O Potencial

Não passa semana sem que o The Economist elogie o Brasil e a resiliência da sua economia. O Brasil é o menino bonito dos países "emergentes" e dos investidores da "economia global": depois do pânico no Verão passado, em que o Real voltou a perder 50% lembrando os maus velhos tempos, as previsões apontam para uma recessão muito mais soft do que a Europa e EUA e para um crescimento robusto já em 2010. Ao mesmo tempo há espaço para descer as taxas de juro, para o Estado gastar dinheiro e para o banco central ir acumulando reservas aos biliões.
Tudo isto são factos inéditos em tempos de crise. O leitor do Cachimbo, informado e interessado, lembrar-se-á das décadas de hiper-inflação, da dívida externa, das taxas de juro nos vinte e tal por cento. Parece que isso agora é passado, finalmente. E às boas notícias macro-económicas juntam-se outras: a independência energética, a criação de clusters em várias indústrias (ocorre-me agora a Embraer e a Vale) e a afirmação de potência regional (enfim, muito ajudada por aqueles vizinhos tarados).
Com tanta coisa boa, seria de esperar que aterrando em S. Paulo - o monstrinho urbano de 20 milhões de almas que controla o continente - e convivendo com os Portugueses que lá se encontram (muitos e bons) encontrasse um ambiente de euforia. Embora optimistas, os nossos compatriotas queixam-se dos problemas estruturais que faltam resolver. Para além da violência, muitos destes problemas não chegam a Portugal: a burocracia e a intervenção permanente do Estado, a corrupção que consome recursos inimagináveis, a falta de infraestruturas. Diz quem sabe que por isso mesmo o Brasil perderá uma oportunidade de ouro de revelar todo o seu potencial (aquele de que se fala desde o tempo dos nossos avós). Oxalá que não.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:40 | partilhar