Coscuvilhice de Estado

Em Portugal, temos por hábito perder demasiado tempo a pensar e discutir coisas sem importância nenhuma, ficando naturalmente com pouco para as que realmente importam. O mais recente 'caso' das escutas entre a Presidência e o Governo é uma das coisas importantes que se afogou no fluxo dos vários faits-divers deste Verão pré-eleitoral. Não é um mexerico de Verão, é uma questão com tremendas repercussões políticas e institucionais. O que está em causa, para além do óbvio, é o respeito pelas instituições soberanas da nossa democracia, que não podem cair sob suspeita impunemente. Ou é verdade, ou não é (e esperemos que não seja), mas a resposta não se pode resumir a uma crença ou fé na inocência de quem está envolvido. Entretanto, passados dez dias, ninguém na Presidência se pronunciou.

Hoje, numa entrevista ao jornal i, Deus Pinheiro afirma que Cavaco Silva terá certamente comentado o 'caso' em privado, e que se não o fez publicamente é porque tal não deverá ser do interesse do país. O problema desta visão de Deus Pinheiro é a sua concepção muito limitada e paternalista do que é o 'interesse do país', como se fosse preferível para o país não saber que as suas instituições políticas podem estar comprometidas.

A qualidade de uma democracia mede-se, sobretudo, pelo respeito que esta tem pelas suas instituições. E em plena luta eleitoral, talvez fosse conveniente lembrar aos nossos políticos que, muito mais do que eles serem eleitos, o 'interesse do país' está precisamente em manter as instituições democráticas imunes aos seus caprichos.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 20:01 | partilhar