região autónoma] já nascem endividados". Quero acreditar que Seguro, quando estiver de regresso ao continente, vai dizer o mesmo dos bebés que nascem cá. É que a irresponsabilidade do governo de José Sócrates, que ele apoiou durante seis anos na Assembleia da República, foi bem mais irresponsável que a do governo regional. Com a agravante de ter hipotecado o futuro de um país e não de uma região.

 

Tozé Seguro aproveite e tire esse peso de cima de si. Diga o que realmente aconteceu a Portugal nos últimos seis anos de governação socialista. Vai ver que não custa nada.  

 

*A bold uma alteração efectuada por mim numa frase que Tozé Seguro disse hoje sobre a Madeira, mas que também faz todo o sentido sobre Portugal.  

publicado por Nuno Gouveia às 19:53 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Isto está tudo ligado?

O caso da alegada espionagem dos serviços de informações ao jornalista do "Público" Nuno Simas é grave demais para não ter consequências. Espera-se que os resultados do inquérito agora ordenado - e que deve ser rápido - sejam tornados públicos. O âmbito do inquérito poderia ser alargado ao caso do email devassado ao também jornalista do "Público", Luciano Alvarez - que foi publicado na íntegra noutro jornal da concorrência. Quem sabe se isto não está tudo ligado.

publicado por Paulo Pinto Mascarenhas às 00:33 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 27.08.11

Mais impostos?

Parece que o governo está a ponderar criar um imposto sobre os ricos. Antes de mais convinha recordar que o acordo com a troika prevê que a consolidação orçamental se realize sobretudo (dois terços) do lado da despesa e que até agora só temos ouvido falar em aumentos de impostos.

 

Em segundo lugar convinha que se identificassem os problemas com os actuais impostos antes de criar um novo, para não se cair no remendo que tenta ultrapassar os erros anteriores, criando novos problemas, para os quais depois se criarão novos remendos.

 

A Constituição prevê no seu Artigo 104.º “Impostos”:

1. O imposto sobre o rendimento pessoal visa a diminuição das desigualdades e será único e progressivo, tendo em conta as necessidades e os rendimentos do agregado familiar.

(…)

3. A tributação do património deve contribuir para a igualdade entre os cidadãos.

 

Os impostos sobre o rendimento têm o grave problema de não respeitarem este princípio de progressividade, sendo só progressivos até aos profissionais de elevados rendimentos, passando a ser regressivos para os rendimentos dos verdadeiramente ricos. Isto acontece por dois tipos de razões: por um lado, a liberdade de circulação de capitais cria uma limitação importante à tributação do capital, pelas alternativas de fuga; por outro lado, porque a legislação e prática portuguesas têm inúmeros problemas e é sobre estes que vou referir alguns aspectos.

 

Comecemos por distinguir entre tributação do rendimento e tributação do património. Depois, dentro daquele há que distinguir entre rendimentos de activos móveis e imóveis.

 

A tributação do rendimento de activos móveis (juros de depósitos e outros, dividendos, mais-valias de acções, etc.) tem uma taxa liberatória de cerca de 20%, muito inferior ao escalão máximo de IRS, e esta é uma das razões que cria a tal regressividade neste imposto. De acordo com a OCDE esta taxa liberatória está acima da média dos países desta organização, pelo que não há grande margem para aumentos, mas haveria a possibilidade de criar uma sobretaxa especial em 2011 ou 2012 para que os rendimentos de capital não ficassem à margem do imposto especial sobre o subsídio de Natal.

 

Quanto ao rendimento dos imóveis, estes são englobados no IRS, agravando o imposto pago, não havendo aqui a desigualdade de tratamento entre rendimentos do trabalho e do capital como no caso anterior.

 

O problema é que para os muito ricos os patrimónios são detidos por sociedades, SGPS, que beneficiam de uma miríade de benefícios fiscais, que talvez valesse a pena rever. Se se deixam estes benefícios intactos para os muito ricos e se cria um imposto sobre os moderadamente ricos iremos agravar a desigualdade fiscal existente e este é o maior risco.

