Retrato das eleições enquanto referendo ao casamento gay

Eduardo Pitta e Miguel Vale de Almeida defendem nos respectivos blogues a mesma ideia: há agora no Parlamento "uma maioria clara a favor da igualdade de acesso ao casamento civil". A expressão é de Vale de Almeida, mas Pitta vai mais longe e diz que 54,4% dos portugueses - os que votaram PS, BE e PCP - seriam a favor da união civil entre homossexuais.
Compreende-se que o activismo gay veja as eleições nacionais do seu ponto de vista particular. A entrada de Miguel Vale de Almeida para as listas do PS tinha o objectivo de roubar esta bandeira ao Bloco, conquistando eleitores à esquerda, e o argumento para o convencer não foi de certeza o TGV. Mas as coisas não são assim tão simples.
Em primeiro lugar, duvido que a bancada do PCP e sobretudo a do PS tenham uma opinião única no tema, que divide os partidos tanto como a sociedade. Excepto o Bloco, claro, que em questões fracturantes funciona - em bloco. Mais do que isso, estas eleições não foram um referendo ao casamento gay, como Vale de Almeida e Pitta parecem sugerir. Até ver, as eleições servem para eleger um Governo e não uma agenda. Se tenho dúvidas quanto aos deputados, tenho ainda mais dúvidas de que todos os eleitores do PS ou do PCP sejam favoráveis ao casamento gay.
Dá muito jeito a ambos inferir da maioria de esquerda no Parlamento a maioria favorável ao casamento gay no país, mas não é muito rigoroso. Dá muito jeito porque assim não tem que se que perguntar realmente aos portugueses o que é que pensam. Não vá dar-se o caso de que a "maioria clara" na Assembleia seja, afinal, bem menos clara na República.
Adenda: Ficámos a saber, pelo menos, qual o nome que os apologistas do casamento gay lhe vão dar quando for a S. Bento: "igualdade no acesso ao casamento civil". Tal como o aborto se transformou em IVG, aí está o IACC.
publicado por Pedro Picoito às 16:36 | partilhar