Cavaco, os jovens e o 25 de Abril

A esquerda anda enxofrada porque Cavaco disse o óbvio: os "jovens" não sabem o que foi o 25 de Abril.
Não há razão para enxofre. Isto mesmo disseram Soares, Sampaio e até Freitas do Amaral em tempos, e a esquerda não se enxofrou. Mas com Cavaco é outra história. Com Cavaco dói.
Cavaco, lembrem-se, é "salazarento", foi professor de Finanças, tem um perfil autoritário, mandou avançar a polícia contra os estudantes e o povo (por esta ordem), não esteve no Tarrafal, não lê livros de poesia e sabe-se lá que outras vilezas protofascistas só à sua Maria confessa no segredo da intimidade. Pois se ele, na última campanha, até queria cantar o "Grândola Vila Morena" em... como é que se chamava aquela terra?... Grândola, acho eu...
Um homem assim é capaz de tudo. Que ele nos venha dar lições sobre a desbaratada herança revolucionária - não, isso não, isso nunca!
Curiosamente, Cavaco está mais próximo da esquerda que fez o 25 de Abril do que da actual direita pós-Muro de Berlim. Como nota o Adolfo Mesquita Nunes (um bom representante de tal direita), hoje a Revolução não entusiasma os mais novos porque triunfou. A democracia, a descolonização e o desenvolvimento são valores consolidados na sociedade portuguesa e ninguém sonha com o que já tem. A tese, de resto, nem é original. François Furet disse o mesmo no bicentenário de 1789 - "a Revolução Francesa acabou" -, com idêntico escândalo da esquerda gaulesa.
Cavaco, no entanto, surpreende-se porque viveu o antes e o depois. E eu não me surpreendo que outros se surpreendam com Cavaco.
publicado por Pedro Picoito às 18:53 | comentar | partilhar