Quarta-feira, 04.07.12

Fim do euro (43) A Alemanha e o euro

O futuro do euro depende – de forma crucial – da Alemanha e, por isso, é essencial perceber o que move este país e até onde está disponível para defender o euro. No entanto, este Estado tem-se comportado duma forma difícil de perceber e que impede que se leve inteiramente a sério as declarações oficiais.

 

Durante o pós-guerra a Alemanha cedeu com facilidade às pressões e chantagens para pagar a Europa, como se fossem umas reparações de guerra. No entanto, após a reunificação essa predisposição alemã para pagar desvaneceu-se, o que não deve causar estranheza.

 

Neste ponto julgo que não deve haver dúvidas: a Alemanha estabeleceu um limite para gastar com o euro e as resistências a aumentar a capacidade do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE) devem ser levadas a sério. Quando a chanceler diz que não vai haver mais fundos para o MEE comprar as dívidas de Espanha e Itália deve-se acreditar nisso.

 

Por outro lado, a Alemanha quer proteger os bancos alemães, que estão carregadíssimos de dívida dos países em risco. Para isso precisa de comprar tempo e não lhe interessa uma resolução rápida da crise do euro.

 

Finalmente, e esta é a parte mais incerta, talvez o governo alemão veja duas possibilidades no futuro. Ou todos os países passam a adoptar as políticas alemãs e o euro sobrevive; ou há países que não conseguem cumprir as metas orçamentais e acabam por sair do euro. Neste segundo caso, o executivo alemão está preocupado em não ficar em posição de ser acusado de destruir o euro. Quererá ter um discurso de que a Alemanha ajudou até um certo ponto, mas depois foram os países periféricos que não fizeram o seu trabalho de casa e não convenceram os mercados.

 

Há um aspecto em que a Alemanha tem razão: é preciso colocar um limite na ajuda, ainda que se possa discutir qual deve ser esse limite. Se não houver um limite, então é um poço sem fundo e, ainda por cima, é como se a ajuda fosse afinal contraproducente, por substituir as reformas estruturais.

 

Depois de expor isto parece que já estou em condições de responder a uma dúvida que me tem perseguido: se a Alemanha não acredita no futuro do euro, porque é que não acaba já com ele? O governo alemão ainda não está convencido que o euro vai acabar, talvez ainda possa sobreviver, numa versão reduzida. Por outro lado, precisa de tempo para capitalizar os bancos alemães e, ainda precisa de não sair completamente chamuscado de todo este processo.

 

Mas o executivo alemão está errado ao pensar que o euro estaria bem se todos os países adoptassem políticas alemãs. Porque as políticas alemãs, nomeadamente de ter um superavit externo de 5% do PIB, superior ao superavit externo da China (3% do PIB), são insusceptíveis de ser repetidas no resto da zona do euro.

 

Vistos desta perspectiva, não custa tanto perceber os resultados da cimeira europeia da semana passada. Em primeiro lugar, não há nenhuma cedência imediata, tudo vai demorar muito tempo, tanto tempo que a Espanha e a Itália podem ser forçadas a sair do euro antes das primeiras medidas produzirem efeito.

 

Para além disso, a compra de dívida soberana em risco pelo MEE não é uma verdadeira cedência, porque já estava prevista e pressupõe um Memorando de Entendimento, embora não tão exigente como o assinado com a troika pelos Estados que já pediram ajuda.

 

As outras concessões, como a ajuda à banca, foram formuladas de forma tão vaga que podem facilmente ser torpedeadas na concretização dos detalhes.

 

Aliás, quando a Alemanha defende um caminho de federalização orçamental, não deve ser levada a sério. Esta é uma clara jogada política. O governo deste país finge-se muito disposto a ceder, exigindo como contrapartidas condições que sabe serem totalmente inaceitáveis para vários países. Na verdade, está unicamente a tentar livrar-se do ónus da culpa de destruir o euro. Veremos a quem sai furado este jogo. 

 

[Publicado no jornal "i"]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 11:32 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

O Príncipe

 

 

O Liechenstein é um pequeno estado encravado na Europa. Em 2011 foi notícia porque o Príncipe Alois declarou em plena campanha para a liberalização do aborto que não assinaria nehuma lei de liberalização do aborto preferindo deixar de ser chefe de Estado. O problema acabou por não de colocar porque em 2011 o não venceu com 52%. Os defensores da liberalização do aborto acusaram o chefe de estado de pressão sobre os eleitores e apresentaram um novo projecto, sujeito a referendo, que limita os poderes do chefe de Estado. Este domingo realizou-se o novo referendo e 75% dos eleitores votaram pela manutenção dos poderes do chefe de estado.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 11:04 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Um depoimento comovente

A propósito desta maravilha:

 

"Tendo iniciado a minha actividade política e profissional ainda muito jovem, numa altura em que a política mobilizava milhares de cidadãos na primeira década após o restabelecimento da democracia em Portugal, essa intensa participação cívica em que me empenhei tornou-se, à época, incompatível com as obrigações académicas, tal como sucedeu com muitos outros jovens dos mais diversos quadrantes partidários”.