 

Finalmente, em relação aos impostos sobre o património eles existem apenas sobre uma fracção deste, o imobiliário, sob a forma de Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI). Destaque-se desde logo a desigualdade de tratamento fiscal porque só o imobiliário paga imposto sobre o património. Mas os muito ricos não investem directamente em imobiliário, investem através de fundos de investimento, que estão isentos de IMI! Ficamos assim com uma dupla injustiça fiscal.

 

Mas as injustiças do IMI não acabam aqui. Para o fisco uma casa arrendada a preços de mercado ou a mesma casa mas com uma renda ridícula valem o mesmo e pagam o mesmo IMI. Isto não podia ser mais absurdo, mas vá-se lá discutir racionalmente com quem só quer maximizar a receita fiscal. Escrevi há dois anos sobre um outro absurdo, sobre o fisco não ter acesso aos dados das transacções imobiliárias registadas pelos notários, uma fonte natural – mas desaproveitada – de actualização das matrizes de base do IMI, mas não sei se isto continua actual.

 

Alargar a base de tributação dos impostos sobre o património e uniformizá-lo será sempre uma tarefa difícil mas, mais uma vez, espera-se que qualquer reforma não deixe os muito ricos intactos e os moderadamente ricos mais carregados.

 

Uma nota final sobre o destino das receitas fiscais adicionais: em nenhum caso estas devem ser encaminhadas para as autarquias e regiões autónomas, que têm claramente dinheiro a mais para gastar. Estas gastam mais de 30% do orçamento em despesas de capital, contra uma média de pouco mais de 6% para o conjunto do sector público administrativo, quando as maiores responsabilidades de investimento (vias de comunicação, saúde, educação, justiça, forças armadas, etc.) cabem à administração central. Existe actualmente uma total desproporção entre responsabilidade de investimento e disponibilidade de fundos para investir. O que temos é uma administração central com edifícios decrépitos e uma administração regional e local a inventar novas construções, que vão criar responsabilidades de manutenção no futuro. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 22:12 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Enganei-me

 

Parece que afinal quem ganhou foi a extrema-esquerda. Parábéns ao Major Tomé

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publicado por Miguel Noronha às 14:49 | partilhar

Mau-Mau, Filipe (II)

Não podendo eu, pois, recorrer ao expediente dos críticos preguiçosos que consiste em enumerar os paralelismos entre a obra e a biografia do autor, resta-me falar do Mau-Mau. Influências, técnica, estrutura, essas coisas.  Como já disse, temos aqui dois romances: um conta os três dias que abalaram o mundo de Mário, o protagonista, o outro é uma história que ele está a escrever sobre outro protagonista, igualmente chamado Mário (chamemos-lhe Mário B). Uma coincidência que nem a Gabi do Mário A deixa de notar.

 Na minha modesta opinião de crítico, o romance B é mais interessante. Também tem uma mulher que atrai o protagonista,  de seu nome Madalena, mais complexa e portanto mais real do que a Gabi. Infelizmente, as outras personagens são menos trabalhadas (veja-se o Conceição, fugaz apesar do papel que lhe pressentimos na acção) e ficamos sem saber o que é "a revolução de Posadas". Talvez  o autor tenha escrito uma narrativa aberta para dar espaço à imaginação do leitor. Ou talvez tenha sido o editor a dizer-lhe que não havia mais tempo. Deixo este mistério aos jornalistas que entrevistarem o Filipe. Diga-se, de passagem, que o romance A também termina na iminência de uma tragédia adivinhada - e mais não digo, que o segredo é a alma do negócio. 

