Lei da gravidade

Portugal é um país zangado (deixo de lado nas considerações que se seguem os bobos da corte). Nota-se pela maneira como se fala dele e ele fala de si. Uma multidão só se zanga assim, em boa verdade, com aquilo que lhe é muito caro. E há razões de sobra para a zanga. Não é só a ubiquidade de Sócrates e dos seus dependente, e a náusea que a sua simples aparição já causa. Posso garantir: estive acordado nestes últimos 36 anos e nunca um Governo, um primeiro-ministro ou um político de primeira fila qualquer causaram semelhante efeito de repulsa, porque nunca o descrédito e a desesperança chegaram a este fundo, que parece não acabar de recuar. Mas não é só Sócrates, que se tornou uma maldição. É - tudo. É a cumplicidade, não se sabe se por oportunismo puro, se por inconsciência, se por um composto dos dois em doses difíceis de determinar, das outras instâncias políticas; é o desamparo perante um Presidente, totalmente ocupado com os lances tácticos da sua agenda pessoal, erigindo a estabilidade política em torno do orçamento acima de qualquer outra consideração, como se a estabilidade política que tanto preza não estivesse, de facto, sobre um vulcão - a situação económica e financeira do país -, que pode explodir a qualquer momento, com uma dimensão de estragos inédita, que só uma drástica ruptura de políticas - primeiramente a orçamental - poderia mitigar, se não viesse a ser, como parece ser esse o destino, forçada ex-post facto pelas circunstâncias da explosão. É a oposição à direita, medíocre, desprezível, anos-luz aquém do que dela se gostaria de esperar, jogando ora à defesa, com um discurso vazio como o de Pedro Passos Coelho na feira de Verão do Algarve, ora na mais pura demagogia, como o CDS de Paulo Portas, o que hoje, por exemplo, só um exemplo, quer chamar ao Parlamento a ministra do Trabalho e o seu secretário de Estado para... discutirem os números do Eurostat (!), num número simétrico de abrantização da política e das décimas da estatística que seria cómico, se não fosse o espelho desta gente merdosa que nos governa, ou espera a sua vez de nos governar. É o desastre da Justiça e da Educação, a cujo desmoronamento diário assistimos inermes, entre um encolher de ombros (que fazer?), e umas tiradas ácidas, para desanuviar. É a paisagem desolada dos media, onde publicamente deveríamos tomar conhecimento do que se passa à nossa volta e reflectir sobre isto tudo: sim, repito, os jornais portugueses de referência não valem o papel que custam, dominados que estão por uma classe de jornalistas genericamente ineptos, preguiçosos e convenientemente enviesados. Num ambiente assim, apodrecido, sufocante, é natural que um país esteja zangado. É a impotência, a falta de saída, a hipoteca disto tudo e do seu futuro, a paródia da liberdade. Vai, é claro, acabar mal. Muito mal. É a lei da gravidade.
publicado por Jorge Costa às 18:44 | partilhar