 

Um exemplo cívico para "outros jovens" com uma "intensa participação cívica", que, já se sabe (talvez pela "intensidade"), é "incompatível com as obrigações académicas". Felizmente para nós e para a Pátria (também ela intensamente cívica) que o motivo para a tal "incompatibilidade" com as "obrigações académicas" é puramente cívico e não de outra natureza.

 

Mas não sejamos preconceituosos. Todas as formas de vida têm, num sentido, uma certa dignidade zoológica. Mesmo sendo irritantes para a pele, ridículas  ou repugnantes  - como se sabe, isso "depende do ponto de vista" e "tudo é relativo". Apesar de não haver nesta história natural uma relação simbiótica (não há vantagens para os dois seres associados e não, Miguel Relvas não é uma mitocôndria), mas tratar-se antes de uma relação parasitária em que o organismo em questão não tem, de algum modo, vida própria (mas carece, como de pão para a boca, do seu hospedeiro), este género de criaturas prolifera e defende-se como pode e como sabe - não sabe muito e não fica a dever muito à moral, é verdade, mas a Natureza é libérrima e, portanto, indiferente a esses princípios obviamente deslocados. No fim de contas, todos os bichos têm direito à sua zona de conforto.

publicado por Carlos Botelho às 00:37 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Terça-feira, 03.07.12

Já dizia o meu avô

Cursos superiores a sério só há quatro. Direito, Medicina, Económicas e Engenharia. O resto, dizia o meu querido avô, são mais recursos e não Cursos. Os senhores da Lusófona também são da mesma opinião pois a uma cadeira do curso de Direito deram equivalência a vinte do curso de Ciência Política.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 18:50 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

O estado da arte

Mas será que esta gente (Relvas, Sócrates e tutti quanti) não é capaz de ter um percurso académico são, normal, sério, sem histórias mal contadas, trapalhadas, esquemas, caminhos sinuosos, vãos suspeitos e quartos esconsos?...

publicado por Carlos Botelho às 17:10 | comentar | ver comentários (10) | partilhar

Convite

 

É já sexta feira que o Ministro Pedro Mota Soares estará no IDL. Falará sobre o primeiro ano de aplicação do Plano de Emergência Social e do Princípio da Subsidiariedade. Haverá tempo e espaço para o debate. Inscrições até quinta feira para o endereço electrónico do IDL acima indicado.

publicado por Pedro Pestana Bastos às 13:08 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Esquerda sem alternativas

 

Publicado no jornal "i"

 

Há uma nova teoria da conspiração. Para muitos, é já uma espécie de argumento mágico para atacar o governo, e não há dia em que não surja na imprensa. Diz a teoria conspirativa que a direita governa para desmantelar o Estado Social. Que a austeridade não é imposição, mas sim ideologia. E que o governo não renegoceia já o memorando de entendimento, porque o usa como alibi para privatizar tudo o que mexe. Em resumo, diz-nos que o governo é mau, mas não nos diz o que fariam os bons.

De facto, a teoria conspirativa não indica uma única alternativa (realista) à actuação do governo. Aponta o dedo ao inferno e recomenda o paraíso, sem dizer onde fica e como lá se chega. É, portanto, um exercício de retórica. Mas foi o suficiente para unir um grupo de personalidades de esquerda, e lançar um Congresso Democrático de Alternativas (CDA). Não se sabe o que, em Outubro, sairá destas cabeças, mas imagina-se. Conhecendo algumas das personalidades convocadas, é, até, fácil de antecipar as suas alternativas e respectiva inutilidade. Mas, apesar disso, o CDA não deixa de ter vários significados.

 

Em primeiro, trata-se de um importante reconhecimento público que, actualmente, não existe alternativa ao governo. É um sentimento fatalmente partilhado por vários deputados do PS, e que tem na relação com o memorando de entendimento a questão central. Memorando que muitos dos insatisfeitos, irresponsavelmente, gostariam de ver António José Seguro rasgar.