Claro que, além destas coincidências, há outras. Em ambos os romances, a acção parte de um acto de violência do protagonista contra uma desordem: o barulho e o cheiro a fritos em A, os palavrões e o "bordel doméstico" em B. Ambos os Mários são estranhos ao meio que policiam, vêm de fora, sentem-se inadapatados. Apesar das fraquezas próprias, usadas pelos seus inimigos e pelo autor para concluir a respectiva obra, Mário A e Mário B representam um princípio de ordem em mundos paralelos de anomia. Mundos de localização indefinida: um subúrbio que "não é cidade nem campo" em A, uma aldeia que não é Beira Alta nem Alentejo em B. A única cartografia é a do poder, concentrado no Sírio em A e no Conceição em B. Até as mulheres de que estes se servem (servir-se é a palavra exacta) estão diminuídas por uma fragilidade, a droga em A e a deficiência em B, que as condena a serem mero objecto de desejo enfadado dos machos. Por fim, literalmente por fim, temos as duas mulheres fatais que arrastam os heróis para um fatal destino, uma espécie de Helenas de Tróia de trazer por casa.

E chegámos às influências. O romance A vive muito do monólogo interior, técnica celebrizada por James Joyce, Virginia Woolf, William Faulkner e, em português, Raduan Nasser e Saramago. O romance dois-em-um virá também do Saramago (História do Cerco de Lisboa)? Talvez, mas vamos mais longe. O que é que nos quer dizer o autor? Que não é a arte que imita a vida, mas o contrário? Então ouço o eco de Oscar Wilde, que o diz abundantemente no Retrato de Dorian Gray. Algo me sussurra, porém, que é o Pierre Ménard de Borges que devemos escutar. O FNV é claramente mais borgiano do que wildiano. Outra pergunta para os jornalistas.

Se bem que o som da brisa venha de um certo Mar Salgado, não sei se conhecem, blogue onde o Filipe se dedicou em tempos a observar os hábitos da fauna dos céus e dos abismos. Reparem na solidão das personagens do Mau-Mau. O Mário A já não tinha ninguém há muito tempo antes da Gabi e não frequenta as redes sociais, o vizinho morre sem que ninguém dê conta, o Mário B tem poucos ou nenhuns amigos em Posadas, a Madalena está a divorciar-se e o filho cresce sem pai, etc. Um longo etc. É um tema familiar ao FNV-blogger. Agora, ficámos a saber das suas possibilidades ficcionais.  E eu, querendo fugir ao expediente dos críticos preguiçosos, acabei por vir cá parar. O mundo está perdido, é o que é.    

publicado por Pedro Picoito às 14:15 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Discos que tocam ao Sábado

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publicado por Paulo Marcelo às 10:28 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 26.08.11

Agarra que é rico!

Para que a riqueza seja distribuída, é preciso que não a afugentem. Não convém matar a galinha dos ovos de ouro. Trinta e sete anos depois do 25 de Abril, há quem continue a querer acabar com os ricos. Poderá ser uma forma expedita de extinguir as desigualdades – e é também muito mais fácil do que combater a pobreza.

 

Hoje no CM

publicado por Paulo Pinto Mascarenhas às 19:26 | partilhar

In the 90's (XI)

publicado por Tiago Mendes às 19:26editado por Nuno Gouveia às 21:55 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Impostos, impostos, impostos

Como bem diz o Carlos, nos últimos tempos só se lê nos jornais sobre aumentos de impostos - quer os efectivamente aumentados pelo governo supostamente de centro-direita e ultra-uber-neoliberal quer os que o governo supostamente de centro-direita e ultra-uber-neoliberal estuda aumentar - a ponto de nos questionarmos se o actual governo sabe que há outras políticas além de extorquir dinheiro aos que o ganham.

 

Esta voracidade pelos recursos criados pelos particulares e empresas da parte do PSD não me surpreende, e não me surpreende sobretudo deste actual PSD cujo líder, recordemos, fazia oposição interna a Manuela Ferreira Leite defendendo as grandes obras públicas (Passos Coelho parece ter regressado às origens, portanto) e foi apoiado por grandes promotores de rotundas e pavilhões gimno-desportivos. E, em boa verdade, a direcção reflecte o partido, já que o conceito de emagrecimento do estado e de retirada do estado de funções não-nucleares é mais inverosímil e indesejável para a maioria dos militantes sociais-democratas do que uma invasão por marcianos; o PSD pretende, nos casos mais meritórios, gerir o estado um tanto melhor do que o PS.

