Quarta-feira, 25.07.12

Já esquecemos que ia ser difícil?

 

 

Um ano volvido, à beira de um Verão quente, há balanços que já podem ser feitos. Mas para isso vale a pena lembrar de onde partimos e onde chegámos. De uma situação de emergência, a um passo da bancarrota, é justo reconhecer que este governo está a conseguir inverter a trajectória dos últimos anos, reduzindo a despesa pública e o peso do Estado na economia. Por pressão externa, é verdade, mas com o mérito cumprir fielmente uma agenda de reformas estruturais que tem permitido que Portugal comece a ser visto com outros olhos lá fora. A descida das taxas de juro aí está para o comprovar, tal como as exportações, que permitiram a primeira balança comercial positiva desde a II Guerra Mundial.

 

Podia isto ser feito sem dor? Alguns dizem que sim, esquecendo o que nos trouxe até aqui. A memória é curta e as opiniões mudam depressa. Ainda há poucos meses a ladainha era: "vivemos acima das possibilidades" e "é preciso mudar de vida"; agora, as mesmas vozes dizem que se "está a ir longe demais". Os ventos parecem mudar à medida que somos nós ou o nosso grupo a sofrer. Mas o mais curioso é que são aqueles que nos trouxeram até aqui os primeiros a vacilar. O PS vive um dilema permanente entre a fidelidade a um programa com a sua assinatura e as críticas oportunistas à austeridade. Uma posição demagógica porque os socialistas sabem que teriam de aplicar a mesma receita se fossem governo. Sabem que o problema não está resolvido, longe disso, e não podemos alargar o cinto ou começar a distribuir dinheiro, como se fez no passado, com os resultados conhecidos.

 

Por mais que nos custe a crise não acabou. Apesar das reformas feitas, continuamos com um problema da competitividade, com reflexos graves nos desemprego, uma justiça lenta, um Estado gordo e anafado. Mas é justo reconhecer que o Governo tem lutado por mudar as coisas no sentido da sustentabilidade. Sinal disso são as reacções generalizadas, desde médicos, militares, professores, acabando nos pilotos da TAP. O que mostra coragem em enfrentar alguns interesses e vacas sagradas. Ou alguém acredita que o ministro da saúde tem uma especial embirração pelos médicos? Ou que se levanta de manhã a pensar qual o serviço de urgência vai encerrar nesse dia? Estas reacções são legítimas, mas é preciso ver se o interesse colectivo deve prevalecer sobre os interesses particulares, por mais poderosos que sejam ou com mais acesso à comunicação social. Ou será que os maquinistas da CP têm um direito acrescido a horas extraordinárias só porque conseguem parar os comboios durante meses?

Se não mudarmos o nosso futuro será tão curto como a nossa memória.

 

[Diário Económico]

publicado por Paulo Marcelo às 14:03 | comentar | ver comentários (6) | partilhar

Pois claro e já agora ...

 

Estar vivo é o contrário de estar morto.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 12:15 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Devemos preocupar-nos com a Demografia? (III)

 

Neste terceiro post da série fico-me por uma observação algo técnica, numérica. Trata-se de fazer um exercício pensando sobre como seria uma hipotética recuperação dos números da população depois de um declínio demográfico.

 

Costumamos falar de Demografia olhando para a taxa de fecundidade - em termos simplificados diríamos: o número de filhos por mulher. Ora a baixa taxa dos últimos tempos é preocupante porque há 30 anos que não renovamos gerações. Somos um país a envelhecer.

 

Mas convém reparar que tem um efeito de segunda geração também muito importante: se nos propusermos um objectivo de recuperar o número total de portugueses depois de algum tempo com taxas de fecundidade baixas, não nos bastará ter taxas mais altas na mesma proporção durante um tempo semelhante. Isto porque podemos recuperar no número de filhos por mulher, mas já não iremos a tempo de evitar que as mulheres que estarão então a ter mais filhos sejam em menor número.

 

Esta análise das taxas de fecundidade abrangendo duas gerações, e propondo-nos um "objectivo" de população (tipicamente, como referência, a manutenção da população actual) é muito reveladora. Os pais de amanhã não teriam de "compensar" apenas os pais menos fecundos de hoje, teriam adicionalmente de compensar o menor número de pais que estará vivo nessa altura, devido à baixa de fecundidade de hoje. Teriam de fazer também o "trabalho" dos irmãos que não tiveram, para dizê-lo de alguma maneira.

