The Mamas & The Papas

Ainda a respeito do episódio de plástico que sobressalta a pátria, ouviu-se ontem por aí um excitado criaturo duma Associação qualquer de progenitores do Porto ou arredores. (Dizem que, nos tempos que correm, começa a haver poucos progenitores - talvez, mas pais, como se vê, ainda os há menos.) Diz o homem que a coisa terá sido encomendada [sic!] e revolta-se por ter sido filmada e mostrada. Note-se que, segundo o cavalheiro, constitui problema maior ter sido mostrado do que ter acontecido. Pois é, para que há-de o público saber daquilo? Ver aquelas coisas incómodas? Ainda vão as pessoas pensar que há conflitos disciplinares nas salas de aula. O que vem perturbar o remanso da pax socratica. Agita-se o sujo lodo discretamente depositado no fundo. Como se já não bastasse o mau feitio en masse da professorada, ainda exibem aquelas porcarias para desinquietar os lares, as famílias e tal. E aquele Nogueira teve o descaramento de comentar o caso e, até (rasguem as vestes) sugeriu uma qualquer punição não exagerada. Ao que isto chegou! Estamos no PREC ou quê? queixa-se o homem assustado. As crianças já não podem brincar? Qual é o mal, se a pistola era de plástico?
Só estaríamos perante um problema se a arma fosse real. Foi apenas uma simulação, caramba. Como será, por exemplo, amanhã, simularem estrangular uma professora? Sem mãos de plástico. Que não apertarão realmente, claro. Tudo a brincar. Ou coisas piores. Mas, desde que seja a brincar, não haverá qualquer problema.
Ainda mais curioso foi o facto do tal representante se ter atrevido a dizer que, para o caso, 'uma repreensão é mais do que suficiente'. O sinal dado pelo progenitor mitómano (e também pela directora da DREN) é simples: crianças de 17/18 anos, não se preocupem, sejam energúmenos à discrição, que nós cá estamos para vos cobrir; não temam os professores e os orgãos escolares, porque nós estamos vigilantes.

Estas reacções delirantes são reveladoras e são fruto da campanha constante de achincalhamento dos professores a que este governo se tem entregue desavergonhadamente. Ora é o 'perdi os professores, mas ganhei os pais', o 'antes de um aluno abandonar a escola, já foi abandonado pelo professor', de Lurdes Rodrigues, a acusação de chantagistas(!) aos 120 000 manifestantes, ora é a insinuação (ou insulto descarado) recorrente de que os professores estão habituados a trabalhar pouco, ora o próprio Sócrates berrando irritado, por lhe terem perturbado o estendal da propaganda dos andaimes nas escolas, que 'o tempo da facilidade acabou!', quando interrogado sobre as não-colocações de docentes, etc. Tudo isto e as próprias medidas hostis deste governo misólogo concorreram para uma aceleração da erosão da autoridade natural e até do simples papel do professor na Escola.
Por outro lado, ao mesmo tempo, foi-se alimentando esta hipertrofia da pretensa legitimidade dos "pais" (independentemente de putativas competências pedagógicas ou científicas), bem para lá do aceitável, em se imiscuirem em questões que só à escola dizem respeito e que só por ela podem e devem ser competentemente tratadas. Tudo isto constitui e contribui para uma (ainda maior) degradação da Escola.
E já cansa esta solicitude rastejante de algumas associações de "pais" em relação ao governo... Pobre gente (Sócrates e equipa de Lurdes Rodrigues incluidos) que vê tudo isto como uma espécie de jogo de poderes ou de conquista de territórios: trata-se da ideia peregrina de que há que retirar "poderes" aos professores na Escola, porque eles o têm "a mais" e são um "obstáculo" às "mudanças necessárias" e outras parvoíces desse género. Perdem assim de vista aquilo para que existe a Escola.
Bem, straight shooter, if you know what I mean...
publicado por Carlos Botelho às 19:38 | comentar | partilhar