 

Mas surpreende-me da parte do CDS, que se posicionou contra aumentos de impostos, contra as grandes obras públicas e que, por ser um partido mais pequeno e, logo, com menos lugares para distribuir, tem maior liberdade para questionar o nosso estado mastodôntico. Pelo que me pergunto: se o governo persistir em aumentar impostos por ser incapaz de cortar na despesa pública - que é, essa sim, a raiz dos nossos problemas - o CDS pretende diluir-se no PSD mantendo-se no governo ou vai honrar o que defendeu na oposição, defazer a coligação e apenas garantir a estabilidade do governo viabilizando os orçamentos e a legislação exigida pelo FMI e UE?

publicado por Maria João Marques às 16:41 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Os comunistas comem ministros ao pequeno-almoço?

Antigamente, no tempo da outra senhora, dizia-se que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Pelo que se anda a escrever por aí sobre António Figueira na nova santa aliança de blogues saudosos de José Sócrates - de braço dado com alguns bloguistas de esquerda e de direita simplesmente ressentidos por um ou outro motivo com o resultado das últimas eleições -, os comunistas ameaçam agora comer ministros durante o dia de trabalho. Ou vice-versa. Figueira, que conheço como um excelente profissional da comunicação, parece ter cometido o pecado de ser comunista e, ao mesmo tempo, aceitar um convite para exercer as funções em que é especialista. É verdade que o cargo que vai ocupar é num ministério de um governo de centro-direita, mas a ideia de que um comunista não deve receber um convite de um ministro do PSD ou do CDS para desempenhar a sua profissão apenas pode ocorrer a quem se habituou durante os últimos seis anos a só ver boys ou próximos do Partido Socialista em diversos cargos no governo de José Sócrates. O resto, é puro ressentimento. 

publicado por Paulo Pinto Mascarenhas às 02:54 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quinta-feira, 25.08.11

Um euro e dez.

 

Esta tarde, no bar do Apolo 70, chegou-se ao balcão, tímido, um preto de meia idade. Mãos encortiçadas - talvez trabalhador da construção civil. Perguntou à empregada se havia sopa. Sim, havia - se não entendi mal, de cozido e também de legumes. O homem, com olhar ainda amedrontado, perguntou quanto era. (Arrebitei as orelhas.) Um euro e dez. Está bem, num sorriso que lhe escapou - escolheu a de legumes. Diante do meu lanche de vários euros, senti-me comovido - ao lembrar-me que, àquela mesma hora, algures, Américo Amorim, branco como eu, trabalhador, "simples assalariado", estaria também inquirindo a medo o preço de uma sopa, sopesando a leveza de cortiça dos cobres que tem no bolso.

publicado por Carlos Botelho às 23:57 | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Bento XVI em Madrid

 

Não estive em Madrid, mas acompanhei as recentes JMJ, tanto pela comunicação social como por relatos de amigos. Estava curioso em perceber como os jovens acolheriam este novo Papa, mais reservado e tímido do que anterior. Para além do inegável entusiasmo que rodeou Bento XVI, patente nas imagens, e que impressionou os próprios jornalistas, apercebi-me de uma outra mudança relevante destas jornadas, introduzida por iniciativa do próprio Papa: os longos tempos de silêncio, convidando os jovens ao recolhimento e à oração, antes dos encontros mais festivos e multitudinários. Outro ponto, referido neste artigo de Sandro Magister, foi perceber que o Papa desta nova geração passou a ser Bento XVI, e que já não é João Paulo II, que marcou as gerações anteriores, inclusive a minha, mas que já não diz tanto aos actuais jovens (média de idades de 22 anos). O tempo passa, mudam os pastores, mas mantém-se a mesma Fé e o mesmo entusiasmo de a testemunhar num mundo cada vez mais consumista e menos cristão. Tal como dizia Bento XVI, quando foi interrompido pelo temporal de Agosto: "não tenhais medo do mundo, nem do futuro, nem da vossa fragilidade. O Senhor concedeu-vos viver este momento da história, para que graças à vossa fé o seu Nome continue a ressoar por toda a terra". 

