A Repartição do Iraque

Algumas vozes apresentam Joseph Biden como provável Secretário de Estado de uma possível administração Democrata, a partir das eleições de Novembro de 2008. Biden é um dos autores do plano de repartição do Iraque em três regiões "semi-autónomas", o que leva a crer que, se for ele o próximo Secretário de Estado, o Iraque deixará de existir.
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Claro que a frustração causada pela situação actual teria inevitavelmente como efeito a recuperação de uma ideia avançada durante a Primeira Guerra do Golfo, sendo nessa altura rejeitada por quem governava. De resto, uma das razões mais fortes para a manutenção de Saddam Hussein após a primeira invasão do país pelos americanos era precisamente que só o tirano poderia manter o Iraque unido, ou, por outras palavras, que o derrube do tirano teria como consequência a sua implosão.
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Fala-se que se trata de seguir o exemplo da Bósnia pós-1995. Usa-se palavras como "descentralização" e "federalismo", como se estivessem a discutir os planos de regionalização em Portugal ou na Inglaterra, ou até a reviver Filadélfia 1787. De facto, o mesmo já se dissera, em 1995, a propósito da Bósnia. Bem, a Bósnia enquanto Estado deixou de existir. Hoje há duas, se não três, Bósnias, que coexistem à distância sob a vigilância de europeus e americanos. E o exemplo da Bósnia ilustra outra coisa desagradável. A repartição do território nestes termos é uma recompensa, talvez a maior recompensa, para as acções criminosas de limpeza étnica entretanto levadas a cabo. Como se não bastasse, a perspectiva futura da repartição do território não só legitima, como incentiva e obriga a mais limpeza étnica, de modo a garantir que as novas unidades territoriais sejam "homogéneas" e "coerentes", coisa que nunca são.
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Repartir o Iraque, para além de ter consequências geopolíticas profundas, constitui nova sentença de sofrimento para as gentes que já tanto penam. O drama destas iniciativas como a invasão do Iraque é sempre a estratégia de saída. Mas a grandeza de um povo não se mede apenas pelo modo como entrou; a saída também conta.
publicado por Miguel Morgado às 13:31 | partilhar