Escolher entre o mau e o muito mau

Temos um dilema: ou um aperto orçamental já, pelo qual poderemos começar a longa caminhada em direcção à recuperação de alguma credibilidade, e minimizar, não sei em quanto, o aperto monetário, ou um aperto monetário de tal ordem violento, que resultará em consequências literalmente imprevisíveis, com excepção desta: um aperto orçamental subsequente, mais brusco e mais amplo do que aquele que ainda podemos fazer. Tirando os inspirados que aspiram economia nos op-eds do Le Monde e do Libé, e, claro, a Ana Gomes, não conheço ninguém que tente raciocinar politicamente a partir do problema económico e financeiro que temos que não equacione assim o nosso dilema. Isto não é de esquerda ou de direita. É assim.

O Conselho de Estado está convocado para quarta-feira.

Tenho alguns votos.

Que o Presidente consiga convencer os governantes a mudar de discurso. Atacar os mercados é proibido. Mesmo que tivessem razão, seria como ladrar à Lua. Não resolve nada. Agrava. Mostra que ainda não se caiu na real. Nós precisamos dos mercados. Os mercados não precisam de nós. Believe it.

Que convença o senhor primeiro-ministro a reconhecer que há uma crise.

Que convença as oposições que contam a colaborarem, não politicando a questão. A saudarem o discurso responsável do primeiro-ministro. Esta parte é fácil.

Que, depois, no tempo certo (rapidamente, não há tempo para o PEC, nem o PEC resolve coisa nenhuma, porque estamos a falar do que é urgente para ontem), o senhor primeiro-ministro adopte medidas, algumas de excepção, para reduzir o défice drasticamente – este ano! – reduzindo as necessidades de financiamento previstas. Outra parte das medidas terá de ter consequências estruturais – ou seja, congelamentos não vale, porque quem congela hoje descongela amanhã.

Que a oposição saúde essas medidas, pronunciando-se sobre elas na fase preparatória.

Que o Presidente se comprometa a dar todo o apoio ao Governo na adopção de medidas que se tornaram inadiáveis. Ça va de soit, mas, é claro, sempre fica dito.

publicado por Jorge Costa às 17:54 | comentar | partilhar