Inconsciência


No dia 24 deste mês, escrevi num post:

Esta gente do governo (secretários, ministra e Sócrates himself) devia aprender a não condicionar politicamente a Escola de cada vez que abre a boca. Deviam mantê-la higienicamente fechada. Afirmações sobre "faltas", "retenções", "sucesso", "didáctica", etc que, em pessoas abalizadas, se revestem de um significado meramente técnico, se ditas por aqueloutros, têm sempre um objectivo político que instrumentaliza a Escola (alunos e professores) e que nada tem que ver com o que a ela diz respeito.

A citação aplica-se perfeitamente a este novo plano.
O objectivo do governo (de um qualquer governo) não deveria ser o de "acabar com as repetências", mas sim "acabar" com as razões que levam a que haja repetências - tantas repetências. E isso é coisa, se prosseguida seriamente, para levar anos - não para se anunciar aos quatro ventos e se preparar o terreno retórico, de maneira a "despachar" a medida "progressiva" num instante "socrático": contra tudo e todos, sem ouvir ninguém depois de se ter garantido que se ouviria toda a gente. Com este primeiro-ministro, já se sabe o que a casa gasta.
A "retenção" (ou "repetência", ou "chumbo") não deve ser vista como uma punição, mas sim como uma nova e efectiva oportunidade que é dada ao aluno, para atingir os objectivos indispensáveis estabelecidos. Dirão que, em grande parte, senão na maior parte, não é isso que acontece; que o aluno é, por assim dizer, quase deixado à sua sorte, numa situação em que a única novidade é a sua turma. E, assim, em tantos casos, a retenção tende a repetir-se, não a ultrapassar-se. Tudo isso é verdade. Mas muito pior do que isso é acabar "burocraticamente" com a retenção - ou, pelo menos, dispor uma miríade de pretextos, de "critérios" que, armadilhando o terreno avaliativo das escolas, acabam, intencionalmente, por tornar a retenção artificialmente impossível. (Este segundo "método" anestesiante da Escola já é aplicado há alguns anos - mais do que os dos governos do engenheiro Sócrates...) É costume ouvir-se algumas vozes do interior do establishment político-burocrático dizendo que a melhor prova de não haver "facilitismo" está na quantidade excessiva de retenções e de reprovações que sofremos. Mas não é assim - é ao contrário. As retenções e as reprovações acontecem cronicamente, em grande número, precisamente porque estão instalados vícios que induzem, criam espaço para isso a que se vem chamando "facilitismo".
"Acabar com a repetência" artificialmente, num país que tem uma visão desinteressada da Escola (e do que deve ser a Escola) e que tem a imaturidade cultural que sabemos, é uma medida inconsciente, criminosa. Não basta invocar outros países com tradições, hábitos culturais, perspectivas sociais bem mais afins daquilo que se espera da Escola, do que as nossas. Acenar com "os países do Norte da Europa" não passa de demagogia falaciosa, que nos toma a todos por parvos. O objectivo proposto pelo governo só faz sentido noutras condições que não as nossas. (O argumento típico de José Sócrates segundo o qual, se se espera pelas condições ou se se espera a concordância dos intervenientes, "nunca se fará coisa nenhuma", é tão imbecil que não merece resposta.)
Não há ninguém bem intencionado que não queira "acabar" com as retenções - mas também não há ninguém honesto que não saiba que eliminá-las seriamente é impossível.
Querem reduzir drasticamente as retenções, sem o fazer artificialmente, mas sim efectivamente? Muito bem, há então que criar as condições para que os alunos atinjam os objectivos estabelecidos. Alterar curricula, programas (p. ex., os programas de Português: pensem nas dificuldades de interpretação das perguntas dos exames de 11º e 12º Anos de Biologia, Química e outras que os alunos experimentam), ir criando as condições para uma "cultura" do estudo, do esforço e do trabalho nas nossas escolas, tornar de facto possível a constituição de equipas de apoio pedagógico, etc. É verdade que não é fácil e leva tempo. Fechar escolas e atulhar alunos em depósitos, diabolizar a exigência dos professores, decretar a morte da "repetência" ou sabotá-la administrativamente é mais fácil, não é? Pois, mas as alternativas são duas e exclusivas: ou se tem uma Escola ou se tem um arremedo.
publicado por Carlos Botelho às 22:49 | partilhar