O Lobo das Estepes (10)

Independência e solidão

No Prefácio ao livro, o sofrimento do lobo das estepes é descrito como não sendo devedor de um “defeito da sua natureza” mas antes da “profusão de talentos e poderes que nele não haviam sido harmonizados”. Se a frase dissesse que o sofrimento do lobo das estepes não é devedor de um defeito da sua natureza mas antes da ausência de harmonia dessa mesma natureza, poderíamos pensar que o sofrimento dele é motivado, acima de tudo, por circunstâncias sociais e históricas (p. ex., já o observei antes, por uma educação que teria essencialmente apostado em quebrar a vontade da criança e aniquilar a sua personalidade); mas Hermann Hesse fala antes de uma profusão de talentos e poderes, e isto significa que a qualquer influência que a sociedade e história exerçam sobre o lobo das estepes não pode ser dissociada da sua natureza superior.

Neste ponto concreto, penso ser oportuno trazer à nossa memória as palavras de Sócrates na República de Platão (491d-492a). Diz o filósofo que o mal é, de algum modo, mais oposto ao que é bom do que ao que não é bom. Neste sentido, um homem com uma natureza superior resulta num homem pior quando sujeito a uma má educação do que um homem com uma natureza medíocre; ou seja, as almas mais bem dotadas, se confrontadas com uma educação má, tornam-se extremamente perversas, ao passo que as almas débeis nunca serão causa de grandes bens nem de grandes males (a não ser, Sócrates acrescenta, que se dê o caso de um deus qualquer vir em seu socorro).

Talvez se possa pensar que uma natureza medíocre será sempre mais permeável ao meio social e histórico envolvente. Mas esse não é, definitivamente, o caso do lobo das estepes. Lemos no Tratado que o lobo das estepes é irredutível ao dinheiro, à vida fácil, aos poderosos, ao suborno, ou mesmo a qualquer conformidade a uma vida mediana e medíocre - uma alma independente que encontra o refúgio natural na solidão.

Sofrimento, infelicidade, suicídio, independência, solidão... todas estas características são constitutivas do lobo das estepes. Veremos nos próximos dois posts como cada uma delas adquire um sentido pleno sob o horizonte do confronto do lobo das estepes com o mundo burguês.

As passagens analisadas correspondem à p. 16 do Prefácio e às pp. 52 e 57 do Tratado, Difel, 3ª ed.

Próximo post: O mundo burguês – primeira parte
publicado por Nuno Lobo às 11:49 | comentar | partilhar