Sexta-feira, 25.11.11

Faz hoje anos que a troika foi embora

 

À esquerda portuguesa deve-lhe ser reconhecida autoridade sobre assuntos de “troikas”. Mas é provável que esta segunda “troika” não consiga corresponder em resultados às elevadas expectativas que tem vindo a ser criadas, quanto à destruição da economia nacional. A primeira foi quase insuperável.

publicado por Victor Tavares Morais às 14:34 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Da série "Vale a pena ler"

Para acabar com o mito de que os alemães andam a suportar financeiramente os caprichos dos europeus preguiçosos e gastadores do sul da Europa, ler isto Germany is the real winner in a transfer union no Financial Times de ontem.

publicado por Paulo Marcelo às 11:41 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Peço muita desculpa (é forma de dizer, que não peço nada) por não fazer vénias ao direito à greve nem conseguir ver no folclore de hoje qualquer coisa respeitável ou recomendável

A greve de hoje descreve-se de forma simples: os que têm beneficiado deste estado obeso e sufocante pretendem que os que têm pago o estado obeso e sufocante continuem a pagar o estado obeso e sufocante. Dito de outro modo, os grevistas pretendem que quem está no sector privado continue a pagar - com perda de emprego, dificuldade em encontrar novo emprego, falências de empresas, diminuição de rendimentos variáveis e de regalias várias e os inevitáveis aumentos de impostos - para que os grevistas continuem a pairar acima da crise. Por mim, agradeço encarecidamente as defesas dos 'direitos' (de quem?!) dos folclóricos grevistas.

 

E lamento, mas discordo das leituras da greve politicamente correctas que se têm lido por aqui. O país está num estado de indigência internacionalmente reconhecida. Que numa altura destas umas almas sobreviventes do PREC decidam fazer greve só pode causar repugnância em qualquer pessoa dotada de um mínimo de bom-senso. Ou com capacidade para fazer contas de somar e de subtrair. Ou que não acredite na galinha dos ovos de ouro e na árvore das patacas.

publicado por Maria João Marques às 00:10editado por Paulo Marcelo às 10:25 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

Grande Finale (154)

 

 

A greve, Sergei Eisenstein, 1924

publicado por Carlos Botelho às 00:00 | comentar | partilhar
Quinta-feira, 24.11.11

A última oportunidade

Em dia de greve geral é conhecido o Barómetro da Marktest/TSF/DE, que coloca o PSD a subir, com 45,4% das intenções de voto, mais do dobro do PS, com 19,7%. O PCP desce para os 7,9%, o CDS está nos 5% e o BE com 4,1%. Mesmo apesar das medidas dificeis e impopulares tomadas por este governo, a confiar no resultado deste barómetro, a coligação continua extremamente popular junto do eleitorado. Estes números indicam que o povo português, se calhar por uma última vez, estão dispostos a aceitar os sacríficios exigidos para salvar o país. O governo deve encarar estes números com optimismo moderado, pois significam que há espaço para implementar as reformas em curso com tranquilidade. Ao contrário do que alguns grupelhos radicais desejariam para as ruas portuguesas, a violência generalizada que assistimos na Grécia dificilmente será uma realidade em Portugal. E a acontecer, servirá apenas para reforçar a popularidade do governo. Mas este deve assumir as suas responsabilidades: este rumo terá de mostrar resultados bem visíveis nos próximos anos. E se chegarmos ao fim da legislatura sem que os portugueses reconheçam que valeu a pena, a queda será abrupta e a desconfiança dos portugueses em relação ao regime, e não apenas aos partidos, será, talvez, irreversível. A responsabilidade da coligação PSD/CDS é salvar o país, mas sobretudo devolver a credibilidade ao sistema político português. 

publicado por Nuno Gouveia às 22:32 | partilhar

Os Bizantinos

 

 

No início da década de 90, aquando de uma aventura académica em Inglaterra, conheci um estudante grego de leis, com sérias ambições políticas. Conheci-o quando, acabado de me instalar na residência universitária do campus, fui directo com uma amiga portuguesa às áreas sociais para ver o ambiente. Mal nos aproximámos do bar alguém se dirigiu a nós e inquiriu num inglês meridional, ainda que correctíssimo, qual era a nossa nacionalidade. Ao perceber que éramos portugueses mostrou uma agradável surpresa e tratou logo de demonstrar que conhecia razoavelmente bem a História de Portugal. Chamava-se Nikolas e era grego.