 

(alguns leitores sentirão um desconforto por esta conversa como se se tratasse de "produção industrial" de bebés. Tenham paciência, eu também os acompanho nesse desconforto, noutros posts tentarei compensar com uma visão humana mais completa e digna)

 

Podíamos continuar este raciocínio para gerações seguintes, mas admito que não faz sentido avançar a futurologia muitas décadas para a frente, pois entram em jogo tantos factores incógnitos que é um exercício fútil. Este olhar que propus, de cerca de 20 anos para a frente (uma geração), parece-me ainda fazer sentido. Trata-se de reconhecer que a actual taxa de fecundidade reduzida cria uma redução de crianças hoje e uma pressão sobre a taxa de fecundidade da geração seguinte: a taxa mede o número de filhos, mas é o número de filhos por mulher. Com menos mulheres é precisa uma taxa mais alta para se chegar ao mesmo número de crianças nascidas.

 

É como se houvesse um "juro" sobre a "dívida" das crianças que ficaram por nascer... e isso faz com que o declínio demográfico seja mais difícil de inverter.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 09:49 | comentar | ver comentários (9) | partilhar
Terça-feira, 24.07.12

Devemos preocupar-nos com a Demografia? (II)

 

Num post anterior discuti o modo como o declínio da natalidade num país remete sempre para um problema cultural: temos de ver se estamos confortáveis com a ideia de na próxima geração termos um Portugal com muito menos população, ou com uma população (imigrada) muito diferente. É uma alternativa: ou teremos uma ou a outra; e ou isso nos incomoda ou não.

 

À primeira vista, para quem goste de multiculturalidade e abertura, tudo isto podia parecer indiferente. Queria agora argumentar que além dos perigos culturais há também perigos económicos.

 

Ter muito menos população, e uma pirâmide demográfica invertida, gera tantos problemas económicos que nem vale a pena deter-me a listá-los. E com a dívida que temos, e uma segurança social que promete o que não pode cumprir, ainda se torna mais grave.

 

E a outra hipótese: podíamos compensar com imigração? Certamente tiraríamos algumas vantagens: os imigrantes podem chegar pobres, mas trazem sempre consigo alguma riqueza humana e cultural que abrilhanta o nosso país. Mas se o fenómeno for demasiado vasto não podemos deixar de observar que nos arriscamos a encontrar daqui a uns anos um país de desenraizados, de gente em dificuldades (porque é difícil emigrar), de famílias quebradas (porque os emigrantes vêm muitas vezes separados), de gente que está a começar do zero.

 

Ou seja, mesmo uma imigração bem sucedida, quando é em larga escala, não pode deixar de "queimar" uma ou duas gerações que terão a vida complicada com as dificuldades de integração, da adaptação à língua, aos costumes, ao clima, à alimentação, às instituições, etc...

 

É muito mais fácil educar um bom português num lar português do que transformar um emigrante num bom português. Se tantas vezes os emigrantes nos dão provas do contrário, dando-nos exemplo em tantas virtudes, é só um sinal maior da falência de alguma da nossa educação: é fazer pior o que era mais fácil...

 

Não afirmemos de ânimo leve que o nosso declínio de natalidade "se resolve", ou que "se resolve com imigração", ou que "depois já vemos como nos safar". Um forte decréscimo na população autóctone de um país é sempre um problema sério, de consequências vastas e prolongadas no tempo.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 13:27 | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Os servos do Estado

A desconfiança que os portugueses têm na liberdade mete medo. Prefere-se o servilismo estatal, pois acredita-se na ilusão de que a decisão, por vir do Estado, será mais justa e neutra. E a justificação ainda assusta mais: ninguém questiona a ideia (a malta até concorda que ela é boa), mas sim o facto de os portugueses não serem capazes de decidir por si próprios. É, pelos vistos, uma incapacidade cultural. Eis a herança de séculos de servilismo estatal.

publicado por Alexandre Homem Cristo às 11:38 | comentar | ver comentários (18) | partilhar

O ministro já não é director de todas as escolas

 

Há anos que se fala de autonomia nas escolas. Aliás, há décadas. Vive no discurso de todos os partidos políticos, habitou também no discurso dos sucessivos governos dos últimos 20 anos, e está consagrada no decreto-lei 43/89 (de há 23 anos). Aparentemente consensual, tudo levaria a crer que tínhamos as condições para que a autonomia escolar fosse hoje uma realidade. Acontece que não é. Se olhar para o funcionamento das nossas escolas não for suficiente para o constatar, podemos verificá-lo nas comparações internacionais (cf. Eurydice, 2007).

