E vai ser o fim do mundo

«O desastre vai ser brutal, as dificuldades imensas, o próximo presidente vai ter uma administração hipotecada»
Hoje o Insurgente deixa-nos um certo travo a armageddon, alegadamente vertido pela mão económica do grande satã Bush.

Para além de um certo défice de criatividade no apontar do(s) suspeito(s), tenho alguma dificuldade em perceber exactamente onde é que está o crime. No post citado aponta-se o défice, o que até não é um mau ponto de partida do ponto de vista do réu Bush, na medida em que normalmente o argumento que lhe é atirado é-o no plural: défices gémeos.

O défice da conta corrente é um tema que deixará a maior parte dos leitores a dormir, mas gostava apenas de lembrar que este défice já existia e era apontado como alarmante quando os números se situavam em USD $1Bi/day (4,4%/GDP)na passagem de testemunho de Clinton. Estará hoje em 7%/GDP e as opiniões continuam a variar, desde os que continuam (com as cordas vocais algo cansadas) a gritar "lobo!" até quase o extremo oposto, colocando-o como uma consequência de sucesso que será ajustada se e quando o mercado financeiro o ditar sem qualquer tipo de "dor".

Mas voltando ao défice orçamental, a política aplicada não é assim tão distinta da aplicada por Reagan, mas estranho os argumentos sobretudo no Insurgente. Seria razoavelmente simples (no papel) fazer recuar um pouco mais os valores do défice, bastando para tal fazer o roll-back dos cortes nos impostos e acabar com presença militar externa, nomeadamente os custos (directos e indirectos) da guerra no Iraque e no Afeganistão. Mas parece que é precisamente a questão orçamental da administração Bush que está a caminhar num óptimo sentido, com as últimas notícias oficiais a fixar o valor do défice como o mais baixo dos últimos 5 anos: 1,2%/GDP. A descida do défice deve-se não só a um controlado crescimento de despesas mas sobretudo a um crescimento de receitas fiscais benigno, na medida em que advém não de um aumento das taxas mas antes de uma resposta positiva da actividade económica. A administração Bush puxa os louros para si, alegando mérito nos famosos tax cuts que estimularam a economia e pagaram-se a eles próprios. A verdade é que, mesmo descontando alguma propaganda, há obviamente mérito na política fiscal, e as previsões de valores de défice (e de anulação) para os próximos anos são crescentemente optimistas. Atenção porque o "budget year" vai de (1) Outubro a (1) Outubro seguinte (exc.), pelo que as contas já foram apresentadas neste mês.

Temos então, com cortes de impostos e em guerra, 1,2%GDP (and counting) de défice. É isto que seriamente deve ser comparado à tal saída da NATO?
publicado por Manuel Pinheiro às 17:11 | partilhar