Aproveitámos para perguntar qual a razão de tão pouca gente por ali, e ficámos a saber que tinha havido um feriado junto ao fim-de-semana, razão pela qual muitos ingleses e outros europeus continentais, sobretudo alemães e holandeses, tinham aproveitado para ir a casa. E terminou o tema com um seco – The barbarians are out. Percebi que para ele, muitos dos europeus não eram ainda gente que se possa convidar para comer à mesa, os seus amigos eram, na maioria: italianos, espanhóis, israelitas, francesas, e até mesmo alguns turcos (mas só os que tinham amigas).

 Foi nas conversas com o Nikolas que fiquei a conhecer o pensamento político de uma determinada elite política grega, mais concretamente no que respeita à Turquia, que mais do que a Europa, era o tema que lhes interessava. E o que pensava e dizia ele, por exemplo:

-A Turquia seria sempre um inimigo mortal, as guerras tinham-se sucedido num intervalo de 30 anos, a última nos anos 70, aquando da crise do Chipre, pelo que estaria para acontecer algum confronto em breve.

- Enquanto a Turquia tivesse aquelas taxas de natalidade, os gregos continuariam a investir forte na defesa nacional.

- Não são quinhentos anos de ocupação turca de Constantinopla, que se sobrepõem a um império que durou um milénio, e por direito voltará a ser grega.

 Pareceram-me à data, ideias verdadeiramente “bizantinas” para um europeu contemporâneo, tanto mais que a Turquia era também membro da NATO – estávamos no final do século XX e já só se falava de paz e prosperidade na Europa, o futuro era radioso e a história tinha chegado ao fim.

Mas a história não tinha morrido, e logo em 1996 voltei a lembrar-me das nossas conversas quando foi noticiado que um avião Mirage grego tinha abatido um F16 turco, sobre o Mar Egeu. Há 5 anos, em 2006, deu-se a colisão de dois F16, um turco e o outro grego durante um suposto voo de reconhecimento, o piloto grego morreu e a operação foi denunciada como um acto de espionagem da Turquia sobre a ilha de Creta. Quase todos os anos a Grécia denuncia incursões de aviões militares turcos, sobre o espaço aéreo grego no Mar Egeu.  Os altos comandos militares recusam-se a aceitar cortes no orçamento que ameacem ou comprometam a segurança e a defesa da Grécia, e acabaram demitidos.

 

 

Hoje estou convencido que Nikolas era, à data, um europeu verdadeiramente contemporâneo, talvez o devesse à sua superior cultura política, mas também por ser membro de uma família que é ainda hoje um importante clã político na Grécia. Talvez os “bizantinos” ainda existam, e sejam hoje os políticos europeus que insistem em governar a Europa à revelia da sua história.

publicado por Victor Tavares Morais às 19:23editado por Paulo Marcelo em 25/11/2011 às 10:55 | comentar | ver comentários (15) | partilhar

Um belo livro

 

A obra O Portal de Santa Maria da Vitória da Batalha e a Arte Europeia do Seu Tempo, do francês Jean-Marie Guillouët, ganhou esta semana o prémio Gulbenkian de História da Europa de 2011. Trata-se da edição bilingue de um estudo que revisita as origens do programa iconográfico batalhino, evidenciando as influências exteriores, sobretudo francesas e catalãs, que fizeram do panteão de Avis o monumento mais extraordinário do século XV português. Para quem se interessa pelas andanças do nosso património, é uma obra de referência doravante obrigatória. Parabéns à Textiverso, pequena editora de Leiria que assim vê reconhecido o seu notável esforço de divulgação da cultura estremenha, e a Saul António Gomes, o director da nova colecção Portugalia Sacra que se estreou com este belo livro.     

