Leitura Recomendada

«Não estou seguro de que todos aqueles que hoje invocam Keynes a torto e a direito, alguma vez o tenham lido, ou conheçam exactamente as circunstâncias em que ele escreveu ou sobre as quais escreveu. Em particular, quando a invocação é feita para justificar os benefícios dos investimentos em obras públicas, apoiando-se nos seus efeitos multiplicadores, fico com a impressão de que talvez não tenham ido muito além da vulgata Hicksiana do modelo IS/LM, aplicado em economia fechada. E que não terão chegado sequer à sua aplicação ao caso da economia aberta, ou a elaborações mais sofisticados (vg modelo Mundell-Fleming, por exemplo). Posso estar a ser injusto, mas é o que me parece. Não que eu tenha nada contra o modelo IS/LM, que sempre achei um excelente instrumento analítico para se perceberem os rudimentos de política conjuntural, desde que, quando se quiser agir na prática, se tenham percebido as suas limitações.

E porque acho o modelo útil para análises simples, gostaria de o utilizar para comparar (muito grosseiramente) os efeitos multiplicadores em economia fechada e em economia aberta, para tentar demonstrar precisamente porque é que os grandes projectos de obras públicas são desaconselháveis do ponto de vista macroeconómico, dadas as circunstâncias em que vive a nossa economia (crescimento anémico e elevado défice externo).

Recordando que (por se pertencer ao euro) a curva LM se mantém horizontal e admitindo uma propensão marginal ao consumo de 0.75, o efeito multiplicador do investimento público no PIB, em economia fechada, seria de 4. Mas se se abrir a economia e se admitir uma propensão marginal a importar de 0.4 (não devemos andar muito longe disso), o efeito multiplicador reduz-se para 1.5 e o défice externo gerado corresponde a 40% do PIB. I.e. ganha-se, em PIB, 50% do valor investido e importa-se mais de 60% desse mesmo valor! E, no final, qual foi a capacidade reprodutiva criada? Na maior parte dos casos (tirando eventualmente o aeroporto) será mesmo negativa, pois que a exploração dos equipamentos ou das operações estabelecidas deve vir a ter que ser duradouramente subsidiada pelo Estado.

É que se não fosse assim, nós tínhamos obrigação de estar a crescer muito acima da média Europeia, porque, pelo menos desde 1999, temos investido (em percentagem do PIB), muito mais do que a média Europeia. Então porque é que investindo muito mais, crescemos muito menos? Porque a eficiência do investimento tem sido a mais baixa da Europa (Não consigo inserir o gráfico para o provar). Expo, estádios, scuts, etc. afinal não nos puseram a crescer. Então porque é que mais do mesmo há-de ter um efeito diferente?
(...)
E, voltando ao Keynes, será que esta crise poderá dispensar uma intervenção do Estado, estimuladora da procura? Por mim, acho que não, pois acho que vivemos precisamente uma situação onde se justifica o apelo às recomendações keynesianas. Acho que a resposta macroeconómica terá que passar por um estímulo fiscal e por uma redução significativa das taxas de juro do BCE (que está a demorar demasiado tempo).(...)»

Vitor Bento no novo blogue da SEDES
publicado por Manuel Pinheiro às 11:12 | partilhar