O que o Presidente disse e não disse

Disse que "o partido do Governo" usou a "manipulação", a "mentira" e o "ultimato" para o "colar ao PSD" e "desviar as atenções do debate eleitoral das questões que realmente preocupam os cidadãos".
Disse que só o o Chefe da Casa Civil e o Chefe da Casa Militar falam em seu nome e que "só por isso" fez a "remodelação" de Fernando Lima.
Disse ter "dúvidas" quanto à "veracidade das afirmações" contidas no email que o DN publicou apontando Lima como fonte do caso.
Disse que o sistema informático da Presidência da República tem "vulnerabilidades" e pode ser alvo de intromissão.
Não disse que Fernando Lima foi demitido.
Não disse em que consistem as suas "dúvidas" sobre a "veracidade das afirmações" do famoso email.
Não disse como desconfiou das "vulnerabilidades", quem as terá aproveitado e porque decidiu revelá-las.
Uma vez que nenhuma das suas palavras foi dita por acaso, Cavaco Silva disse muito mais do que eu esperava há algumas horas.
Foi o maior ataque a um Governo vindo de um Presidente em exercício que já vi em Portugal. E Cavaco não sai assim tão enfraquecido da guerra: a guerra ainda mal começou. Com o PS minoritário no Parlamento e obrigado a negociar até à vírgula, com o PSD ocupado na guerrilha interna e a recompor-se da derrota, com os três pequenos partidos muito próximos em dimensão eleitoral e legitimidade política, o Presidente tornou-se hoje o principal rosto da oposição.
Vai ter muitas oportunidades de o mostrar a Sócrates - enquanto o Governo durar.
publicado por Pedro Picoito às 00:08 | partilhar