publicado por Pedro Picoito às 15:29 | comentar | partilhar

Greve geral

Mesmo não apoiando a greve reconheço que será bom que a mesma não seja um fracasso. Neste momento de particular urgência a greve geral, para além de constituir um sinal ao governo, sinaliza sobretudo a linha das oposições, das organizações sindicais, e de movimentos sociais que espreitam uma oportunidade para ocupar o espaço do PCP e a CGTP.

O pior que poderia acontecer ao Governo seria uma greve totalmente fracassada. Mais do que nunca precisamos de uma rua institucionalizada e responsável. Um fracasso da greve abriria espaço para outras ruas.

 

publicado por Pedro Pestana Bastos às 11:30 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

A pergunta do dia

Será que os fiscais da EMEL também fazem greve hoje?

publicado por Paulo Marcelo às 10:47 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Falhar o alvo

Faltará, no rol de razões que o Carlos elenca, dizer que a greve é "cega". O principal grito que poderia justificar a greve de amanhã seria contra a falta de accountabilitiy dos últimos governos em Portugal, com destaque para o do engenheiro Sócrates. Poderia ser uma greve celebrativa do "acordar" das massas de trabalhadores para um novo patamar de exigência aos políticos e a eles próprios, trabalhadores, senhores do seu brio enquanto tal, e não máquinas emissoras de exigências a quem lhes dá emprego e paga o salário ao fim do mês. Poderia até ser uma greve com camionetas enviadas à Sorbonne e vexar o sr. Sócrates nos seus fatinhos elegantes, ou pelo menos para cercar o Largo do Rato e assustar o sr. Seguro.

 

Como vai ser, é, por muito que nos custe, apenas um atestado da cegueira em que a esquerda portuguesa ainda vive. E a garantia que os amanhãs - sobretudo os das gerações mais novas e por nascer - cantarão muito menos do que deveriam.

publicado por Tiago Mendes às 01:39 | comentar | ver comentários (8) | partilhar

Contas em família (3)

Um dos supostos desafios aos critérios de Maastritch que visam garantir a sustentabilidade das finanças públicas - resumidamente, défices orçamentais inferiores a 3% do PIB, dívida pública inferior a 60% do PIB - é o porquê destes números em concreto. Por que não um limite de 4% do PIB? Ou de 3.1%?... Por que não um rácio de dívida / PIB de 80% ou 100%?... Haverá alguma razão por detrás destas escolhas, ou tratar-se-á de puro "fetiche numerológico"?

 

Há duas respostas aqui - e são complementares. Uma é substantiva: justifica os números escolhidos, tornando também claro que a combinação {3%,60%} não é a única possível, mas que parece bastante razoável face a alguns pressupostos. Outra é formal: torna clara a necessidade de estabelecer limites concretos e credíveis (leia-se, susceptíveis de sanção em caso de incumprimento) para o défice e dívida se nos preocuparmos com a sustentabilidade das finanças públicas.

 

Comecemos pela primeira. Já atrás aludimos aos pressupostos que subjazem à escolha de {3%,60%} como limites desejáveis aos défices orçamentais (fluxo) e à dívida pública (stock), ambos em percentagem do PIB, mas não é demais repetir, não com fórmulas matemáticas genéricas, mas com um exemplo concreto.

 

Suponhamos que no início do ano o PIB nominal tem o valor 100, e a dívida pública o valor 60. Assumamos que o PIB cresce 2% nesse ano em termos reais: nesse caso o PIB, em termos reais, será, no final do ano, de 102. Suponhamos ainda que a inflação nesse ano é de 3%: nesse caso, o PIB no final do ano será de 102 acrescido de 3%, o que dá 105.06 = 102 x 1.03, sendo 105 um valor aproximado.

