O leopardo cor-de-rosa

Há tempos, a convite do Rui Castro e do 31 da Armada, escrevi um post sobre o Ministro da Cultura com o título supra. Queria eu dizer que António Pinto Ribeiro é o Príncipe de Salinas do Governo socialista: vai mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Passados alguns meses, devo reconhecer que em parte me enganei. Na Ajuda tem-se mudado muito, como o Público ontem notava. E para melhor, porque Isabel Pires de Lima foi uma péssima ministra.
Vejamos as mudanças de António Pinto Ribeiro.
Já se sabia, desde a audição parlamentar de 19 de Março (o seu primeiro acto público ministerial), que defende fervorosamente o Acordo Ortográfico e elegeu a língua como prioridade política. Volta a dizê-lo na entrevista ao Expresso de Sábado. É uma diferença assinalável em relação a Isabel Pires de Lima, que tinha sugerido uma moratória ao Acordo Ortográfico.
Pinto Ribeiro tem também feito por afundar discretamente alguns dos couraçados da anterior armada. Não renovou o protocolo com o Hermitage, poupando-nos a uma segunda exposição milionária dos restos do Museu de Sampetersburgo. Criticou mais de uma vez a fusão entre o São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado vulgarmente conhecida por OPART, dando a entender que tenciona abandonar o modelo (resta saber quando). E adiou para data e local indeterminados a construção do Museu Mar da Língua, um dos encargos mais temíveis da gerência finda, o que coloca em risco a sua viabilidade por falta de fundos europeus - não sei se de propósito, mas ainda bem.
A concretizar-se a demissão de Carlos Fragateiro, que tem tido uma gestão do D. Maria II no mínimo discutível e que os jornais asseguram estar por dias, é mais uma escolha directa de Isabel Pires de Lima que se põe em causa.
Mas a maior ruptura com o statu quo ante está na mudança da política de subsídios à criação. Além de ter alterado as regras através do novo Director-Geral das Artes, Jorge Barreto Xavier, no sentido de haver mais transparência e menos arbitrariedade nos concursos, Pinto Ribeiro disse no Expresso que "o Ministério da Cultura deve avalizar e contratualizar, em vez de criar uma rede de subsidiodependentes". Falta pôr isto em prática, claro, mas o conceito é uma pequena revolução na política cultural à esquerda. Até estranho o silêncio com que foi recebido no meio, sempre tão vocal. Está tudo a banhos?
Contas feitas, e não sei se por falta de dinheiro ou por convicção ideológica, este é talvez o Ministro da Cultura mais "liberal" dos últimos tempos. Mas só até certo ponto: não passa de intervencionismo disfarçado a ideia, que confidencia ao Expresso, de contrair empréstimos na banca para financiar jovens criadores (subsídios, portanto) com base na avaliação do seu "potencial" pelo Ministério.
Avaliar o "potencial" de um artista? Não, Sr. Ministro... Sabe tão bem como eu que avaliar a produção artística é o nó górdio de de qualquer política de subsídios. Se é assim para a produção, imagine para o "potencial". A esquerda pode ter ido a banhos, mas aqui a direita não dorme.
publicado por Pedro Picoito às 17:25 | partilhar