 

Ao contrário de muitos dos países europeus, as nossas escolas não têm autonomia na gestão do seu financiamento público. Os directores não têm autonomia para escolher os professores, ou para despedir os que não cumprem as suas funções. Nem têm autonomia para escolher, despedir ou agir disciplinarmente sobre algum do pessoal não-docente. E, quanto aos horários escolares, nem sequer a sua gestão é feita pela escola.

 

O desfasamento entre o discurso e a realidade não deixa de ser intrigante. Apesar do aparente consenso que a questão gera em Portugal, o nosso sistema educativo não acompanhou a expansão da autonomia nas escolas que marcou a década de 1990 na Europa. Se todos concordam, se está na lei desde 1989, e se desde há muito preenche o discurso dos nossos governantes, por que razão não existe na prática?

 

A pergunta é pertinente, e a resposta bastante simples. A autonomia não se tornou uma realidade porque ninguém o quis. Serviu mais para legitimar discursos do que para guiar as medidas políticas na educação. E não se pense que esse uso indevido ficou sem consequências, pois teve principalmente duas. Esvaziou o significado do conceito de autonomia escolar, e criou a ilusão de que essa autonomia existia.

Como tal, sob a máscara da defesa da autonomia, cada dificuldade operacional nas escolas foi resolvida com mais centralismo e com mais controlo estatal. Preferiu-se impor às escolas uma decisão, em vez de lhes atribuir a liberdade para tomar a sua. Durante mais de 20 anos, ser ministro da Educação foi ser director de todas as escolas.

 

Uma das mais importantes vitórias deste governo na Educação é a ruptura com esse passado. A autonomia escolar foi eleita prioridade e, a partir do próximo ano lectivo, passará do discurso para a realidade. As escolas terão autonomia para gerir os tempos lectivos e para oferecer cursos com planos curriculares próprios. Poderão distribuir os horários dos professores ausentes pelos contratados na sua escola. E terão maior capacidade para dar aos seus alunos uma oferta educativa que responda às suas necessidades.

 

Comparado ao que existe noutros países europeus, ainda não é muito. Mas face à nossa realidade, também não é pouco. Avaliemo-lo pelo que é: o início, apenas o ponto de partida, e não o de chegada. E é igualmente a marca distintiva de um ministério que não se limita a seguir o guião da troika. Podem não ser estas as mudanças que fazem manchetes, ou que abrem telejornais. Mas são estas as mudanças que fazem a diferença.

 

[publicado no "i"]

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 08:55 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Segunda-feira, 23.07.12

Devemos preocupar-nos com a Demografia? (I)

 

Na sequência de vários posts aqui no Cachimbo que tocaram este tema, queria deixar também algumas reflexões sobre o assunto. Em diversos posts tentarei abordagens diversas ao assunto.

 

A primeira observação é que a preocupação pelo declínio na fecundidade em Portugal, como em qualquer outro lugar, remete para um problema cultural.

 

Ou seja, olhamos para o número de filhos dos portugueses, mas também olhamos para os fenómenos migratórios. Nascem menos portugueses, mas podem vir para cá muitos estrangeiros e o número de habitantes mantém-se constante. O que fica em causa é a identidade do país, a cultura que será fruto desse mix de gente. Para algumas pessoas isso é preocupante, para outras é absolutamente indiferente.

 

É bem verdade que o Portugal que temos hoje é fruto de muita mistura populacional, pois somos um povo aberto, emigramos e admitimos bem a imigração. É uma das nossas qualidades, e essa abertura é ela mesma um traço da cultura portuguesa. Portanto "o Portugal que eu amo" inclui traços de África, do Brasil, de muitos países da Europa, de influxo cultural americano, etc.