 

Note-se que, caso não houvesse défice, nem superavit, a dívida manter-se-ia em 60 - isto porque a dívida é um stock, de valor nominal constante -, logo, o rácio da dívida pública desceria de 60% (do rácio 60/100) para 57% (do rácio 60/105). Esta descida aconteceria exclusivamente devido à subida no denominador, em parte por haver crescimento económico (subida de 100 para 102), em parte por haver inflação (subida de 102 para 105). Num outro post abordaremos em detalhe a questão da inflação, que é particularmente interessante no contexto actual de "birra" do BCE face a uma política monetária menos restritiva.

 

Assumamos que o Estado tem um défice de 3% do PIB naquele ano. O que isto quer dizer, se quisermos ser rigorosos, é que o défice acumulado no final do ano, em resultado das despesas e receitas feitas ao longo do ano, é 3% do PIB médio desse ano - e não do PIB no final de ano. Não faria sentido ponderar fluxos tidos ao longo do ano com um valor estático no final do ano: o rigor exige que o valor do PIB tenha em conta a sua evolução ao longo do ano e, logo, o seu valor médio.

 

Assumindo gastos, receitas, crescimento e inflação constantes ao longo do ano, o ponto médio é 102.53 - a média entre 100 e 105.06. Ora, 3% disto são 3.11. E isto a dividir pelo valor do PIB no final do ano - porque o rácio dívida/PIB é o rácio de duas medidas de "stock" - é igual a 3.11 a dividir por 105.06, ou seja, 60%. Temos então um rácio estável da dívida pública. Eis a dita sustentabilidade das finanças públicas. (Note-se que o rácio dívida / PIB tem de ser dividido pelo PIB no final de ano e não pelo o PIB médio, porque se trata de um valor de "Balanço", de final de ano, enquanto o défice é um valor de fluxo.)

 

Mas serão os valores de 3% e de 60% os únicos "possíveis"? Naturalmente que não. Para um determinado rácio de dívida inicial, de 30%, 40%, 80%, etc, quaisquer pressupostos relativos a (i) taxa de crescimento real do PIB e (ii) inflação determinam um valor exacto para défice público que a mantém constante: no caso de um rácio de 80%, teríamos um défice de 4%. Isto parece contraintuitivo - então num caso de um país mais "mal comportado", com uma dívida inicial de 80%, eles podem "dar-se ao luxo" de ter défices de 4% para manter as finanças sãs???

 

Bem, not so fast. O facto é que 4% mantém a dívida em 80% (mais uma vez no pressuposto de crescimento de 2% e inflação de 3%). Mas se acharmos que 80% estáveis é um valor demasiado elevado ("arriscado") para podermos considerar que temos finanças sãs, então défices de 4% são excessivamente elevados - teríamos de ter défices muito menores de modo a fazer a dívida reduzir-se de 80% para 60%, ao longo do tempo. A verdade é que rácios da ordem dos 80% são bastante vulneráveis a derrapagem e a divergência - claro que já sabemos que isto depende em grande medida da capacidade de crescimento da economia; são conhecidos os casos da Bélgica e Itália que desde há muito tiveram rácios superios a 100% sem que isso tenha causado apreensão durante muito tempo (mas veja-se a Itália de hoje).

 

A razão de um rácio mais elevado permitir défices mais elevados para se manter estável é puramente matemática: se no rácio inicial temos 80 a dividir por 100; e no rácio final temos um número X a dividir por ~105 (5% mais elevado que o valor inicial de 100) e queremos que o rácio se mantenha em 80%, o numerador tem de crescer ~5% também. Ora, 5% de 80 são 4; enquanto que 5% de 60 são 3.

