Um ano depois

Regresso à revista Atlântico um ano depois do primeiro texto. Por coincidência, a edição n.º 32 sai no mesmo dia em que o Cachimbo de Magritte completa um ano de existência.

O texto para a Atlântico foi escrito no início de Setembro e teve como causa próxima a inauguração de uma estátua de Nelson Mandela junto ao parlamento britânico. Depois veio a vitória da selecção sul-africana no mundial de rugby. Sob o ruído dos festejos multirraciais ouviram-se críticas políticas ao predomínio branco entre os atletas: tal como nos coros de uma ópera de Gluck, a alegria exteriorizada era enganadora, a harmonia aparente e as palavras um prenúncio de violência e tragédia.

Os líderes do ANC intensificam a retórica da ‘discriminação’ e da ‘injustiça histórica’, um discurso hostil à população branca e que pretende legitimar um programa extenso de medidas legislativas de controlo sobre todos os elementos relevantes da vida social. Esta hostilidade coexiste com conflitos internos entre facções tribais. Conjugadas representam uma ameaça ao crescimento económico e impossibilitam a existência de uma democracia liberal, culturalmente cosmopolita, uma visão da África do Sul pós-apartheid incorrectamente considerada como o ideal político de Nelson Mandela. Foi sobre essa impossibilidade e sobre a natureza do regime político Afrikaner que escrevi para a Atlântico.

Por fim, um ano de Cachimbo. À partida pretendia escrever com maior regularidade, mas primeiro a pouca disponibilidade de tempo e depois alguma saturação acabaram por resultar numa participação mais ocasional. Em todo o caso, foi um prazer e um privilégio partilhar esta página com os restantes membros do Cachimbo. Agora vem aí o Outono, há livros e discos à espera e a minha necessidade de consolo satisfaz-se com uma simplicidade burguesa.
publicado por Joana Alarcão às 14:57 | comentar | partilhar