Em segundo, este Congresso marcará oficiosamente a saída política de Louçã, e possivelmente o início de um novo ciclo na política portuguesa. A ausência de alternativas políticas, o enfraquecimento do PS e a incapacidade de Louçã em fazer compromissos políticos conduziram a esquerda a um beco sem saída. Por isso, a promoção do diálogo entre essas personalidades de esquerda poderá ser útil. Sobretudo, se promover o amadurecimento democrático a que o BE tanto resiste. E, mais ainda, se o transformar no aliado natural do PS e seu eventual futuro parceiro de coligação. É, desde 2009, evidente a necessidade de a esquerda se repensar e se redefinir. E é também evidente que o radicalismo demagógico de Louçã é o maior obstáculo a ultrapassar.

Em terceiro, tendo em conta o perfil dos protagonistas deste Congresso, tudo leva a crer que o reposicionamento político das esquerdas, a acontecer, se fará mais no campo ideológico do BE, e menos no do PS. Vivendo-se hoje uma crise europeia, tanto política como económica, este não deixa de ser um sinal preocupante. Porque o PS, enquanto partido da construção europeia, se encontra à deriva. E porque os partidos à sua esquerda sofrem, em doses redobradas, dos mesmos vícios despesistas. O alheamento à realidade não é, por definição, uma alternativa realista.

 

A esquerda continua sem aceitar que as políticas de endividamento excessivo acabaram. E que o memorando da troika, por mais desagradável que possa ser, não é para rasgar. Enquanto não reconhecer estas evidências, manter- -se-á num estado de negação. No próximo 5 de Outubro, só se as aceitar, poderá propor alternativas.

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publicado por Alexandre Homem Cristo às 08:00 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Segunda-feira, 02.07.12

Eurobonds

Num exclusivo Cachimbo de Magritte, soubemos que o BCE, numa tentativa desesperada de resolver os problemas do euro, encarregou um grupo multi-disciplinar de estudar formas de tornar os Eurobonds mais sedutores para Angela Merkel.

 

Através da análise da idade de Merkel e dos gostos das raparigas da sua geração já foi possível chegar a uns primeiros protótipos:

 

 

 

 

Se este projecto de Eurobonds tiver o sucesso pretendido contrariará a opinião de tantos que, olhando para Merkel, por alguma razão não conseguiram ver nela uma bond girl. O futuro da Europa estará shaken, but not stirred...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 17:11 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Como teria sido não sido






 Mas Whitman, Forster, Strachey, Woolf, Cocteau, Britten e, já agora, Tchaikovsky, Gide, Gertrude Stein, Álvaro de Campos, Klaus Mann e Bernardo Santareno, "noutra época" (com tudo o que isso traz consigo...), não seriam Whitman, Forster, Strachey, etc (com o que significa ser Whitman, ser Forster, etc.).


  




publicado por Carlos Botelho às 00:43 | comentar | partilhar
Domingo, 01.07.12

A Justiça no seu labirinto (II)

 

É neste cenário sombrio que olho para as alterações anunciadas pela Ministra da Justiça nos códigos penais. Apesar de curtas são medidas positivas: valorização de todas as declarações do arguido perante a autoridade judiciária (mas não perante as polícias, o que faz toda a diferença) que passam a servir como meio de prova; julgamento em processo sumário (120 dias) sempre que haja detenção em flagrante delito, ou seja, quando a prova é mais fácil de fazer, permitindo que, nesses casos, o sistema penal seja mais eficaz e rápido.

Não percebo por isso as críticas do representante “sindical” dos juízes falano de uma “justiça à flor da pele”. Como? Será que Mouraz Lopes prefere que os processos se arrastem de tal modo que as testemunhas já não se lembram do que se passou?

São também de aplaudir as alterações nos recursos para o Supremo (restringidos aos casos mais graves) e nas regras da prescrição (suspensa após condenação em primeira instância) que corrigem deficiências há muito identificadas. Mas não se entende porque não se limitou o número de testemunhas, em processo comum, ou que o mesmo procurador acompanhe todas as fases do processo, tal como tinha sido prometido. Paula Teixeira da Cruz sabe o que está a fazer e tem revelado coragem. Mas tudo está lento, demasiado lento.

Aguardam-se as reformas mais difíceis, em especial a do processo civil - o paradigma processual que inspira tudo o resto - e da gestão dos tribunais. Isto para além do mapa judiciário que já está em curso, com as reacções que conhecemos. Mas não há mudança sem sofrimento. E é mesmo preciso mudar, não apenas as leis - isso acaba por ser o mais fácil - mas ir mais fundo, influenciando culturas e mentalidades, o que só se consegue envolvendo os agentes judiciários. Só eles podem trazer a justiça portuguesa para o nosso tempo. Aproximar o tempo judicial do tempo socialmente justo, mais próximo dos cidadãos e das empresas.

publicado por Paulo Marcelo às 11:33 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Grande Final (168)

 

Die Sehnsucht der Veronika Voss, Rainer Werner Fassbinder, 1982

publicado por Carlos Botelho às 00:00 | comentar | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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