 

Em suma, a primeira resposta não diz que 60% e 3% são valores "sagrados", inexplicáveis pelos tecnocratas ao povo ignaro, mas sim que (1) são valores que permitem a manutenção do rácio de dívida / PIB em 60% para determinados pressupostos de crescimento e de inflação; e que 60% é um rácio prudente para a dívida pública. Este ponto é naturalmente discutível. O que não parece discutível é que, uma vez aceite um determinado valor para o rácio da dívida, que entendemos como desejável para não nos expormos ao perigo de derrapagem, divergência, e eventual default, não compreendamos que é imperativo não permitir défices excessivos e, diria mesmo mais, que não nos esforçemos por ir muito além desse limite, sobretudo nos anos bons, para criar uma "almofada" para os anos difíceis. Dá-se alvíssaras a quem encontrar um político (depois de Salazar) que tenha tido a coragem de explicar a bondade de défices mais curtos do que o estritamente necessário "em média", ou mesmo de superavit. 

 

Isto leva-nos à segunta resposta à pergunta inicial - a formal. Esta é muito mais curta, e diz apenas que se nos preocuparmos com a questão da sustentabilidade das finanças, então acabaremos por chegar a um valor X para a dívida pública (e, logo, a um valor Y para o défice). Quer dizer: podemos discutir qual o valor X - se é 60%, ou 55%, ou 50%. Mas não vamos alimentar discussões mais ou menos sofistas e infindáveis sobre o porquê (numerológico) de um determinado valor X sobre outro.

 

Tal como o professor decide que passa os alunos com nota de 10 ou de 9, mas depois não se deixa toldar pela inacção a matutar sobre se deve passar um aluno que teve 9.9 - porque se o fizer, depois matutará sobre o aluno que teve 9.8 (só um pouco menos que o outro passado a 9.9), e 9.7, etc, até passar todos os alunos.

 

Sendo que há uma diferença abissal: a irresponsabilidade na fiscalização das contas públicas compromete as gerações futuras. Isto é em si mesmo não apenas eticamente reprovável como repugnantemente anti-democrático, por procurar benefícios próprios curto-prazistas, apenas possíveis face à escassa voz e nula representatividade eleitoral das gerações futuras. O que poderia ser um "incómodo" de consciência para os críticos da sustentabilidade das finanças públicas, acaba por não o ser, em grande medida, por ignorância.

 

Esta ignorância, que é sempre lamentável em pessoas com responsabilidades e exposição pública, é particularmente chocante quando deriva do preconceito contra todo e qualquer discurso sobre finanças públicas - que por sua vez origina uma preguiça intelectual que, realmente, redunda num torpor moral, por muito bondosos que queiramos ser. Face a isso, desistir não pode ser uma opção.

publicado por Tiago Mendes às 01:00 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Quarta-feira, 23.11.11

Fazê-la ou não?...

 
Podemos sempre ver as palavras acima com um olhar exterior e cínico e achá-las ridículas. Claro que sim. Mas também é verdade não haver nada que, visto de fora, de uma certa perspectiva, não pareça ridículo.
A tese segundo a qual esta greve é "errada", com o seu cortejo de argumentos de ser sintoma de conflito, gerar perturbação ou "prejuízo" (como é da praxe, alguém há-de vir com esse argumento falacioso, brandindo números astronómicos), pura e simplesmente não colhe. O que, na verdade, se diz com isso é que a greve é "errada", porque é greve. Isto é, rejeita-se a greve qua greve. Ora, quem o diz, se não quiser estar numa posição insustentável, porque contraditória, coloca-se num ponto de vista alheio, exterior à normal (e desejável) contraposição política de perspectivas com, por assim dizer, direito de cidade numa democracia liberal. E, se assim for, não pode, depois, a respeito de outros conteúdos, atribuir-se, sem contradição, uma posição ou uma filiação"democrática".
A acusação do "irrealismo" das "propostas" ou dos enunciados assenta numa posição de má-fé. It goes without saying que as "propostas" de uma greve geral não podem ser tomadas pelo seu valor facial - têm uma natureza como que assimptótica e é assim, se quisermos ser honestos, que elas devem ser encaradas.
Uma greve da natureza desta (com todos os seus matizes e, até, contradições) é um sinal, uma mensagem política para o governo. Estas greves também servem para que um governo, qualquer que ele seja, não fique "mal habituado" (como sabemos, uma propensão dos governos relativamente aos governados).
Numa greve destas características, e, precisamente, por estarmos neste contexto tão particular, não há lugar a quaisquer "problemas de consciência" ideológica ou partidária. Aqueles que não sejam "de esquerda" ou que estejam, de algum modo, ideologicamente próximos dos Partidos do governo têm tantas "razões" como os outros para aderir (ou não) à greve. O "critério" para a greve é político, não meramente partidário.
Uns dos que terão mais motivos para a adesão serão os famosos funcionários públicos. Para além da sua degradação material, os servidores do Estado têm sido o alvo de um discurso de culpabilização política, pejado de vícios argumentativos, disfarces/pretextos para meros preconceitos ideológicos (descrição possível, aqui) que os tem, sistematicamente, humilhado política e socialmente.
O mais silencioso e o mais respeitável dos argumentos que tenho encontrado contrários à participação na greve geral de amanhã é aquele que, não podendo ser indiferente para tanta gente, não pode também, por isso, ser indiferente para nós em situação mais desafogada: a perda de um dia de salário.
publicado por Carlos Botelho às 23:59 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Não sabe distinguir?

