Que proposta mais ordinária

Aqui há uns anos num daqueles verões do Algarve, eu e o meu primo Eduardo (aquele gajo do 31) encontrámos numa tasca ao pé da nossa casa uma máquina de jogar futebol, das que se punham moedas e dava para jogar a dois. Ambos estoirámos uma fortuna a jogar naquela porcaria, até o Eduardo descobrir um erro na máquina que lhe permitia meter golos impossíveis de defender. Ora num belo dia, o meu primo lembrou-se de convidar um amigo para jogar contra ele e logo nos primeiros segundos meteu um dos tais golos. Resposta imediata do amigo "pá, que golo mais ordinário".
Decorei para sempre esta expressão, e uso-a para ocasiões especiais. Por exemplo, para o que a Europa está a tentar fazer com a Alemanha - obrigá-la a emitir títulos de dívida pública em conjunto com os seus "parceiros" europeus: uma proposta verdadeiramente ordinária.
Nos últimos 20 anos vários países da zona euro embarcaram numa orgia consumista - sobretudo os PIGS mas não só - permitindo o endividamento alucinante das famílias, das empresas e do Estado. Enquanto isso, os alemães, com a consistência que os caracteriza, ficaram ainda mais competitivos no espaço euro, mantiveram grandes excedentes na balança de pagamentos com o exterior e a habitual disciplina das finanças públicas. E agora que rebentou a crise, obviamente que conseguem crédito a taxas de juro mais baixas que o resto da malta da zona euro. Moral da história: aqui e ali, vários iluminados propõem a emissão de "títulos de dívida pública europeia", o que em termos práticos significa encostarmo-nos à Alemanha, pagarmos menos pelas nossas javardices e obrigá-los a eles, que não se meteram em carnavais, a pagar mais.
Uma ideia brilhante, uma espécie de conto da cigarra e da formiga com o fim ao contrário e acima de tudo uma verdadeira ordinarice. Os alemães, que pagaram ziliões pela construção europeia e pela re-unificação, engoliram Maastricht e largaram o Marco, estão cheios de vontade de embarcar em mais esta "iniciativa de solidariedade europeia".
publicado por Francisco Van Zeller às 01:00 | partilhar