Never trust a commie

Com duas ou três palavras e já se sabia ao que vinha, on connaît la chanson, o sindicalista Alfredo Maia. Aqui estava mais uma tentativa de demonstrar que capitalismo e liberdade são conceitos em choque, desta vez na arena dos media. É sempre intrigante saber a que se refere um comunista quando fala de liberdade, mas não vamos complicar a equação.

A escala alegadamente nociva que o sindicalista refere tem, curiosamente, o efeito exactamente contrário. Dentro do conceito de liberdade de informação numa sociedade existe certamente a questão do "acesso" à informação. A possibilidade de desdobramento de conteúdos possibilita a criação de mais e mais plataformas, que possibilitam mais e mais "acesso" e, nos conteúdos pagos, possibilita a baixa dos preços suportados pelo consumidor.

Mas mesmo no mundo hipotético do empresário que, com varinha de condão, tem sempre lucro, mercado e grandes margens, e em que todas as plataformas são viáveis mesmo com multiplicação de estruturas, a escala alegadamente maléfica continua a ter precisamente o efeito contrário do sugerido pelo sindicalista. Um player com grandes margens num mercado significa, genericamente, uma de duas coisas: ou é um monopólio ou está aberta a passadeira de veludo para a entrada de concorrentes. E é precisamente nesta última hipótese que esses países malandros da coisa do capitalismo se baseiam para o mercado dos media e da informação. Mais players significa maior quantidade e diversidade de informação. É este pluralismo, e não um Pravda gigante em várias plataformas com milhares de jornalistas, que garante maior e melhor oferta informativa, e que garante maior facilidade de "acesso" ao consumidor quer por criação de mais plataformas quer pelo custo do "acesso" a elas.

E mesmo nas continhas do emprego, as coisas não funcionam, para variar, da forma que o sindicalista as coloca. Genericamente, produtividade e emprego crescem no mesmo sentido. Curiosamente, uma das razões possíveis é a questão do custo do "acesso": o aumento da produtividade possibilita a baixa de preços, que por sua vez permite aumentar o mercado potencial e o lucro final, não existindo perda, antes pelo contrário, de postos de trabalho.

Há um trabalho muito bom no sector industrial, em que o Nordhaus (o tal que escreveu o livro com o Samuelson) "shows that more rapid productivity growth leads to higher rather than lower employment". Existem muitíssimos trabalhos medindo a totalidadade da economia, e não apenas sectores, e embora com algumas nuances e pistas a desenvolver, a tendência é a mesma: maior produtividade, maior e melhor emprego. Se alguém vir o sindicalista, por favor lance-lhe um destes à tola.
publicado por Manuel Pinheiro às 14:02 | comentar | partilhar