 

Com o declínio da fecundidade observado nos últimos anos entre os portugueses, torna-se certo que a população futura, olhando para os próximos 20 ou 40 anos, ou será muito menor, ou será muito diferente (se houver imigração). A própria diminuição de população autóctone é um convite à imigração, pois as estruturas existentes no país "pedem" quem as ocupe e as faça perdurar.

 

Não imagino nem desejo que a cultura portuguesa daqui a 20 anos possa ser igual à de hoje: de tão grande e variado "caldo" de gente sempre surgirão coisas novas.

 

Mas temo que possamos assisitir a uma mudança demasiado grande, demasiado rápida (porque o nosso inverno demográfico tem essa escala), e que haja um declínio cultural que venhamos a lamentar. Sei que outras pessoas com opinião distinta sobre os valores de Portugal e do passado português não se preocuparão muito com isto (e espero que em 2012 já se possa escrever esta frase sem temer leituras paranóicas centradas no Estado Novo...). Os nossos tempos não são nada bons na preservação de tradições e de valores culturais, são muito melhores em abraçar revoluções e engolir indiscriminadamente estrangeiradas. A troca de uma boa parte da população do país por gente de outros lugares não vem em boa altura.

 

Isto sem paranóias nacionalistas: sou a favor de que a imigração continue tão livre como até agora, e que as pessoas escolham as suas influências culturais também em liberdade. Venham daí os de fora, enriquecer-nos culturalmente como até agora. Mas não será demais pedir só isto: gostava que mais dos portugueses de amanhã fossem educados em lares portugueses de hoje...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 16:25 | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Da série "Vale a pena ler"

«Aquilo que os nossos descendentes não conseguirão compreender é a nossa inacreditável ligeireza e inoperância perante factos devastadores, que subjazem a tudo o mais: "No primeiro semestre deste ano, nasceram menos quatro mil bebés do que no mesmo período de 2011. Se a tendência de decréscimo se mantiver, 2012 poderá ficar para a história como o ano em que os nascimentos não chegaram aos 90 mil, algo que nunca aconteceu desde que há registos" (DN, 5/Julho). Sem portugueses não há economia, consumo, emprego, ensino, justiça, país. Com a atenção centrada no défice, desemprego, ou pior, nas tricas do momento, Portugal resvala para a decadência perante a apatia generalizada. Somos um dos países do mundo com menor taxa de fertilidade, muito inferior à dos nossos parceiros, aliás também entre os mais estéreis. Essas sociedades desenvolvidas há muito identificaram o problema e criaram políticas resolutas para o enfrentar, com sucessos muito díspares. Em Portugal a medida recente neste campo é o subsidiação do aborto, que aliás é a única área da Saúde onde os cortes financeiros não têm efeito.»

 

Ovo de crocodilo, por João César das Neves, no Diário de Notícias.

publicado por Paulo Marcelo às 13:10 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Domingo, 22.07.12

Do que está à espera o Ministério Público?

O coletivo de juízes do Tribunal do Barreiro considerou que da prova produzida durante o Julgamento resultaram fortes indícios de que existiram pagamentos ilegais dentro do Ministério do Ambiente. Durante as sessões de julgamento, três testemunhas afirmaram sob julgamento que o antigo primeiro-ministro José Sócrates recebeu pagamentos em dinheiro para viabilizar o projeto do outlet de Alcochete. Recorde-se que foram estava em causa a construção de um mega centro comercial em plena Zona de Proteção Especial do Estuário do Tejo, na altura em que o ex-primeiro-ministro José Sócrates era ministro do ambiente. Os magistrados entenderam não ignorar estes três depoimentos, mandando extrair certidão autónoma para que seja finalmente investigado a fundo o que se passou e para que José Sócrates se possa defender. Tudo isto comprova a incompetência (ou mesmo falta de isenção) da Directora do DCIAP Cândida Almeida, que durante vários anos impediu, sob o alto patrocínio do PGR Pinto Monteiro, que se investigasse a sério o envolvimento de José Sócrates neste licenciamento ilegal. Espero que o Ministério Público mude agora de atitude. Já é tempo de termos a mesma exigência perante a alta corrupção do Estado do que aquela a que assistimos na pequena criminalidade. Todos os cidadãos devem ser iguais perante a lei e, já agora, perante os procuradores do MP. Tenham mais ou menos poder, sejam ou não ministros, usem ou não avental. A isso chama-se Estado de Direito.

