Tugendhat

Ontem, fui ouvir duas palestras de Ernst Tugendhat na Sociedade Portuguesa de Filosofia. É verdade, o mestre alemão das "Lições sobre Ética" esteve entre nós graças aos esforços de José Sousa Brito e de João Lopes Alves, dois nobres exemplos de generosidade.

As sessões foram extraordinárias em todos os aspectos, a começar pela figura de Tugendhat: já velhote e com grandes dificuldades auditivas, apresentou as duas palestras, disponíveis em versão escrita, em português do Brasil com o inevitável sotaque germânico. Fiquei impressionado com o facto de ter redigido a segunda palestra há pouco mais de duas semanas e propositadamente para os poucos portugueses que se deslocaram até à Avenida da República. Nos períodos de debate, revelou uma comovente modéstia intelectual e o desejo sincero de partilhar as suas hesitações e insuficiências com todos os que o queriam ouvir.

Confesso que não sou grande entusiasta da orientação dos esforços intelectuais de Tugendhat, nem da sua proximidade com um contratualismo igualitário, mas ninguém pode duvidar de que nele se pode encontrar um confronto honesto e necessário com a grande questão que atravessa toda a sua reflexão: a justificação moral, de preferência Metaphysik frei. Na minha opinião, a ideia de uma moral "não autoritária" que se fundamenta exclusivamente pela universalidade, reciprocidade e simetria, não pode fazer justiça às diversas experiências morais. Mas a proposta de Tugendhat e especialmente as críticas de que ela resulta não deixam de merecer a mais genuína das atenções e a mais ponderada das respostas. A sabedoria amadurecida não tem direito a menos.
publicado por Miguel Morgado às 00:00 | comentar | partilhar