Do cinismo como política educativa

Sou professor há mais de uma década. Já ensinei a ler miúdos de bairros de lata e já dei aulas de Mestrado. Hoje, dou formação universitária a futuros professores do Básico, formação contínua a professores do Secundário e História ao 10º ano. Posso dizer que conheço o ofício e os que o exercem.
Ao contrário da lenda, são poucos os que escolhem esta profissão porque não têm outra "saída" - horrorosa palavra. Mas o desalento está no ar e sente-se cada vez mais. Nos melhores casos, os professores conformam-se com a mediocridade dos alunos, a indiferença dos pais, a solidão a que são votados pelas escolas, a burocrática estupidez do Ministério da Educação. Fazem o que têm a fazer e esforçam-se por ensinar, ainda que sem grande investimento pessoal. Aprenderam a defender-se. Mesmo assim, manter este low profile anos a fio pode ser uma espécie de heroísmo quotidiano. Nos piores casos, porém, os professores tornam-se cínicos. Deixam de acreditar que os alunos possam mudar ou que o seu trabalho sirva para alguma coisa, deixam de acreditar no sistema, deixam de acreditar em si próprios. Por vezes, passam a odiar tudo e todos - a profissão, os colegas, a Ministra ou o Ministro, os pais e, claro, os bárbaros que têm de enfrentar diariamente. Não é preciso ser um génio para ver aqui a origem de muitas depressões. E uma das principais causas de fracasso do ensino público.
O cancro do cinismo é o pior de tudo. Não é a indisciplina, nem o excesso de alunos, nem a ausência de reconhecimento, nem a falta de apoio, nem a incerteza profissional. Tudo isso é mau, é péssimo, mas pode remediar-se. A única coisa que não tem remédio é a perda de sentido. Um professor que não tem razões para ensinar está morto por dentro.
Não se espera, no entanto, que o cinismo ataque também as instituições. Ou a política educativa de um Governo democrático. Pelo contrário, é legítimo esperar que aqueles que nos governam, mal ou bem, e para isso foram eleitos, mal ou bem, acreditem que podem mudar as coisas. Acontece que as provas de aferição e os exames em curso revelam que o cancro do cinismo se tornou galopante no Ministério da Educação. A actual Ministra e a sua equipa, com o tenebroso GAVE à cabeça, já não acreditam que os resultados escolares possam melhorar pelo esforço dos professores e dos alunos. Mas como têm de mostrar serviço, e mostrar serviço é talvez a única motivação dos cínicos, reduziram a exigência dos testes para chegar a melhores resultados. Conseguiram - inevitavelmente. Na União Soviética, as estatísticas dos planos quinquenais também eram inevitavelmente gloriosas em nome dos amanhãs que cantam. Só que não estamos na União Soviética. Embora alguns idealistas não tenham dado por isso.
Ora, se um cínico é um idealista desiludido, nada o ilustra melhor do que este episódio. Depois de ter passado a legislatura a pedir à escola que nos desse a igualdade e o "homem novo", o tal que não fuma, fala inglês desde pequenino e acede ao futuro através do inesgotável Plano Tecnológico, o PS descobriu que a história anda mais devagar do que gostaria. Afinal, o bom selvagem não consegue somar 2+2 sem a mão invisível dos especialistas em "avaliação" da 5 de Outubro. Que não faltou. A bem dos manhãs que cantam, perdão, das estatísticas.
O embuste já foi denunciado, mas não deixa de ser criminoso. Porque se o cinismo pode acabar com um professor, o cinismo como política pode destruir uma geração inteira. Os que passaram pelas escolas portuguesas no último ano não sabem ainda, mas depressa hão-de dar conta que as suas notas falsas não têm crédito na universidade e no mercado de trabalho. Feliz ou infelizmente, quando perguntarem de quem é a culpa, Maria Lurdes Rodrigues e os outros cínicos não estarão cá para lhes responder.
publicado por Pedro Picoito às 14:39 | comentar | partilhar