publicado por Paulo Marcelo às 12:48 | comentar | ver comentários (12) | partilhar

Fim do euro (44) Cerco à Grécia

FMI quer cessar ajudas à Grécia, que poderá abrir falência em Setembro

 

BCE deixa de aceitar "por agora" obrigações gregas como activos de garantia

 

Ainda vêm com a conversa de que será possível conter o contágio da Grécia para os outros países, no preciso momento em que a Espanha está em alerta vermelho. A hecatombe segue dentro de momentos. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 11:00 | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Crónicas da Renascença: Mozart e os Três Teólogos*

Há 15 dias, recomendei aqui a Autobiografia de Chesterton, recentemente editada pela DIEL, como livro a levar para férias. Hoje faço o mesmo com Confissão por Mozart, um pequeno conjunto de textos de três dos maiores teólogos do século XX (Von Balthasar, Karl Barth e Ratzinger) sobre o compositor de Salzburgo. Com edição da Lucerna e traduzidos por Andreas e Wolfgang Lind, são textos amenos, sem nada de técnico e acessíveis a quem não tenha conhecimentos especializados nem de música nem de teologia. Tal como a obra de Mozart.

De resto, a aparente facilidade da música de Mozart (“fácil para as crianças e difícil para os intérpretes”, diz o pianista Alfred Brendel, citado por Joana Carneiro na Introdução) é um dos fios condutores do livro. Uma facilidade em que Barth vê um “acesso directo a Deus”, chegando a compará-la ousadamente à Revelação bíblica, e Ratzinger uma especial “inspiração”, palavra conotada com as Escrituras na tradição cristã.

Mozart “diz como tudo é” e “apreende o universal”, acrescenta Barth. “Quem o escuta pode compreender-se a si mesmo enquanto Homem” porque a obra de Mozart exprime a plenitude da nossa condição em todas as dores e esperanças, tristezas e alegrias, derrotas e vitórias. Nos momentos de júbilo, transporta sempre em negativo a inquietação de quem sabe que o mal e o pecado ameaçam o mais inocente gesto humano, e nos momentos trágicos  dá-nos “o cântico triunfal da criação redimida, cujo sofrimento e culpa não se representam como passado, mas como presente superado e vencido, perdoado e iluminado”, na fórmula entusiasta de Von Balthasar.

Em Mozart, “a gravidade flutua e a leveza torna-se pesada”. Como a própria vida. É um clássico profundamente humano. É um clássico porque é profundamente humano.

 

*22/7/2012

publicado por Pedro Picoito às 09:22 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sábado, 21.07.12

LXIV

publicado por Nuno Gouveia às 15:23 | comentar | partilhar

O IDL devia vir ao Norte

Através deste texto do Nuno Lobo verifico que a sessão que o IDL organizou esta semana sobre as relações entre a comunicação social e a política deve ter sido interessantíssima. Aliás, tenho reparado que têm organizado encontros de elevada qualidade, daí o meu “desejo” de colocarem o Porto na rota das suas tertúlias.

 

Devo dizer que tenho algumas discordâncias com o que o Nuno escreveu no seu comentário, que, presumo, seja também um resumo do que foi discutido na tertúlia, nomeadamente nos pontos 1 e 5. O que grande pecado da imprensa portuguesa, sobretudo na área da política, é transparência. Ou melhor, a falta dela. O escrutínio que é exercido sobre os media deve advir sobretudo do público, que é consumidor do produto que eles vendem. Até penso que, em parte, isso tem vindo a acontecer com a quebra significativa de vendas em alguns meios. Eu continuo a comprar jornais, mas quantas pessoas não conhecemos todos que deixaram de os comprar, acusando-os de não terem credibilidade? O mesmo se pode dizer em relação à televisão ou à rádio. A crise da imprensa terá diversos motivos, alguns identificados pelo Nuno Lobo, mas creio que em Portugal um deles é precisamente o descrédito de boa parte dos media, que advém sobretudo da falta de transparência dos critérios editoriais. 