Mário Soares, o mesmo que apoiou, umas vezes de forma entusiástica, outras com o seu silêncio, a desgovernação Sócrates que nos fez cair no buraco em que vivemos, hoje fez um apelo à greve geral. Nada a apontar, num homem que nunca deixou de ser uma mera caixa de ressonância do Partido Socialista. Mas há uma parte da sua declaração simplesmente patética, ao comparar as manifestações em democracia com o que tem acontecido em diversas ditaduras de países árabes. Ia escrever algo sobre isto, mas o João Vacas já o fez, e com a pertinência necessária. 

 

No documento "Um novo rumo" há uma frase inquietante: "Não podemos saudar democraticamente a chamada “rua árabe” e temer as nossas próprias ruas e praças." Não sei se os subscritores do documento terão noção exacta da gravidade da comparação que insinuam. É que, por muito que os pintem de negro, os regimes e os governos europeus não são autocracias árabes. Dizer o contrário significa confundir o inconfundível. Melhor seria que a esquerda de sempre - que aponta mais uma vez mais um novo rumo geral e abstracto, indefinido e indefinível - começasse por tentar descobrir por que motivo os partidos socialistas têm sido relegados para a oposição na maioria dos Estados-membros da União e por que razão a retórica inflamada da "construção de novos paradigmas" já não convence ninguém. Pergunto-me o que teria sido de Portugal se o Dr. Mário Soares tivesse feito o que a rua lhe exigia quando, nas palavras do próprio, "teve que chamar" o FMI. 


publicado por Nuno Gouveia às 18:44 | partilhar

Diário de um cínico

Os confrontos dos últimos dias no Egipto voltaram a mostrar que que o maior problema político da Primavera Árabe não é - nunca foi - apenas Mubarak ou o ditador de turno. É a relação entre as elites árabes e a democracia. Em sociedades sem tradição democrática,  só o apoio ou pelo menos a tolerância dos poderes fácticos, sobretudo o poder militar, permite alguma hipótese de mudança. O que os manifestantes da Praça Tahrir estão a comprovar, à custa de mortos e feridos, é que o amor do exército egípcio à liberdade parece ser uma das tais notícias um pouco exageradas. A grande questão agora é saber se a tropa tem força e vontade para vencer o braço de ferro. Se tiver, a revolução corre o risco de colapso.
publicado por Pedro Picoito às 12:54 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Preencha esta vida

 

