Nuno Álvares Pereira e os seus heterónimos (2)

A historiografia do século XX sobre o interregno de 1383/85 e, portanto, sobre Nuno Álvares Pereira pode dividir-se, simplificando um pouco, em três grandes correntes.
Uma é a dos historiadores nacionalistas, tanto de esquerda como de direita, para os quais os acontecimentos de 1383/85 são uma revolução patriótica contra Castela. Fortemente marcada pelo nacionalismo do século XIX, influencia de modos diferentes monárquicos e republicanos, o Estado Novo e o reviralho, católicos e jacobinos, Jaime Cortesão e João Ameal, António Sardinha e Marcelo Caetano. Convém lembrar que o nacionalismo também serviu aos republicanos para atacar a dinastia de Bragança e que a oposição a Salazar e o PCP invocaram sempre o interesse nacional.
Hoje esta corrente não é tão visível, mas continua a existir sobretudo através do consenso popular. O seu Nuno Álvares é em grande parte o de Oliveira Martins, o herói guerreiro e místico da independência que, no fim da vida, dá tudo aos pobres e vai para frade. Estes vários elementos biográficos do Santo Condestável podem combinar-se em graus diferentes, dando origem a um Nuno Álvares Pereira mais "santo" ou mais "condestável" segundo a inclinação política, ideológica e até religiosa do historiador. Nada de novo, portanto.
Em contraste, os marxistas vêem no interregno uma verdadeira revolução burguesa contra o mundo feudal que Castela e a aristocracia tentam conservar a todo o custo. O grande desacordo entre os marxistas está apenas em saber se essa revolução, de acordo com ortodoxia de Marx, é bem sucedida, iniciando o capitalismo em Portugal e assim antecedendo a futura revolução proletária que o PCP conduziria, ou se essa revolução não é bem sucedida. Armando de Castro, menos ortodoxo, diz que não; António Borges Coelho e Álvaro Cunhal (que, não sendo historiador, escreveu um livro do mais dogmático marxismo sobre o tema com um título previsível: Lutas de Classes em Portugal no Final da Idade Média), dizem que sim - e a prova seria o colonialismo dos Descobrimentos, iniciado em Ceuta por D. João I .
São os marxistas, dignos representantes das "escolas da suspeita" de que falava Ricoeur, quem contesta pela primeira vez a imagem positiva de Nuno Álvares na historiografia portuguesa. O Santo Condestável torna-se, para Álvaro Cunhal, "o principal chefe da contra-revolução" e, para Borges Coelho, "o reagrupador das forças da nobreza", objecto de "suspeita da burguesia" porque "pretende reanimar a velha estrutura social". Um senhor feudal cheio de "ganância" (Cunhal) e "ambição" (Borges Coelho) que recebe e dá terras apenas para consolidar o seu poder (e é este o homem que a Igreja dá aos pobres para rezarem?, pergunta Cunhal, sempre vigilante com o ópio do povo). Ou, na versão mais matizada de António José Saraiva, "um exemplar extremo do espírito senhorial".
Esta revisão de Nuno Álvares tem uma raiz claramente ideológica e o seu eventual valor historiográfico depende tanto do fim político imediato como do valor filosófico do marxismo. O primeiro é, para mim, muito mais evidente do que o segundo. Deixo um pequeno exemplo, entre a inifinidade dos que poderia citar. A páginas tantas, Cunhal tenta explicar as motivações da nobreza portuguesa que esteve ao lado de Castela e sai-se com esta tirada: "Ante a ameaça de serem desapossadas dos seus privilégios, as classes parasitárias preferiram sempre, a uma vitória das forças nacionais progressivas, a dominação do seu país por um estado estrangeiro que abafe a revolução e lhes mantenha os privilégios." Eis uma frase que nos diz muito pouco sobre Nuno Álvares Pereira, exemplo de um nobre que trai a sua classe escolhendo apoiar o Mestre de Avis e a "independência nacional". Recorde-se, porém, que o livro de Cunhal, depois de ser editado em francês em 1965, sai na versão portuguesa em 1975. As palavras que lemos não nos dizem nada sobre o Santo Condestável, mas dizem-nos muito sobre o que o PCP pensava então do Dr. Mário Soares, esse traidor burguês do socialismo, e do Sr. Carlucci, o embaixador americano em Lisboa...
A aproximação hoje mais consensual à crise de 1383/85 e à realidade histórica de Nuno Álvares Pereira vem dos discípulos da chamada Escola dos Annales, o paradigma dominante entre nós desde o 25 de Abril.
Também este modelo tem dois ramos.
Um vai de Joel Serrão (talvez até de António Sérgio) e chega a Armindo de Sousa e Luís Miguel Duarte, interpretando a "revolução" portuguesa como o resultado de conflitos sociais comuns à Europa pós-Peste Negra de 1348.
O outro vê da guerra contra Castela o triunfo de um sector da aristocracia portuguesa, composto sobretudo por filhos segundos das grandes linhagens tradicionais ou por linhagens secundárias e respectivas alianças matrimoniais, sobre a nova nobreza de exilados galegos e castelhanos que dominava a corte de D. Pedro I e D. Fernando, particularmente os Castro, a família de Dona Inês, os Teles de Menezes, a família da rainha Dona Leonor, e o próprio João Fernandes Andeiro. É a tese de Maria José Ferro, José Mattoso, João Gouveia Monteiro e Mafalda Soares da Cunha, que naturalmente consideram a ascensão fulgurante de D. João I e do seu jovem Condestável, dois filhos ilegítimos e menores das respectivas linhagens, uma confirmação da sua visão global da crise. De facto, é muito simbólico que Nuno Álvares, depois de Aljubarrota, receba três dos mais ricos condados portugueses: o de Ourém, que pertencia ao Andeiro (morto às mãos do Mestre de Avis em Dezembro de 1383, no paço da rainha); o de Arraiolos, que pertencia a Álvaro de Castro (falecido de morte natural em 1384, irmão de Dona Inês, tio do outro candidato derrotado ao trono, o infante D. João); e o de Barcelos, que pertencia a João Afonso Telo (irmão de Dona Leonor Teles que morre em Aljubarrota, depois de passar para Castela).
Uma crítica mais profunda destas três correntes pode encontrar-se aqui, num artigo que escrevi para a revista VER e no qual se baseia este post. (cont.)
publicado por Pedro Picoito às 17:45 | partilhar