 

No ponto 1 o Nuno refere o “jornalismo interpretativo” como fonte de problemas para o sector. Menciona que o jornalista não deve formar e influenciar a opinião de quem procura relatos meramente objectivos. Ora, seja através das notícias ou da opinião, tem sido desde sempre esse o papel da imprensa. Nas últimas décadas, o jornalismo descritivo tem perdido espaço nas redacções dos jornais e das televisões, e há efectivamente uma tradução que os jornalistas fazem da realidade, e que até é muito difícil que tal não aconteça. Todas as decisões no jornalismo implicam uma escolha que se vai traduzir na forma como a notícia é percepcionada pelo leitor: o alinhamento, o ângulo em que a história é relatada ou a densidade da notícia, por exemplo. Esperar que não exista esta subjectividade, e logo, a dimensão opinativa numa notícia, não me parece concretizável. Sem dúvida que hoje encontramos muitas peças de reportagem que poderiam ser artigos de opinião. E a distinção entre notícia e opinião é cada vez mais ténue. Mas os leitores (na sua maioria) procuram diferentes visões da notícia e não gostam apenas de ver os factos (estilo EuroNews), e o jornalismo meramente descritivo está condenado ao fracasso. Então qual é o problema neste ponto em Portugal? A minha interpretação é precisamente a falta de transparência dos órgãos de comunicação social, que insistem em afirmar que são parte desinteressada da arena política, quando muitos dos seus actores, quando não as próprias direcções, têm uma agenda própria ou um lado ideológico. E isso leva a que as pessoas percam a confiança no que é relatado, pois nota-se que existe uma direcção política mas não uma declaração de interesses associada. O mesmo se pode dizer em relação a muitos comentadores e colunistas da nossa praça, que aparecem sempre aos olhos do público como “independentes”, quando se sabe que isso não é verdade. E as pessoas, não sendo burras, desligam-se.  

 

No ponto 5, o problema da falta de transparência ainda me parece mais evidente. Não tenho problema nenhum que jornalistas tentem fazer política, se o processo for cristalino. Pode parecer contraditório, mas temos exemplos em diversos países onde isso sucede e a democracia não é afectada. Seja simplesmente para ganhar audiências ou para influenciar o rumo do país. O melhor exemplo que conheço é os Estados Unidos, onde a imprensa habitualmente tem uma agenda bem definida. E se houver pluralidade de correntes, todos se sentirão representados. O problema que encontro é que muitos meios portugueses (e jornalistas) não são transparentes e agem sob a capa de uma isenção e imparcialidade que obviamente não existe. E isso leva à descredibilização e opiniões generalizadas negativas sobre o sector. Discordo que exista uma Entidade Reguladora, ainda para mais a intervir no que os jornalistas podem ou não fazer. Se um jornalista (e temos alguns) faz política, activa ou dissimulada, e se não existir transparência, a pressão deve ser sobretudo social. Mas não me parece que o melhor caminho seja colocar uma ERC qualquer a impedir um jornalista de fazer o que quer que seja. Seria muito perigoso. 

 

Nota: Não precisamos da ERC para nada. Os recentes episódios, seja o caso Miguel Relvas, a proibição de sites desportivos de transmitir resumos do futebol ou a sua decisão sobre os comentários dos jornais, só acrescentaram mais argumentos para a sua extinção. 

publicado por Nuno Gouveia às 12:28 | partilhar

Não anda longe da verdade

publicado por Paulo Marcelo às 09:49 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 20.07.12

A comunicação social e a política

Dentre o que foi dito e o que ficou por dizer durante o debate do IDL-Instituto Amaro da Costa, que colocou o Carlos Magno e o Joaquim Vieira a falar sobre a relação entre a comunicação social e a política, deixo aqui algumas conclusões a que cheguei:

 

1. Não obstante o primeiro ponto do Código Deontológico do Jornalista afirmar que “a distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”, não é raro assistirmos hoje à prática de um “jornalismo interpretativo” (para usar a expressão cara ao Ministro Miguel Relvas), em que os autores das notícias não deixam os factos falar. Em vez de ser deixado às pessoas a liberdade de formar a sua própria opinião a partir dos factos relatados, os jornalistas optam antes por antecipadamente formar e influenciar a opinião de quem procura relatos meramente objectivos e fieis. A política não incumbe ao jornalista e sobretudo não incube ao jornalista que tem como matéria de trabalho os assuntos políticos.