publicado por Paulo Marcelo às 15:23 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Cachimbos de lá

Fernando Vicente, O Capitão Haddock Segundo Cézanne, 2008.

publicado por Pedro Picoito às 11:14 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Salvem os bancos, não os banqueiros

Sabemos que o pacote de financiamento de Portugal pela Troika inclui uma parcela de até 12 mil milhões de euros afecta a um eventual resgate de bancos privados. Também sabemos que já houve auditorias às contas dos bancos e uma nova ronda (mais severa, exigente e definitiva) começará em Setembro e vamos sabendo que é grande a probabilidade de vir a concluir pela falta de qualidade de muitos dos créditos detidos e respectivas garantias. Ou seja, é quase certo que os bancos serão forçados a reconhecer nas contas que parte dos activos registados estão inflacionados. Esta revisão das contas afastará os bancos ainda mais dos ratios exigentes que estão obrigados a cumprir até ao fim de 2012. Continuando a seguir esta cadeia de causas e efeitos, regressamos aos 12 mil milhões de euros que o Estado terá de atirar para o buraco escancarado pelas auditorias e chegamos ao que me preocupa: não tenho dificuldade em perceber que evitar o colapso do sistema financeiro é uma medida de interesse público e de protecção da nossa franzina economia. Por isso não tenho qualquer objecção à entrada de fundos públicos nesse resgate. O que me incomoda e não aceito é o cenário que — conhecendo o que a casa gasta — antecipo. O Estado vai acabar por salvar não só os bancos, mas também a posição dos respectivos accionistas a expensas de todos nós. Inclusivamente dos que se alavancaram na CGD para além de todos os limites razoáveis durante a tomada de assalto ao BCP com a cumplicidade do governo anterior. O nosso problema não está só no socialismo pátrio, o capitalismo de costas quentes que por cá usamos também deixa muito a desejar.

 

No "i"

publicado por Duarte Lino às 10:23 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 24.08.11

In the 90's (X)

Porque nem só do estrangeiro veio boa música, deixo esta excelente "Fossanova" dos Belle Chase Hotel, de JP Simões, um dos melhores valores da música portuguesa. 

publicado por Nuno Gouveia às 19:59 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Depois do Affaire

Duas lições do caso Strauss-Kahn.

Primeira: há sociedades que reconhecem a todos os indivíduos o direito de recorrer à justiça, incluindo a uma empregada de hotel negra e imigrante contra um dos homens mais poderosos do mundo. A América tem muitos defeitos, mas pode ensinar à velha Europa, reverente para com todas as aristocracias, o que é a igualdade perante a lei. E o sistema judicial funciona. Como diz hoje o Pedro Lomba no Público, explicando a retirada da acusação porque não é possível prová-la "para além da dúvida razoável" (e não porque foi provada a inocência do acusado), "a justiça americana toma a sério as queixas de uma imigrante africana, mesmo contra o director do FMI. Mas também admite com transparência e modéstia uma dúvida fatal."

Segunda lição: alguns, em França e cá na aldeia, ilibaram Strauss-Kahn da acusação antes mesmo de conhecerem as provas. Uns porque se tratava de Strauss-Kahn, outros porque se tratava de um crime sexual. Cheguei a ler que a violação, a ter existido, seria uma questão da vida privada do senhor - e da senhora, presumo... Não tenho grandes esperanças na Gália, um país onde os opinadores, com honrosíssimas excepções, sempre preferiram "errar com Sartre a ter razão com Aron". Mas, cá na aldeia, seria muito instrutivo comparar o que os hagiógrafos de Strauss-Kahn disseram agora com o que disseram no processo Casa Pia. Na altura, houve quem clamasse a inocência de Carlos Cruz e companhia mesmo depois da sentença, misturando (deliberadamente?) a presunção de inocência e a tolerância do crime.  Nunca percebi bem porquê - ou talvez perceba. O que sei é que não gostaria de ver essa gente perto dos dos meus filhos. Nem da minha mulher.

publicado por Pedro Picoito às 12:42 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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