Notas atrasadas sobre o PSD

Pedro Passos venceu forte. Os números dispensam retórica e esmagam qualquer tentativa de os contornar: o PSD tem aquilo que uma grande maioria dos seus militantes quis. E sobre isto não há narrativa desresponsabilizadora que cole, a dimensão da vitória não permite acantonar os votos apenas no "aparelho" ou procurar outro tipo de álibis mais ou menos marginais. Os militantes são e foram soberanos, esta propriedade não os torna especialmente mais nem menos sábios, torna-os decisivos. E foram-no de forma clara.

Aguiar-Branco tem sido um excelente líder parlamentar, ao ponto de já ser uma repetitiva banalidade dizê-lo. Lançou legitimamente a sua candidatura, mas deveria ter agido em conformidade com os dados que da campanha toda a gente, incluindo o próprio, percebeu: que a disputa seria Passos e Rangel. Com a naturalidade com que o fazem os americanos nas primárias, Aguiar Branco deveria ter desistido, a favor de alguém ou não, mas desistido, permitindo um debate público e escolha mais clara entre as únicas duas alternativas reais que se afirmaram. Acabou com menos votos do que as assinaturas que tão energicamente entregou, e com poucos mais dos que as assinaturas necessárias para sequer se apresentar a votos. O dano que causou na candidatura de Rangel, especialmente no espaço mediático, vai muito além dos votos que efectivamente recebeu, os quais sendo ditados pelas circunstâncias são curtos face ao que tem dado ao partido.

Paulo Rangel, o meu candidato, recebeu genericamente os votos do eleitorado PSD que votou Manuela Ferreira Leite nas anteriores directas. Sendo um candidato mais completo que MFL, foi uma relativa surpresa que não tivesse conseguido descolar eleitoralmente, deixando no ar o sentimento que a política partidária, pelo menos no PSD, atingiu um patamar que exige tempo e equipas que não se montam e garantem resultados em pouco mais de um mês.

Resta destas eleições um clima de facilitação do trabalho de quem ganhou. Quem conhece os partidos e este nosso país sabe que esta disposição é frágil e nada intemporal. Mas neste clima de unidade PSD é importante não esquecer quem venceu: Pedro Passos, e que isso lhe dá a natural legitimidade para escolher trabalhar com quem com ele (e o seu programa) concordou. A mobilização do partido poderá eventualmente ser feita área a área, procurando pontos de contacto de modo a mobilizar em torno de algo. A manutenção de António Capucho no Conselho de Estado foi um bom sinal. Cá estaremos para acompanhar o resto.
publicado por Manuel Pinheiro às 23:03 | partilhar