 

2. Há hoje um consenso em torno do facto de as relações entre os jornalistas e os políticos ser demasiado interdependente – os políticos usam os jornalistas para veicular informação que lhes interessa e os jornalistas usam os políticos para ter material de trabalho – dando lugar a familiaridades e cumplicidades perversas, desde logo ilustradas pelo facto de uns e outros se tratarem pelo primeiro nome. Alguns dizem que o problema principal está na precariedade da carreira dos jornalistas, que hoje muitas vezes parece servir de rampa de lançamento para outras actividades profissionais.

 

3. Ficamos a saber que as pressões dos responsáveis políticos a órgãos de comunicação social são frequentes e que a regra passa pela sua desvalorização por parte das direcções. Pode-se compreender que tem haver bom senso e equilíbrio no modo como os órgãos de comunicação social reagem a pressões, mas da suspeita de que o tipo de reacção às pressões poderá ter menos a ver com a gravidade da pressão e mais com a sua cor política já ninguém se livra.

 

4. Independentemente do muito que foi dito, eu encontrei uma virtude na deliberação da ERC. Foi nela que sem esforço encontrei a descrição exaustiva do caso Relvas-PÚBLICO. Complementarmente, fiquei a conhecer melhor o modo como evoluem as relações entre os profissionais e órgãos de um jornal. De qualquer modo, concedo que isto seja pouco e que não seja este o papel devido a uma entidade reguladora da comunicação social. O que a deliberação da ERC poderia e deveria ter sido, e quais as suas implicações caso tivesse sido diferente, é algo que ainda não consegui perceber.

 

5. É necessário que haja regulação e que o regime democrático esteja salvaguardado dos perigos que decorrem do uso abusivo do poder político. Mas o inverso é igualmente verdadeiro. O poder da comunicação social junto das pessoas e a influência que exercem nas suas opções políticas não é menos relevante. A regulação também deve passar por impedir que os profissionais da comunicação social cedam à tentação de também eles fazerem política.

 

6. Não existe um código deontológico dos políticos. Mas existe um escrutínio permanente da actividade política que passa pela justa ou injusta descredibilização deste ou daquele político e pela sujeição ao voto dos eleitores. Os jornalistas têm um código deontológico. Mas independentemente do bom ou mau jornalismo que façam, não são sujeitos a qualquer escrutínio, podendo permanecer na carreira eternamente enquanto estiverem nas boas graças de quem lhes paga.

publicado por Nuno Lobo às 16:00 | comentar | ver comentários (21) | partilhar

A suspensão do euro

Suspender o euro temporariamente? Ou seja, voltar ao escudo durante uma temporada e, depois, regressar ao euro? Pode parecer uma solução do além mas para uma certa esquerda e especialmente para Ferro Rodrigues parece ser um caminho possível. Ao ler a entrevista de hoje no "i", fica-se com a certeza acrescida de que da esquerda não temos nem alternativas credíveis nem tão tão pouco um simples exercício de humildade em reconhecer os erros do passado.

publicado por Vasco Mina às 07:35 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Causa e efeito

Ontem, em plena sessão da Comissão Parlamentar de Educação, com Nuno Crato e secretário de estado, pudemos assistir a um comportamento peculiar de professores, que decidiram interromper os trabalhos com uma gritaria desatinada. [Ver.] Comportamento curioso da parte de quem se quer, justamente, respeitado. Não sei se aqueles professores apreciarão ser interrompidos nas suas aulas por berrarias pouco racionais.

O desalinho impróprio daquele grupo de professores, teve, no outro termo, como contraponto, a desvergonha do ministro e equipagem. Depois de, na passada Sexta-Feira, ter rebentado, em catadupa, fruto de um misto de incompetência e maldade (em proporções desconhecidas), o resultado do seu trabalho de meses, o ministro e ajudantes prosseguiram, ali, na sessão, o seu exercício embaraçado de sofismas e ocultações. Esse exercício é tanto mais condenável, quanto se acrescenta, como um corolário, ao processo miserável da semana passada.