A Associação Salvador promove a integração social de pessoas com deficiência motora. Há dias, o Salvador Mendes de Almeida falou-me de uma iniciativa pioneira em Portugal: uma plataforma de crowdfunding para apoiar directamente alguns casos graves de pessoas com deficiência, como a Carla da foto acima. Portugal atravessa um momento muito difícil. A crise toca a todos, bem sabemos, mas de um modo especial certas famílias de pessoas com deficiência. Muitas dessas pessoas vivem com baixos rendimentos. Segundo explicou o Salvador, há casos em que a mãe tem de abdicar de trabalhar para dar assistência ao filho com deficiência, tendo ainda de suportar altos encargos para garantir uma vida com alguma dignidade. Parece que uma boa cadeira de rodas eléctrica pode chegar aos 20.000€. Neste momento, algumas dessas famílias são confrontados com uma significativa quebra do seu já fraco poder económico e com reduções significativas dos apoios do Estado. Por tudo isto vale a pena fazer aqui uma visita. Todos os casos apresentados foram sujeitos a uma exigente análise prévia feita por um júri que selecionou os casos mais graves e urgentes.

publicado por Paulo Marcelo às 11:46 | comentar | partilhar
Terça-feira, 22.11.11

Post amiguista

«Portugal somou novo Emmy com a vitória da novela " Laços de Sangue"( SIC), na cerimónia que se realizou, na noite desta segunda-feira, no Hilton Hotel, em Nova Iorque.

O projecto vencedor contou com a participação de actores como Diogo Morgado, Diana Chaves e Joana Santos nos principais papéis, que fizeram questão de estarem na gala norte-americana.

O troféu foi entregue ao director de entretenimento internacional da Rede Globo, Guilherme Bokel, e ao director-geral da SIC, Luís Marques. A novela foi a primeira co-produção entre a Globo e a emissora portuguesa.

Com direcção de argumento de Pedro Lopes da SP Televisão, supervisão de Aguinaldo Silva e direcção-geral de Patrícia Sequeira, "Laços de Sangue" foi exibida entre Setembro de 2010 e Setembro deste ano pela SIC, em Portugal.»

publicado por Maria João Marques às 19:15 | comentar | partilhar

Mercado de inverno

Os mais atentos terão reparado que da coluna da direita consta mais um nome: o do Victor Tavares Morais. É um homem de coluna e já agora de direita. Um amigo, que partilha o amor pelo nosso País, pela nossa língua portuguesa, e que, além do mais, acumula saber e competências nas áreas das energias. Estou certo que vamos gostar de o ler e de o ter por cá. Bem vindo, Victor, e boas cachimbadas!
publicado por Filipe Anacoreta Correia às 18:55 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Pub

publicado por Pedro Picoito às 17:55 | comentar | partilhar

Da série "A concorrência faz melhor"

O fim da democracia

 

Jam session

 

Pérolas

publicado por Pedro Picoito às 17:51 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

O plano soviete

 

Num artigo de opinião publicado hoje no jornal Público, Paulo Rangel defende o ensino de uma segunda língua estrangeira, construindo uma argumentação sustentada numa visão estratégica para o futuro. Um argumento que faz sentido, até ao momento em que Rangel conclui o seu artigo com a seguinte sugestão:

"Sabendo que temos relações privilegiadas com certas culturas e mercados, não seria de garantir uma distribuição equitativa dos estudantes pela aprendizagem dessas línguas relevantes, de forma a, no futuro, podermos ter significativos segmentos da população com essa habilitação (ainda que isso contenda com a linha de orientação de dar mais autonomia às escolas, aos pais e aos alunos)?" (aqui)

Esta sugestão faria arrepiar qualquer liberal (mesmo no sentido mais amplo do termo), como aliás se presume que seja Paulo Rangel. É que a sua sugestão não vai apenas contra a orientação de dar mais autonomia às escolas, pais e alunos, vai sobretudo contra o princípio de liberdade de cada um poder escolher aquilo que considera ser melhor para si. O que o Paulo Rangel propõe – até custa a acreditar – é que seja o Estado a decidir o que é melhor para cada um de nós – ou seja, propõe uma espécie de plano soviete de desenho da sociedade a partir de cima (i.e. de uma visão estratégica estatal), o que é, a todos os níveis, uma ideia inaceitável.

publicado por Alexandre Homem Cristo às 12:48 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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