Acrescente-se agora que, naquela sessão parlamentar, havia uma relação de causalidade entre as duas faltas de vergonha. Na verdade, o critério não é o barulho ou o bom comportamento e uma não é comparável à outra. O desatino das galerias não é certamente um efeito de causa desconhecida.

publicado por Carlos Botelho às 01:46 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quinta-feira, 19.07.12

A nova élite

Há quem não saiba a diferença entre um serralheiro e um professor.

Agora, chamem-me elitista, que até acho graça.

publicado por Carlos Botelho às 21:38 | comentar | ver comentários (21) | partilhar

Cachimbos de lá


Pierre Etaix (?), Playtime, 1967.
publicado por Pedro Picoito às 19:41 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cair no abismo respeita a Constituição

O presidente do Tribunal Constitucional (TC) deu uma entrevista em que fez várias considerações políticas sobre consolidação orçamental. Segundo ele (mas quem é que o elegeu para isto?) a consolidação passa necessariamente pelo aumento de impostos e talvez, vagamente, pela redução da despesa.

 

Em primeiríssimo lugar, como é possível este abuso de poder? O senhor presidente do TC nunca ouviu falar em separação de poderes? Não percebe que não lhe cabe tomar decisões sobre eventuais inconstitucionalidades com base numa agenda política particular?

 

Não se sabe ainda se o presidente do TC vai aderir ao BE ou fundar um novo partido político anti-partidos. Sim, porque as suas declarações, para além de entrarem claramente no campo político, alinham na demagogia contra os partidos políticos, ao sugerir que se cortem os subsídios a estes. Esta ideia começa por roçar o anti-democrático, alimentando todos os ressabiamentos contra o sistema actual. Depois, é demagógica, como se a eventual poupança nestes cortes ajudasse de alguma forma significativa a cobrir o “buraco” deixado pela decisão do TC. Finalmente, é insensata por não perceber que reduzir os subsídios aos partidos é a forma mais directa de garantir o aumento da corrupção. Aliás esta ideia, a par do acórdão do TC, revelam mais uma vez uma justiça que vive no mundo da lua, que não faz a mais pequena ideia nem se preocupa com as consequências indirectas das suas decisões.

 

Para além do desastre da decisão do TC, que abre a porta à bancarrota, parece que há novas portas a abrirem-se para garantir que Portugal vá à falência, o mais rápido possível. Fala-se em abolir os cortes no subsídio de Natal deste ano e contestar também a constitucionalidade (!) da eliminação de alguns feriados.

 

Ficamos a saber que entrar em bancarrota respeita integralmente a Constituição, mas que tomar medidas para impedir a bancarrota é totalmente inconstitucional. O mais irónico disto tudo é que a bancarrota traria consequências tão graves, que ultrapassariam muitíssimo os cortes que agora são considerados inconstitucionais.

 

Os juízes do TC andam a brincar com o fogo. Mas parece que só daqui a uns tempos é que virão a ter consciência disso. Portugal está a caminho de imitar a Grécia, não porque há revoltas violentas nas ruas, não porque o consenso político se estilhaçou na AR, mas porque o TC não ponderou as consequências da sua decisão. Quando a Grécia sair do euro e se instalar uma catástrofe gravíssima neste país, talvez os juízes do TC possam finalmente perceber o tipo de labaredas que estão a atear.

 

Na verdade, esta Constituição nasceu torta, a Assembleia Constituinte chegou a estar sequestrada em Novembro de 1975 e, pelos vistos, nunca se vai endireitar. “Endireitar” num duplo sentido: i) corrigir; ii) ser compatível com um governo de direita.

 

Por isto, já há bastante tempo que tive a expectativa de que Cavaco Silva faria como de Gaulle, colocando uma nova constituição a referendo. É chocante termos uma constituição enviesada ideologicamente, quando deveria ser neutra. Mas também há muito que deixei de acreditar na visão e coragem do actual Presidente da República que, também dizem as sondagens, é o pior PR desta democracia.

 

PS. O líder da JSD saiu em defesa de Miguel Relvas, considerando um “exagero” as reacções à “licenciatura” do ministro. O que mais espanta nesta gente, na política desde pequeninos, é a total ausência de intuição política.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 07:03 | comentar | ver comentários (11) | partilhar

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O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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